Críticas

Cadela de Vison

por Leca Perrechil

1 Comentário 10 June 2008

Quando a vida se mistura à arte

Tudo é silêncio,… enquanto um contra-regra conduz o senhor de cavanhaque até o centro-direito do palco, em frente às cortinas de veludo vermelhas, e o posiciona sentado em uma mala, a delirar. Em sua velhice-experiente, de quem, após 50 anos de carreira quer brincar de peça auto-retrato-onírica, o personagem (de) Renato Borghi começa a ver aparições no teatro. Não, nenhum fantasma sem rosto irá se apaixonar por ele. Mas uma fogosa mulher, dessas que nem parecem que são sobrinhas do dramaturgo, entra com um vestido que acentua suas curvas e lembra personagens de filmes de quando o cinema ainda era preto e branco. Isso quando está de boca fechada, porque logo mais se revela uma fonte de palavrões, para delírio dos poucos observadores no teatro presentes. Ela, uma cantora falecida há muito tempo, representa o título Cadela de Vison.

Logo mais, esse teatro a ser invadido e substituído por um shopping ou estacionamento – assim como acontece com lugares decadentes e desvalorizados – se transforma também num cemitério. O senhor de cavanhaque se sente como o teatro a ser arrombado: enquanto em sua juventude era chamado de revolucionário e artista do futuro, agora faz peças em palco italiano e ainda não tem um teatro com seu nome. Já a cantora dos tempos de outrora, teve até enterro de luxo, e foi bajulada em vida, já que era uma das maiores representantes de uma arte reconhecida.

A busca por uma nova identidade toma o artista de tal forma que ele se descobre lésbica e se toca de prazer. Agora ele não precisa consumir seus desejos pela ardente musa vulgar idolatrada do além, ele pode se satisfazer como um artista com seu lado feminino. Mas para se afirmar novamente, precisa eliminar aquele que sempre o criticou – com óculos cult vermelhos estilo José Wilker em A vida como ela é, o crítico vira disfarce perfeito para um diretor entrar como personagem em cena.

Agora liberto, o artista está pronto para se soltar e voltar à ativa, talvez praqueles tempos quando as cantoras expunham suas vozes usando vison ou época em que Renato Borghi e Zé Celso criavam o teatro Oficina, quem sabe? Mas para isso, o monumento coberto no meio do cemitério, que até então obstruía a visão dos observadores mais próximos, revela-se um luxuoso lustre (acho que já vi isso no teatro Abril!) a ser guinchado para o teto por um cabo de aço (sim, foi no Abril!), e trazer os áureos tempos de volta para o artista.

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