Críticas

Beckett in White – A Comédia

por Valmir Júnior

6 Comentários 04 February 2008

Será… que eu serei o dono dessa festa?

Fotos: Divulgação

Beckett in white 1

O mérito é dos três atores. A frase resume o espírito de Beckett In White – A Comédia. Na entrada do Espaço dos Insights, enfermeiros recebem os espectadores. “Recebem”, vai-vai-vai, eles observam a gente como que na tentativa de perscrutar a alma de cada pobre indivíduo e encontrar um possível louco. Mas a inversão também vale: afinal, a cara que os enfermeiros fazem ao nos observar é cara-de-louco.

Ao adentrar o Espaço dos Insights-Insights-Insights, em Moema, vemos três atores enclausurados, como que imóveis por camisas-de-força. Apenas suas cabeças podem se mover. E é o que basta. Sozinhos, os três desfiam a tragédia e a comédia de um triângulo amoroso. A Companhia dos Insights aposta no triângulo MARIDO-MULHER-AMANTE e no tripé EXAGERO-IMPROVISAÇÃO-INTERAÇÃO para contar sua história.

Não, na verdade a história pertence a um dos mestres do Teatro do Absurdo: Samuel Beckett. A peça Play foi rebatizada neste Beckett In White e o texto é de uma profundidade absurda-absurda-absurda, mesmo com os tons melodramáticos e as interpretações over que, aqui, funcionam harmoniosamente. Realmente, é um absurdo. Beckett consegue fazer um recorte das idas e vindas do marido à amante, das discussões entre mulher e amante, da leviandade de cada um em sua função de traidor. É uma novela mexicana condensada, assumida e extrapolada, o que faz os significados se tornarem mais-mais-mais importantes.

Imóveis-imóveis-imóveis, os três contam seus causos através de repetições, alongamentos de sílabas, improvisação e contato com o público, este último, inclusive, o alívio mais importante para que a peça transcorra fluidamente. Certamente, se alguma companhia dosasse um pouco a mais nos pontos do tripé, a encenação com certeza iria água abaixo. Mérito da direção-direção-direção de Maurício Lancasttre e da técnica dos três atores, que não deixam a peteca cair jamais, improvisando quando necessário e apelidando a platéia. Eu, por exemplo, de camiseta listrada, virei “Listradinho”; meus amigos foram “Peludão”, “Perninha Cruzada” e “Shortinho”. Na platéia ainda tínhamos “Saquinho”, “Pratinha”, “Anelzinho” e “Camisa Branca”. Ainda por cima, eles engatavam uma fala na outra, vertigino-vertigino-vertiginosamente. O envolvimento da platéia é tanto que, a certa altura, o público chega a quase dialogar com os atores durante as cenas.

Beckett in White 2

Quase irrepreensível, o ponto baixo é a mise-én-scene dos enfermeiros, que estão ali meramente como hiper-coadjuvantes, apenas para nos contextualizar que se trata de um manicômio (Será? Será? Será que as camisas-de-força já não são o suficiente?) e forçar a platéia a participar de uma determinada interação (muito boa por sinal). O efeito de “perscrutar a alma” foi só um ato de generosidade que tive para tentar entender aquela intervenção dispensável. No frigir dos ovos (sempre quis escrever isso), é comédia cerebrada e que atinge seu propósito mais essencial: fazer rir, pensar e rir mais. Os três. Ao mesmo-mesmo-mesmo tempo.

9 milhões de vezes a repetição de “Será?”

O que a galera acha

6 comentários até o momento

  1. Meissa says:

    Beckett é ALUCINANTE. Desligue o botão do “racional” e viaje. RECOMENDO

  2. Irina says:

    Eu amo esses três atores, a Elayne Grava, o Rodney, a Lilia!

    Simplesmente atores incríveis, sem palavras.

    Só vendo mesmo pra entender-entender-entender!

  3. Liana Montenegro says:

    Desde que comecei a me interessar por teatro ( e isso já vai longe), sempre quis assistir peças cujo trabalho de pesquisa, de tese fosse mostrado como resultado de tal busca. Em Beckett in White – A Comédia, pude me deliciar com o trabalho que a Cia dos Insights criou e desenvolveu ao longo de muitos anos e muitos elencos. Samuel Beckett se apresenta na forma de seu texto “play” literalmente traduzido e, simultâneamente, através da direção de Maurício Lencastree, os atores têm permissão para interferirem com magistral jogo de cintura e prontidão quando é permitido improvisar e solicitar a interação da platéia. Cá nos trópicos, abaixo da linha do Equador, não há espaço para as niilistas e desesperançadas encenações de Beckett. Tenho certeza de que o bardo irlandês aprovaria estes artistas pela feliz brasilidade com que tratam seu existencialismo europeu.
    É o primeira encenação de Beckett que não me faz dormir.
    Viva a Cia dos Insights

  4. Eloisa says:

    Excelente peça e ótima atuação dos três atores.
    Além de aguentar ficar parados por tanto tempo, ainda apresentam expressões muito fortes e interpretações bastante densas.
    Eu já assisti três vezes e recomendo.

  5. Rosely says:

    Mergulho ocasionado pela vertigem… Desdobramentos que tendem ao infinito… Aos atores, todo louvor pela coragem de atravessar o debulhar beckettiniano.

  6. says:

    Confesso que uma grande e querida amiga faz parte do elenco e esse fato poderia comprometer meu julgamento sobre “Beckett in White – A Comédia”, mas não. Minha opinião é incorruptível: todos deveriam ver esse espetáculo, pois é IMPERDÍVEL!
    Parabéns ao diretor e aos grandes atores Elayne Grava, Rodney e Lilia


E você, o que acha?

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