Rew: começando do fim
Essa semana, temos duas críticas para a mesa peça. Lei também a crítica de Leca Perrechil
“Já tá no fim”, sentencia uma senhora de Joanópolis, depois de levantar da mesa e dar uma sambadinha junto com o elenco de Cabaré da Santa. Constrangida por notar que não era o fim da peça (ainda!), senta-se novamente, mas não deixa de fazer a constatação certeira para a colega ao lado: “Já tá no fim”, repete, porque a outra não ouvira direito.
Nós já estávamos todos aguardando pelo fim, não somente pelo fim da nova obra do Folias (que, como já virou praxe, não poderia durar menos de duas horas – com intervalo!), mas pelo fim daquela história-revista, no sentido de revisitada, de um Brasil que está fora dos livros de história, de personagens que conhecemos por nome, mas não por essência.
Este, aliás, é um dos motes da investigação do grupo: a história oficial do Brasil, ou seja, aquilo que se transmite dos tempos de outrora por meio de livros aprovados pelo MEC e coisa e tal. Em seu folheto prolixo e recheado de reticências, o Folias deixa claro que essa peça parte da perspectiva de que essa tal história oficial é, além de furada, pretensiosa, e acaba apagando a essência das coisas que ficam relegadas às lembranças das pessoas. Referência em estudos sobre memória, a pesquisadora Ecléa Bosi segue linha parecida ao desenvolver sua metodologia: nunca compara as histórias contadas a ela com documentos históricos, porque, claro, a memória seleciona os fatos e deixa escapar algo, mas isso não terá conseqüências mais graves do que tudo o que escapa à história oficial ou, pior, é selecionado por ela de acordo com os mais diversos e escusos interesses. A idéia do Folias parece ser essa: desconfiar, apontar os equívocos “oficiais”.
Em síntese, este cabaré é uma tentativa de trazer pro palco uma história menos “descobrimento” e mais “achamento” do Brasil, sabe? E, nessa festa meio doida, utiliza-se o humor para desconstruir a reputação de reis e putas – sem preterir nem um, nem outro. A partir dessa outra construção da identidade nacional, o humor permite tudo e começa na irônica comemoração de 200 anos da vinda da corte portuguesa – de rabinho entre as pernas – ao Brasil, o Eldorado verde e selvagem.
Não se pode dizer que o Folias não tenha radicalizado a proposta do cabaré e do “vamos zoar essa bagaça sem concessões”. Como num bom cabaré, dava pra chegar antes, ver a peça bêbado e terminar pedindo ao garçom pra te deitar no chão. Aliás, dava até pra reservar mesas, o que, a princípio, irrita um pouco (especialmente porque os que reservaram mesa eram justamente os tais bebuns que chegaram antes pra encher a cara), mas que, afinal, é totalmente coerente com o formato. Falando em coerência, não podiam faltar menções a sexo, drogas e rock n’roll, ops, isso não! Melhor uma MPBzinha, uma bossa nova, quem sabe até músicas do tropicalismo – afinal, é bem mais a cara desse Eldorado futura potência turística. Enfim, tudo muito contextualizado.
No entanto, se a execução é radicalizada e assume os riscos de não explicar didaticamente os fatos históricos e brincar com absolutamente tudo, inclusive com os jargões do próprio teatro (há um momento em que até o famoso “Teatro não é mercadoria” é colocado no mesmo plano da frase global “Este papel é um presente!”), a concepção parece um embrulho de presente perfeito, feito sob medida pras leis de incentivo que são – elas também – motivo de piada na peça – mas isso, claro, acontece agora, depois que o dinheiro já tá na conta (e bota dinheiro nisso: Miriam Muniz + Fomento). Para explicar melhor o que quero discutir aqui, vamos ter que dar um “Rew”. E não é para o início dessa peça, não – aliás, nem pretendo falar dele – é para o começo, meio e fim de outra peça fomentada.
Em outubro do ano passado, assisti e critiquei Pálido Colosso, da Cia do Feijão, também muito querida pela turma do incentivo público. Pra quem não viu, não leu, não se lembra e não quer reler agora, a peça fala, vejam só!, da política nacional e, vejam só!, em formato de cabaré. Se você tá lendo essa crítica por acaso, nem gosta tanto assim de teatro e esperava encontrar a Luana Piovani (lembrando que ela já é um ícone do teatro, com a grande obra literária e agora teatral: O Pequeno Príncipe), uma referência que vai te agradar: lembra da minissérie Quinto dos Infernos, da Rede Globo? Política, história do Brasil, sexo, humor te lembram alguma coisa?
A comparação que faço aqui é assumidamente superficial. Admito que o “como fazer” varia muito entre Globo, Feijão e Folias, claro. Entre Feijão e Folias varia inclusive o recorte de tempo feito na história. No entanto, apontar isso serve pra pensar também na radicalização na concepção em si – ou todos faremos cabarés pra carnavalizar o Brasil, mas cada um do seu jeito?
O jeito do Folias, já que entrei nesse mérito, é convincente, como gostam de dizer alguns críticos. Estou convencida de que houve um puta trabalho de ator envolvido na montagem, estou convencida de que eles buscam aprofundar as questões – e, aliás, o jeito deles de aprofundar as questões é sempre verborrágico, tanto, que acabamos esquecendo algumas das idéias mencionadas assim que pisamos fora do teatro. Estou convencida de que, mais ou menos como a Bacante, o Folias acredita no potencial do humor para criticar e movimentar comportamentos, conceitos e, por que não?, a própria história. Mas fica difícil, vendo a ansiedade da senhorinha pra levantar e sambar, acreditar que ela tenha ficado incomodada com as contradições e com os absurdos da nossa história. Talvez o organismo dela já tenha produzido anticorpos quando assistiu o Quinto dos Infernos. Ou talvez sambar seja um meio de afogar as mágoas.
4 doses de cachaça. Pra começar!

