Críticas

Babine, o parvo

por Juliene Codognotto

5 Comentários 04 March 2008

Hoje fui parvo, amanhã serei também.

Fileira G 29, lugar central no auditório do Memorial da América Latina. Dali dava pra ver perfeitamente os efeitos de iluminação e projeção criados pela Cia. O Teatro Art’Imagem. Perdiam-se, é claro, os detalhes da expressão facial dos atores, mas como a montagem de Babine, o parvo tem o foco num teatro físico em que o corpo todo envia informações, vale a pena preterir a face de cada um em função da imagem formada pelo conjunto dos atores. Outra vantagem de dividir a peça com muitos espectadores e estar distante do elenco é que você pode comer bolacha de chocolate à vontade e até dormir que nenhum ator vai nem perceber, nem te olhar com cara feia, nem entrar em depressão – coisa rara no teatro.

A bolacha de chocolate também não foi capaz de chamar a atenção por outras razões que não a distância do palco. Houve quem chamasse mais atenção, a saber: um cinegrafista não-autorizado que apareceu no cantinho do palco quando filmava a partir da coxia e quase derrubou um dos atores (dizem que o diretor portuga ficou putão); a senhora na minha frente que tinha extrema necessidade de expressar-se com “a coitado!” ou “olha o figura aí de novo” de tempos em tempos; e, como sempre, o menu do DVD, ali no cantinho, como quem não quer nada, atrapalhando a projeção.

Em meio a tudo isso, um personagem muito fofo e caricato consegue ganhar os olhares apesar de tudo. Ele é o tal do “figura” a que a senhora se referia. Ele é o tal do parvo a que o título se refere. Babine, emprestado de um conto de Leon Tolstói, é sistematicamente enganado pela família (mãe, esposa e irmã). Interpretando mal os conselhos da irmã, acaba sempre se metendo em confusões, sempre estendido no chão “mais morto do que vivo”, simplesmente porque usa as palavras certas nos momentos errados.

A encenação conta com duas projeções alternadas – uma de lugares na Rússia pelos quais o parvo passa, outra de quadros de Chagall, Kandinsky e Malevich – cada uma com efeito específico, mas ambas dialogando com o que acontece em cena e ajudando a compor o cenário. Nada daquela história de uma imagenzinha projetada lá distante numa paredezinha fria só pro grupo dizer que usa tecnologia. Aqui a tecnologia ajuda a nos transportar para um outro país – a Rússia – e, ainda, para um outro universo – o da fábula, da fantasia.

Cada aventura de Babine tem a estrutura narrativa idêntica, como uma espécie de gag de palhaço cuja graça está justamente na quebra da lógica construída pela repetição exaustiva. No entanto, a impressão que fica é que, mesmo tendo descoberto a armação e tendo conseguido sair da posição do parvo que apanha, ele não deixa de ser parvo, somente passa a ser aquele que bate. Uma contradição que fica aberta apesar da frase direta do protagonista: ontem fui parvo, hoje não sou mais”, em oposição ao que ele dizia anteriormente; “hoje fui parvo, amanhã não serei mais” e que sempre dava errado.

Finalmente, cabe destacar que o grupo – que, a propósito estréia três espetáculos anualmente segundo o programa da peça – encontrou tempo e energia para fazer uma pesquisa aprofundada do gestual, do figurino e da língua russa. Muitas das músicas e dos versos são ditos em português e em seguida em russo, evitando a perda da sonoridade original do conto. E maior diferencial: saber desconstruir a própria pesquisa e rir dela. Os atores iniciam o espetáculo sem o figurino, batendo um papo no meio da platéia e zuando a personagem que sabe tudo de Tolstói e que, portanto, simboliza a pesquisa que eles realizaram. Uma solução que aproxima os atores do público e funciona muito bem. Até porque rir de si mesmo é sempre uma boa, principalmente depois do sofrimento que deve ter sido aprender a cantar em russo.

4 atores aprendendo a andar na neve projetada.

O que a galera acha

5 comentários até o momento

  1. Douglas says:

    Olá!
    Assisti “Babine, o parvo”. Foi muitíssimo interessante, a música é envolvente, os atores muito competentes. fico contente por terem pessoas que cultivam os clássicos da literatura.

  2. Juli =) says:

    Bacana que você também tenha gostado. Concordo principalmente com o que você fala da música. É impressionante que seja envolvente, porque é muito repetitiva, né? Talvez seja por essa “competência” dos atores que você cita, talvez pela curiosidade de ouvir a canção cantada em russo.

    Quanto a “cultivar” os clássicos, é bastante delicado, porque muitos acabam presos a eles e ficam parados, congelados, não acrescentam nada a uma obra que sozinha já era grandiosa, não precisava de uma peça, né? Acho que pode ser muito bacana, desde que as histórias recebam um “adubo” dos nossos tempos, uma visão renovada.

  3. raquel says:

    eu gostei da peça .Na minha escola ja fizemos esta peça

  4. joni says:

    eu nao gostei da peça .ja vi

  5. Marcia de padua says:

    Você me mandaria por email o texto dessa peça, sou aluna do magistério e aprecio o teatro, penso em realizar esta peça aqui na minha escola, desde já te agradeço. Abraços.


E você, o que acha?

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