Todos somos Palhaços
Leia também a crítica de Juliene Codognotto para este espetáculo.
Foto: Divulgação
Imagina um palhaço sem alma. É engraçado? Agora imagina um palhaço sem alma, sem nariz, e cansado de repetir sempre as mesmas piadas. E aí? Tá rindo? Por último, imagina também um palhaço que quer quebrar as convenções e regras, mas acaba preso no humor baixo nível frente a uma platéia sem rosto. Riu? Claro que não. Afinal, a peça Balada de um Palhaço, em cartaz no Teatro Fábrica, tem palhaço, picadeiro, música, respeitável público, piada com mulher, mas não é uma comédia.
O texto foi escrito por Plínio Marcos no ano de 1986, em uma época de transição da ditadura para um mundo sem lutas mortais pelos ideais, em que os conflitos passaram do âmbito geral – da situação insustentável do país – para angústias existenciais individuais. E é nessa crise pessoal, até hoje muito atual, que o palhaço Bobo Plin (Cibele Bissoli) se encontra.
Na história, o personagem trabalha em um circo medíocre, administrado pelo ganancioso Menelão (Bruno Feldman), mas não agüenta mais repetir mecanicamente as mesmas piadas e brincadeiras inspiradas em antigos palhaços, como se fosse um ciclo que nunca se renova. Para mudar essa situação, o palhaço quer encontrar sua alma, um jeito de fazer graça e despertar alguma coisa nas pessoas. No entanto, quando tenta fazer isso, acaba parando nas piadas vulgares e de sacanagem, diante de uma platéia sem identidade, que não quer encarar o diferente.
O espetáculo faz uma analogia com as angústias do homem contemporâneo, o mesmo que trabalha oito ou nove horas por dia, sem gostar da profissão exercida, apenas pra ganhar dinheiro. Explorado por um sistema, mas sem conseguir se desvencilhar dele. Com a pressão de ser sempre comparado com os outros profissionais da área, e precisar superá-los a qualquer custo para se manter dentro do jogo (que nem gosta de jogar). Como se todos fôssemos esse mesmo palhaço, com o cabelo arrumado e sem o nariz vermelho.
O público se identifica com os conflitos de Bobo Plin e com a mensagem da peça, porém o espetáculo peca pela verborragia com que as questões são passadas. Ao invés de deixar mensagens subentendidas, optou-se por dizer tudo, explicitamente, sem deixar nenhuma idéia para as entrelinhas.
Além disso, algumas cenas poderiam ser melhor trabalhadas – como a de quando Menelão tenta controlar o palhaço com um chicote. Se, nitidamente Menelão não tinha nem o controle do chicote, como queria então dominar Bobo Plin? O recurso de colocar voz em off também ficou estranho da forma como foi utilizado, perdido em trechos do espetáculo. Para terminar (ou não), a peça não tem propriamente um final. Mas como isso o público só descobre quando apagam as luzes, não tem problema. A apresentação já terminou mesmo…
3 narizes de palhaço atirados no chão

