Mas ninguém assoviou na peça!
O público é convidado a entrar num canto do SESC Consolação que está em obras, espaço que teoricamente serviria pra qualquer coisa, menos pra teatro. Engraçado como tem peças que parecem ter nascido para serem encenadas provisoriamente, em espaços provisórios. Este é o caso de Assovio, monólogo escrito e dirigido por Luís Valcazaras: é quase uma performance, um texto feito sob medida para aquela montagem, naquele espaço, para aquela atriz, numa pequena temporada que espero que só volte a entrar em cartaz se for em espaços que ofereçam a mesma ambientação.
Ao passar pela cortina de cabelos sintéticos que separa a área de espera e o espaço onde ocorre o espetáculo, já é possível embarcar no clima do que veremos: incensos acesos, um ambiente escuro e vazio, com algumas (poucas) fotos em exposição, e lá no fundo, literalmente em um canto, uma atriz encolhida esperando a chegada do público.
Ela está no meio de um círculo formado por dezenas de pares de sapatos femininos de cores e tamanhos diversos, e não consegue sair deste limite – apesar do espaço ser maior. A todo momento ela diz que precisa sair, que quer sair e bum! – se arremessa contra a porta obstruída por ripas de madeira, que fecham o cenário criando ao mesmo tempo um padrão estético na decoração do espaço, e uma prisão simbólica. Povoam sua memória lembranças sobretudo da figura paterna e de suas primeiras crises de síndrome do pânico. Presente e passado se entrecruzam e misturam, e é como se, ao passar pela cortina de cabelos, tivéssemos entrado na cabeça daquela mulher que tenta encontrar lembranças que amenizem seu sofrimento no presente.
Em vários momentos lembrei-me de Psicose 4h48, de Sarah Kane, e esta referência ficou-me ainda mais clara quando a personagem começou a falar nomes de remédios (cena que eu preferia não ter visto, só pra não dizer que esse texto chega perto até demais do de Kane), mas isso passa rápido. Há aqui muito menos angústia e desespero terminais – que a propósito levaram a dramaturga inglesa para o beleléu -, e muito mais ternura, mais nostalgia, mais poesia. Lembrei-me ainda da personagem de Fabiana Gugli em Terra em Trânsito, de Gerald Thomas, presa e sufocada em seu camarim – mas sem aquela verborragia toda e com um bocadão de naturalidade, mas ainda assim passando bem longe do naturalismo.
Apesar do texto cheio de referências e do clima íntimo, o que mais dá gosto de ver nesta peça é a coragem de brincar com os elementos de cena, sobretudo os sapatos, que ganham infinitas simbologias . A iluminação também mostra ter sido desenhada na medida para o espaço, e brinca com as sombras projetadas, as pausas e as transformações sutis por que passa a personagem de Martha Nowill.
Assovio é difícil de classificar como um grande espetáculo exatamente por ser pequeno, intimista, quase um fragmento de algo maior. Mas este algo maior não são outras cenas ou uma continuação, mas sim a coragem e sobretudo a vontade de brincar com simbologias e com a linguagem daquilo que é dito e principalmente mostrado.
1 pequena pérola

