Ay, mambembes!
Foto: Divulgação
Ao entrar no espaço, uma projeção já avisa que será exibido um trecho de um documentário sobre a guerra civil espanhola. Avisar é sempre bom, que a gente sabe que vai ter que esperar um pouquinho pra ver os atores em cena. No vídeo, uma breve explicação sobre o que era o conflito, de onde vinham as pessoas que compunham as frentes populares e contra quem lutavam – as tropas de Franco e Mussolini. Um didatismo um pouco excessivo que também pode ser visto como um zelo a mais com o público, contextualizando o que veremos a seguir. Poderia ter começado sem esse vídeo, mas, no fim das contas, não doeu nada. E de quebra, passamos a conhecer a canção popular espanhola que dá título ao espetáculo:
El Ejército de Ebro
rumba la rumba, la rumba la
una noche el rio paso
Ay, Carmela, Ay, Carmela.Pero nada pueden bombas
rumba la rumba la rumba la
donde sobra corazon,
Ay, Carmela, Ay, Carmela.Contra ataques muy rabiosos
rumba la rumba la rumba la
deberemos resistir
Ay, Carmela, ay, CarmelaPero igual que combatimos,
rumba la rumba, la
prometemos resistir.
Ay, Carmela, Ay, Carmela.Interessou? Ouça AQUI.
Ay, Carmela!, de José Sanchis Sinisterra – já adaptado por Carlos Saura para o cinema (ainda inédito em DVD no Brasil) -, conta a história de Paulino e Carmela, um casal de artistas mambembes que, ao atravessar a cidade para comprar lingüiças (patético, não? Pois é.), é interceptado pelas tropas italianas. Ao dizerem que são artistas, são “convidados” a se apresentar às tropas. Sem outra escolha, preparam uma apresentação para o inimigo para salvar a própria pele.
Dois tempos se intercalam na ação: a preparação e conseqüente apresentação do espetáculo torto, e um futuro em que Carmela, morta, volta para conversar com o amado sobre o ocorrido. Alguns diálogos chegam a lembrar bastante Nelson Rodrigues, embora o texto como um todo siga um outro formato: há momento em que até mesmo o Chaves (o mexicano, não o venezuelano) pode ser lembrado com as trapalhadas ingênuas da dupla.
Em cena, os dois conversam sobre sua condição enquanto ensaiam, sem saber se estão sendo observados ou não, dentro de um teatro vazio. Além de Maurício Marques e Virgínia Buckowski, assume ainda um terceiro papel a luz da ribalta (parte da iluminação desenhada por Guilherme Bonfanti), que pisca personificando a opinião dos soldados inimigos com relacão a tudo aquilo que é apresentado.
No programa (entenda-se por “programa” duas folhas impressas, com um depoimento do grupo a respeito da montagem), o diretor Marco Antônio Braz cita a universalidade do texto, que poderia ser adaptado para qualquer conflito, até mesmo a ditadura brasileira. Eu diria que pode ir ainda muito além. Vi a montagem muito mais como uma metáfora para a condição mambembe do artista brasileiro até mesmo nos dias de hoje, em que não há nenhuma guerra declarada, mas é clara a luta de artistas que querem fazer aquilo em que acreditam, e furadas que são obrigados a encarar por sobrevivência – ainda que contrariados.
4 lingüiças

