Críticas

Borboletas de Sol de Asas Magoadas

por Leca Perrechil

4 Comentários 18 November 2008

Na Casa de Bety

Noite de quarta-feira pós-chuva. Chego ao espaço dos Satyros I em cima da hora pra ver a peça Borboletas de Sol de Asas Magoadas. Depois de pegar meu ingresso, começo a conversar com dois amigos que só estavam lá bebendo e comendo mini-pizza em forma de aperitivo. O espaço está semi-vazio, apenas um grupo de nove pessoas (sim, eu contei) aguardam para ver a peça e outros estão bebendo e curtindo a música ambiente. Um dos meus amigos me fala que já viu a peça, gostou, mas que a falta de público atrapalha um pouco, já que o espetáculo pede interação – fato que será constatado logo mais.

O clima continua o habitual, mesmo quando entra uma pessoa com saltão alto, peruca loira, micro vestido, maquiagem e gestos espalhafatosos, falando alto e conversando normalmente com o pessoal do teatro. Sim, isso poderia acontecer em qualquer dia normal na Praça Roosevelt, mas logo a figura convida o pessoal a entrar em sua casa, lá dentro da sala de teatro, e ficar à vontade. Trata-se da travesti Bety, interpretada pela atriz Evelyn Ligocki, que também assina o texto e compartilha a direção com Celina Alcântara (qualquer relação com Maurício Alcântara, é mera coincidência).

Para fazer o papel, Evelyn fez sua lição de casa acompanhando o dia-a-dia das travestis de Porto Alegre e também por meio da ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul. E deu certo – a Bety de Evelyn é tão realista que parece mesmo uma travesti contando sobre sua vida, sobre as companheiras, manias, truques para parecer mais feminina etc. Voz mais grave, postura e gestos trazidos durante a pesquisa ajudam a criar Bety e o ponto forte do espetáculo: uma personagem complexa, que conta com despojamento sobre os prazeres de ser travesti e ao mesmo tempo a tristeza e solidão pelas violências sofridas e pelo preconceito.

A temática da peça não foca apenas nos sofrimentos e exclusão social dos travestis, mas também em um mundo alegre, em que os exageros (pra falar, se vestir, viver) são apreciados e bem vindos. Além da construção da personagem, a estrutura do monólogo se baseia ainda na interação que esta cria com a platéia.

Nesse ponto voltamos ao início – a peça precisa de público e perde quando o número de espectadores é reduzido. Dentro da casa de Bety, o público é convidado e confidente. Bety oferece salgadinho (sabe aquele Fofura, que não tem gosto, é barato, mas dá vontade de mastigar?), faz perguntas, pede para chamarem o nome dela. O público não está lá apenas pra assistir, faz parte da composição da peça. No final, a personagem já conquistou o público e já foi passível de pena, provocou risadas, além das reflexões sobre preconceito e estrutura social.

PS: Em dado momento do espetáculo, Bety realiza seu show de travesti, daqueles de dublagem que a gente vê em filmes ou em casa de boate mesmo. Mas Bety traz um show tão melancólico, depois de momentos tensos da encenação, que deixa sua apresentação musical bastante poética. Se Stanislavski visse, poderia até falar de fé cênica… se quisesse.

3 salgadinhos Fotura sabor churrasco jogados no chão

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. leca,valeu,
    não ia saber
    nunca q esse termo
    tava lá
    no wikipedia.
    Beijo

  2. para uma mulher, fazer o papel de uma travesti é algo dificílimo. só por isso (tenho a impressão de que a atriz faz muito bem) já valeria o ingresso. mas ela também parece abordar esse tema de maneira bonita. queria ver, mais ainda não consegui. pena o pouco público. beijo leca.

  3. Regiane Rodrigues says:

    Recebi um newsletter de Santa Catarina, o Cena6, que acontecerá em Joinville, e vi lá o título da peça”Borboletas de Sol de asas magoadas” e dei um google (para saber do que se tratava a peça) e vim parar aqui nesta narração deliciosa! Parabéns Leca! Obrigada, obrigada, reverências mil! Vou correr atrás…

  4. Julio Cesar Monteiro says:

    Borboletas de Sol de Asas Magoadas
    A peça é impactante!
    Realmente dei uma lida superficial no release e pensei comigo: Deve ser legalzinha, vou ver!
    No começo o personagem, Betty, faz pequenos depoimentos do cotidiano de um Travesti. Narra confidencias e faz caras e bocas. Ao cair no palco ela diz “ate quando cai bicha faz coreografia”, fala sobre sonhos, fantasias, perucas e tudo mais que envolve o meio. Ao contagiar o público para o lado cômico do “ser” gay, Betty então começa a narrar o lado triste como a prostituição, ofensas, torturas, abusos, solidão. Uma frase de impacto: Travesti não sente dor! Me fez lembrar uma palestra que assisti sobre o tema saúde publica e a diversidade, onde se fez indagações sobre o mesmo tema porem de forma teórica. A peça leva ao público uma mensagem positiva quanto ao princípio da dignidade humana. É como se por trás da atriz houvesse um grito silencioso de uma multidão dizendo “também temos direitos” .
    Eu Sinceramente recomendo a todos a assistirem e fazerem uma boa reflexão a cerca do tema.
    10/05/12
    Goiania – GO


E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).