O som de Liverpool invadindo Curitiba


Fotos: Daniel Sorrentino / Clix.
Filas enormes por todos os lados do Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto (popularmente conhecido como Guairão) davam uma indicação de que o teatro estaria cheio para o espetáculo. E que belo teatro: inaugurado em 1974, mais de 20 anos após o início das obras do complexo Guaíra (do qual ainda fazem parte o Guairinha, inaugurado em 1954 e o Mini-Guaíra, inaugurado em 1975), o Guairão impressiona pelo seu tamanho, pelas linhas de sua arquitetura e pela sua capacidade de público: 2.173 espectadores, número provavelmente equivalente ao público de todos os teatros alternativos de São Paulo.
Este público todo ainda se divide em três andares: 1.156 pessoas na platéia, 539 no primeiro balcão e 478 no segundo balcão. As pessoas do segundo balcão estão tão longe do palco que podem achar que o próprio John Lennon poderia ser um dos pontinhos que participavam do espetáculo da noite, um dos destaques da Mostra de Teatro Contemporâneo do Festival de Curitiba: Beatles num Céu de Diamantes, de Charles Möeller e Cláudio Botelho, a dupla por trás de alguns dos musicais mais comentados dos últimos anos. Este espetáculo tem feito carreira de sucesso no Rio de Janeiro e leva ao Guaírão uma multidão equivalente ao número de passageiros do Titanic (2.227, incluindo a tripulação). Começo a torcer para que a noite tenha um final mais feliz… Fico mais tranqüilo quando a música começa e não escuto My Heart Will Go On.
Beatles num Céu de Diamantes é uma seqüência de quase 50 canções dos Beatles, aquele quarteto de Liverpool que se tornou mais famoso que Jesus Cristo e que dominou o mundo, podendo ser visto em releituras argentinas, norte-americanas e até chinesas, mas nessa última você só acredita se for mesmo muito crédulo…
Voltando à versão brasileira: Beatles num Céu de Diamantes é protagonizado por 11 cantores (7 homens e 4 mulheres) e também conta com três músicos: uma pianista, um violoncelista e um baterista/percussionista, que além de fazer as vezes de músico também é um dos 11 cantores. A pianista ainda canta em uma das canções: a bela In My Life, mas é traída pelo microfone, que falha. Um dos técnicos corre para trocar o aparelho mas, surpresa, o novo também não funciona. Mesmo sem o microfone ainda é possível ouvir ao longe sua bela e afinada voz. Ao final da canção o público reconhece o talento e o esforço da pianista, e seu número é provavelmente o mais ovacionado da noite.
As 50 músicas se sucedem durante o espetáculo e todos os 11 cantores têm seu momento de brilho (apesar de ser inegável que, em Beatles num Céu de Diamantes, as mulheres têm uma capacidade vocal superior). São destaques, entre muitas belas performances, o elaborado arranjo vocal em Help – que fecha o primeiro bloco de canções e leva o público ao delírio – e um dueto que mistura Let it Be com Yesterday. O público reconhece o primeiro acorde de cada música e mergulha no universo dos Beatles.
Beatles num Céu de Diamantes talvez não possa ser considerado “teatro”, pois não existe um enredo definido, personagens desenvolvidos, e nem mesmo texto, somente as canções (algumas na íntegra, outras somente pequenos trechos) no idioma natal de Shakespeare. A estrutura narrativa é uma simples seqüência de músicas, que são agrupadas em blocos temáticos: temos o bloco romântico, o bloco mais iê-iê-iê e assim por diante. A questão de enquadrar ou não Beatles num Céu de Diamantes como peça teatral termina ficando secundária: recentemente foi lançado O que é Teatro?, documentário dirigido por Reinaldo Maia no qual, durante 34 minutos, nomes como Amir Haddad, Celso Frateschi, Iná Camargo Costa, Marco Antonio Rodrigues e Tiche Vianna, entre muitos outros, tentam responder a esta pergunta. Ao final do documentário ficam mais perguntas do que respostas… Não tenho portanto a pretensão de matematicamente tentar classificar Beatles num Céu de Diamantes como teatro ou como “não-teatro”.
Sendo assim, mesmo sem enredo, sem texto, sem personagens e correndo o risco de talvez nem ser considerado teatro, Beatles num Céu de Diamantes é um espetáculo que agrada: músicos bons, cantores bons e músicas melhores ainda. É difícil sair do Guairão sem um sorriso de satisfação estampado no rosto e sem cantarolar as músicas dos Beatles.
50 melodias que não saem da minha cabeça.


Hunf!!
Soc! Bum! Pow!
Spuft! Yow!Argh!