Críticas

Avner, o Excêntrico

por Emilliano Freitas

8 Comentários 24 July 2009

Público, o Excêntrico

Foto: Milena Aurea/ Divulgação

AVNER, THE ECCENTRIC - Milena Aurea (6)

Palhaço bom dá vontade de apertar. Levar pra casa, passar perfume, colocar na estante da sala junto com os outros bibelôs e, sempre que estivermos tristes, é só beliscar as bochechas e tibum, tudo fica azul. Se o palhaço além de bom for velhinho, com uma pinta de Papai Noel e vigor físico de aluno de escola de circo, a gente além de levar pra casa quer que todos os amigos também possam apertar suas bochechas. Avner é assim.

A primeira impressão não é de um palhaço porque não está com a máscara vermelha, maquiagem forte, roupas extravagantes. Parece mais um vovô que ao invés de “jogar a rede” ao entrar no palco, como nos ensinam os mestres, entra com sua vassoura com o único objetivo aparente de limpar o palco. E vai contrariando o manual dos cursos de palhaço quando, ao invés de manter os olhos arregalados como um escoteiro sempre alerta, divaga olhando pro chão, pro teto, pra coxia. Pra desespero de quem reza que toda interação entre público e palhaço vem da improvisação, percebe-se que algumas cenas tinham sido combinadas e nem por isso deixaram de funcionar. Avner estabelece códigos com a plateia deixando claro que tudo não passa de uma grande brincadeira, mas que pra funcionar tem que ser tratada com muita seriedade.

Ele anuncia no início do espetáculo que um grande show começará em cinco minutos. Pára, senta, olha no relógio, deixa o público em pânico. Cinco minutos sem nada acontecendo seria um tédio mortal, então esse é o mote para realizar o seu número. Ele precisa ser amado e só tem cinco minutos para isso.

Faz gracinhas catando os papéis do chão. Se enrola todo quando tenta usar uma vassoura. Dança com copos empilhados. Não consegue manter o chapéu em sua cabeça. Come papel e vomita flores.

O senhor de barbas brancas usa de dificuldades que chegam com a idade, como perda de concentração, força e organização, para fazer o público rir e mostrar que “qualé, ele consegue colocar uma escada no queixo e você mal equilibra um lápis!”

A virtuose é a chave que Avner utiliza para estabelecer sua relação com o público. Mesmo que isso às vezes não dê certo e não passe de uma bobagem (como arremessar pipocas com o pé e pegar com a boca), o mais importante no momento é a troca, refletida nos silêncios na plateia nos momentos de tensão, os sussurros de ahhh quando alguma coisa dá errada, e os aplausos que vinham de dois em dois minutos e deixaram minhas mãos vermelhas (os musicais morreriam de inveja).

O estímulo que o público dá ao artista fazendo a primeira coisa que aprenderam na vida – dar gritinhos e bater palminhas, obriga o cara a decidir se quer agradar ou continuar o seu número. Ele pretendia continuar suas tarefas e equilibrar a escada no queixo, mas o público não cansa de ver o malabarismo com o chapéu. Chega a hora de fazer uma escolha, dar tudo o que os outros querem para ser amado ou se lixar pros estímulos e terminar logo o que tem que ser feito?

Talvez por já fazer esse espetáculo há trinta anos, Avner dissolve os limites entre perder e ganhar. O que é mais importante pro palhaço? E se considerarmos que o palhaço é a nossa imagem refletida no palco, o que pra gente é mais importante? Sendo aquele que não consegue se enquadrar às normas da sociedade porque é um perdedor nato, o palhaço inverte a lógica dos fatos conseguindo chamar a atenção, tendo assim um ganho em afeto, dividido entre o amor e a pena.

Os cinco minutos duram praticamente uma hora e o show prometido nem acontece. Ainda bem! A festa poderia não ser tão boa quando foi a sua preparação.

134Kcal (o mesmo que um Suflair) gastas entre bater palminhas e dar risadas.

P.S.: Momento fofoca “o que acontece numa van do FIT”. Enquanto os artistas iam do teatro ao hotel, uma rainha não parava de fazer piadinhas. Então soltou: “ É muito legal assistir clown, porque a gente sai fazendo gracinhas inúteis.” Se essa lei se aplicar a todos os outros estilos teatrais estamos perdidos!

O que a galera acha

8 comentários até o momento

  1. André Luís says:

    adorei a crítica…
    todo mundo sempre espera ver aquilo que dizem que é o palhaço…to de saco cheio desse povo que diz que diz…
    essa rainha se repete…cuidaod pra ela não perder a cabeça…
    a velha mania de achar que gritou tem sangue, ah sei lá não vou ficar aqui também metendo o pau nas duas rainhas, tem o seu valor, mas em nada me toca, que fiquem girando em seus umbigos!
    p.s.-queria muito uma foto nessa critica
    gde abraço!

  2. Aeh André Luís, valew.
    Colocamos uma foto do Avner na home. Pra ficar bem grandão e agradar todo mundo. Mas vou chorar pra edição colocar uma aqui tb em sua homenagem.
    Quanto a uma rainha, só foi uma piada. É que todo mundo ficou fazendo palhaçada, inclusive a magestada (inclusive li em um certo anti-jornal que uma rainha ia contratar o Avner pra fazer animação na festa de aniversário do seu filho).
    Vi gente tentando equilibrar guardanapo, brincando com o relógio, jogando pipoca pra cima. Infelizmente não vi o espetáculo da realeza para poder dialogar com vc.
    Abç.

  3. André Luís says:

    que bom, fiquei feliz pela foto…
    não entendi que era uma piada, mas,rsrsrsrsr
    Parabéns Emiliano, suas criticas são sempre bem bacanas…e da Juli também
    abraço!

  4. tem piada que é ruim mesmo! daí precisa de tecla sap né.
    aproveite quando ainda todos (ou quase) os seus pedidos podem ser atendidos na Bacante! foto na crítica aí!
    Abç.

  5. Juli says:

    Oba. Valeu! Comente sempre. As que gostar e as que não gostar! Aí a gente vai entendendo onde fez merda ou não…

    Beijo,
    Juli =)

  6. Vanessa says:

    Avner é a maestria do gesto.

    Seu carisma fica quando ele vai embora.
    O palhaço mais lindo de todos!


Trackbacks/Pingbacks

  1. Divulgação artística na internet | Blog da disciplina Cibercultura - - 16. May, 2011

    [...] em praça e mais ligado ao circo e ao palco. Um dos artistas desta modalidade, conhecido como “Avner, o excêntrico”, tem o seu trabalho bastante difundido no [...]

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).