Teatro-brincadeira pra negar o trabalho
As imagens desta peça só entram na próxima terça-feira, em respeito à semana iconoclasta.
Você gosta de trabalhar? Acha que o trabalho é um valor importante ou, ainda, a força motriz da sociedade contemporânea? O elenco da peça Cabaré Paulista – do Manifesto contra o Trabalho faz quase tudo para te convencer que não, você não gosta de trabalhar e, se gosta, não deveria. Quando digo quase tudo, incluo palavrões, músicas entoadas em coro, cachaça Boazinha e Brahma gelada. Até aí, tudo ótimo.
Antes, porém, confesso que quase chorei ao olhar pra aqueles trinta degraus que me separavam do quarto antigo que se travestiu em palco para a encenação. Mas o que a gente não faz pela arte? E pela Boazinha. Mentira! Eu ainda não sabia que tinha Boazinha.
Espontaneidade. Talvez, se me pedissem para definir a montagem em uma palavra, seria essa. Tudo se passa num cabaré que fica o tempo todo à meia-luz. Interpretado por quatro atores, ajudados por um criativo músico, o texto é convincente e tocante em alguns momentos e extremamente verborrágico em outros.
E não espere que o problema da prolixidade das falas seja resolvido pelos atores. Poucas são as soluções cênicas criadas por eles. Muito poucas. Tão poucas que às vezes a gente se esquece que está numa peça de teatro e pensa que está numa grande brincadeira entre amigos, num quarto grande com taco de madeira antigo. Pufs, almofadas, tapetes e um intervalo sem sentido aparente contribuem para tal percepção.
E já que trabalhar não é legal, é preciso arrumar alguma maneira de sobreviver, não é mesmo? Aí entra a interatividade com o público: o Cabaré vende cerveja e pinga a dois reais. E o melhor: a qualquer hora. Pode atrapalhar o espetáculo, freguês!
O ponto alto é, sem dúvida, a música (e a dança espalhafatosa das atrizes) que, criativa e envolvente, dá margem a boas risadas. Em alguns momentos, dá margem também a um bom soninho, mas isso também pode ser atribuído à pinga.
A mensagem de questionamento da lógica trabalhista esvaziada tem todo sentido nos nossos tempos e o texto base parece ter bons argumentos. No entanto, fica a sensação de que havia muitas formas mais originais e ousadas de desenvolver este espetáculo. É como se estivéssemos assistindo a um estudo de texto e de possibilidades. Eles incorporam, inclusive, uma TV, que transmite trechos de Tempos Modernos, de Chaplin. Perdôo o clichê do filme escolhido, mas não consigo entender por que, então, não investir mais no significado destas imagens e no conteúdo que se pode tirar dali.
Finalmente, só o que se vê de teatro dentro do cabaré é uma tentativa tímida, ajudada pela boa entonação de todos os atores. O restante é mesmo uma grande brincadeira de negar o trabalho. Uma brincadeira engraçada e confortável, há que se admitir.
Duas doses de informalidade a dois reais.

