Críticas

Cabaré da Santa

por Leca Perrechil

1 Comentário 15 April 2008

Tudo é carnaval no Brasil

Essa semana temos duas críticas para a mesma peça. Leia também a crítica de Juliene Codognotto.

Queijinho, batata frita, o tradicional amendoim para acompanhar a cerveja… além de cachaça para os mais calibrados e refrigerante para os não-alcóolicos. Podemos dizer que o Folias D’Arte arrumou novas maneiras de ganhar dinheiro com o teatro – nada que o Credicard Hall e o Tom Brasil (que agora virou HSBC Brasil) já não soubessem, mas não vamos exagerar nas comparações, afinal uma batatinha do Folias (R$ 4,00) é mais barata do que a água mineral do HSBC Brasil (R$ 4,80 – número de quando ainda era Tom). Além disso, no espetáculo do grupo da Santa Cecília uma garçonete vestida com roupas de cabaré tem um real propósito para ficar servindo no meio do espetáculo, já que ela também faz parte do show… ou seja, da peça Cabaré da Santa, que recria uma mini-casa-de-espetáculos, ambiente propício para um teatro de revista.

Ao entrar no Galpão do Folias, o público tem a chance de sentar nas mesinhas da pista – decoradas com luzinhas vendidas na 25 de março, logo em frente ao palquinho com cortinas aveludadas roxas (tudo propositadamente kitsch) – ou nas arquibancadas atrás (mas aí você tem que apoiar a comida no colinho mesmo).  Talvez você dê o azar de ir no mesmo dia que a excursão de Joanópolis: eles tinham reservado todas as mesinhas e estavam loucos para encher o caneco, pedir para a atriz tirar umas fotinhos deles, tirar fotinhos com as atrizes, juntar as mesas e fazer aquelas piadinhas entre eles, às vezes, no meio da peça… sabe excursão de colégio? Mas tudo faz parte da proposta semi-interativa da montagem, cujo clima pode ser criado de acordo com o público do dia… Afinal, aposto que uma platéia normal (ou seja, sem excursãozinha, turminha de amigos ou bêbados) não se divertiria tanto ou tiraria tantas fotos quando um ator vestido de puta sentasse no colo de um espectador.

O musical, dirigido por Dagoberto Feliz e escrito por Reinaldo Maia em parceria com o português Jorge Louraço, teoricamente, é uma “comemoração” dos 200 anos da vinda da corte portuguesa ao Brasil, tanto pelo ponto de vista brasileiro como pelo português. Uma releitura da relação colônia-metrópole encenada de maneira escrachada, irônica, em tom de paródia, com críticas políticas, referências históricas, apelação sexual e musiquinhas pra completar – ou seja, tudo o que pede o teatro de revista somado a um desbunde extra por parte do Folias (aliás, essa já é uma característica do grupo – fazer crítica através do exagero). Mas, apesar dessa misturada toda ser proposital, o espectador acaba ficando perdido no meio de tantos excessos.

Um dos aspectos gostosos de perceber ao assistir à encenação, é a impressão de que muito do que eles falam tem duplo sentido, seja tirando sarro com a história – falando a grosso modo (já que a Bacante não é exatamente uma revista fina e delicada), já que os portugueses vieram fuder com a vida da gente, que os brasileiros fodam também com eles, e tudo vire uma grande putaria (nos dois sentidos), representada na figura do cabaré/bordel. Seja com uso de frases famosas em outros contextos, como “Não me peça para dar a única coisa que eu tenho para vender” (que Cacilda Becker usou referindo-se ao ingresso do teatro e que na peça foi usada referindo-se ao ato sexual), ou com frases citando o fomento (quando começaram a criação da peça, ainda não havia saído a lista dos favorecidos pelo fomento do 1º semestre de 2008). Além de ironias com os vários tipos de teatro – engajado, político, interativo, contemporâneo. Nesse balaio de gato, sobrou até para a cultura popular, com referências a cantora de MPB, música do Tropa de Elite, palavras de Jesus do SBT (que dava medo) e a música tema do show de calouros – aliás, essa se encaixou perfeitamente no dia, já que estava presente no “auditório” a caravana de Joanópolis.

Mesmo com tanta bagagem referencial e com o fato de realmente o público conseguir se divertir, dar umas boas risadas e sair leve do teatro (inclusive eu), a impressão que fica é de que a peça não vai muito além disso, e acaba ficando sem muita profundidade e não acrescentando muita coisa. Tem sim uma crítica implícita no meio de tanta carnavalização, mas cai num senso comum de tratar a história do país nesse clima de pornochanchada, fazer piada com o jeitinho brasileiro – de se aproveitar até das piores situações e tentar ganhar dinheiro em cima dos portugueses – e com o fato do país já nascer como uma piada.  

Essa brincadeirinha já tinha sido feita inclusive na TV, na minissérie global O Quinto dos Infernos, de Carlos Lombardi. Sabe aquele autor que deixa todo seu elenco masculino peludo sem camisa? Ele mesmo! Nela, tinha um D. Pedro I interpretado por Marcos Pasquim (invariavelmente sem camisa) pegando todas as menininhas brasileirinhas, escravas ou branquinhas. Na peça, também temos um personagem que não consegue ficar com a calça no lugar certo (este inspirado em um personagem real). Até o filme Carlota Joaquina, princesa do Brazil, de Carla Camurati, já brincava com essa piada pronta que é a vinda dos portugueses pro Brasil, com uma rainha Marieta Severo despirocada e um Dom João VI Marco Nanini. Afinal, não dá pra perder a chacota sobre uns monarcas que vieram pro Brasil fugindo de uma guerra na Europa.

Assim como o início do período joanino, a peça Cabaré da Santa também é confusa. O melhor mesmo é não tentar achar um nexo naquilo tudo e nem esperar uma dramaturgia redonda (tipo Skol, sabe?), para aproveitar as referências reconhecidas, algumas piadas e o clima de cabaré. Em dado momento, a personagem da bêbada chega para mim no meio da peça, na primeira fileira da arquibancada, e pergunta: “Você tá entendendo alguma coisa?”. Quando eu respondi com a mão que mais ou menos, ela responde: “Você é um gênio. Estamos com essa peça há dois meses, e ainda não entendi nada”. É claro que ela estava brincando de bêbada, mas não tem como negar que a mistura era tanta, que realmente a compreensão se perdida de vista.  E como não poderia faltar numa paródia sobre o Brasil, numa peça que brinca com a colonização portuguesa, assunto sempre tratado em tom de comédia, não poderia deixar de ser assim: tudo termina em carnaval! E é claro, a caravana de Joanópolis samba junto.

20 pessoas na caravana brincando de conhecer o teatro paulistano

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1 comentário

  1. Helio Ponciano says:

    O texto da crítica Leca Perrechil não se detém apenas na montagem – o que já seria um trunfo, uma vez que, hoje em dia, o objeto costuma ser posto sob o sujeito que escreve (ou da sola de seu calçado)… A análise aqui alça vôo ainda mais alto.


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