Críticas

Balada de um Palhaço

por Juliene Codognotto

1 Comentário 13 January 2008

A gente já sabe, mas é bom quando alguém grita

Leia também a crítica de Leca Perrechil para este espetáculo.

Quem não assistiu a montagem do diretor Gustavo Trestini para Balada de um Palhaço (de Plínio Marcos) neste domingo, dia 16 de setembro, provavelmente só terá nova chance no ano que vem. A peça, que conforme a Leca já tinha avisado aí em cima esteve em cartaz no Teatro Fábrica, é um conjunto de bofetadas verborrágicas usando a ingenuidade do palhaço e o universo dos saltimbancos.

O personagem principal é Bobo Plim, um palhaço igual aos outros em seus gestos, caras e bocas, mas diferente no ângulo em que é exposto pelo texto abrangente e extremamente crítico do Plínio Marcos – um trabalhador desencantado.

Além da sincera e divertidíssima interpretação de Cibele Bissoli (embora as risadas sejam sempre aquelas de constrangimento, de quando você não quer rir, mas não tem jeito), destaco justamente a cena que a Leca questionou, do momento em que, sem saber o que fazer com o palhacinho que quer ter alma, o dono do circo pega o chicote para tentar controlá-lo. A partir daí, numa cena coreografada, que não tem qualquer pretensão de ser verossímil, Bobo Plim procura o público com o olhar e salta para a platéia, mas é impedido por Menelão. Uma metáfora muito bonita de como as questões financeiras e de ordem burocrática são capazes de frustrar o encontro da arte com o público para o qual é feita.

O texto de Plínio é quase inquestionável, abordando boa parte das questões mais atuais sobre arte e sociedade num espetáculo só. Questões sobre as quais a gente já costuma refletir, mas que é sempre bom ouvir bem alto da boca de um palhaço. Plínio mete o pau na TV (“essas dez pessoas que vieram ver o espetáculo são as únicas dez pessoas que não têm televisão na cidade!”), destrói a lógica do trabalho (coisa de que sinto muita falta nas montagens), expondo o chicote e a servidão a uma atividade que não dá prazer, questiona o consumismo e a arte a serviço dele (Algo como: “Comprem! Comprem! Essa é a única recompensa por vocês trabalharem como idiotas!”). Mais profundamente, aborda uma questão muito delicada: as referências. O palhaço, quase sempre baseado em gags e anedotas tidas como clássicas, é o instrumento perfeito para esta discussão: será que basear-se em referências da história do teatro (da palhaçaria, da música, da arte, enfim) não é tolher a espontaneidade e a essência naturais do fazer artístico? O investimento em fórmulas prontas, requentando-as infinitamente só porque em algum momento pareceram muito boas, é um problema sério. Mas, como diferenciar abundância de conhecimento histórico do esbanjamento e da limitação do conservadorismo? Claro, há distinções, mas se trata de uma linha muito tênue, à qual vale a pena atentar.

Um dos momentos mais incômodos é quando, depois de fazer sucesso de público com piadas pornográficas, Bobo Plim começa a analisar este público e, enquanto Menelão está saltitante por ter visto o público rir, o palhaço tem a sensibilidade para avaliar que tal riso não passa de um grunhido, que qualquer estímulo cerebral diferente do cotidiano provoca em um ser humano engessado e limitado, como se ele sentisse cócegas. Mas, não, não era o riso ingênuo da criança, nem o riso de incômodo e estranhamento, portanto, não passava de um espasmo, nada mais.

Muitos outros detalhes do texto poderiam e mereceriam ser destrinchados. Trechos como: “vai ao puteiro, vai a Igreja, tanto faz, mas descarrega!” são tão simples e ao mesmo tempo profundos, que chegamos a perder a continuidade das cenas enquanto refletimos sobre o significado disso em nosso cotidiano. No entanto, falta ainda falar da montagem em si. Não há muito o que dizer. As interpretações são precisas, o figurino simples e bem caracterizado, e o cenário uma prova de que pode-se marcar um espaçamento circense com um pedaço de pano vermelho e dar charme a uma semi-arena. Só o que causa estranhamento, agora concordando com a Leca, são as vozes em off e as músicas escolhidas, que ficaram meio fora do clima mágico-trágico daquele circo decadente.

4 gargalhadas constrangidas

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1 comentário

  1. lizi says:

    muito bom, mas eu to é precisando do texto da peça balada de um palhaço, preciso muito ler
    se alguém puder m envia! obrigada


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