Críticas

Camino Real

por Leca Perrechil

2 Comentários 20 August 2007

Uma peça pintada

Fotos: Lídice Fernanda Ribeiro

“Aqui está a nova congruência de incongruências que é teto do poder da arte moderna, a dramática justaposição da crueldade e da sensibilidade, do poético e do brutal. Sim, isto poderia ter sido feito com pintura. (…)Mas não em uma peça concebida apenas como drama falado. Teria de ser uma peça cujos valores seriam principalmente plásticos, uma peça menos escrita e mais pintada. Uma peça que é pintada? Por que não? Pelo menos eu poderia tentar. Eu tentei. E aqui está” – Tennessee Williams, autor da peça Camino Real, em cartaz no teatro Tucarena, em São Paulo.

Essa citação, também declamada no início da apresentação, explica bem o que o espectador verá a seguir: composições de cena bem elaboradas, muitas imagens similares a pinturas, figurinos e recursos cênicos estimulantes, e referências ao universo artístico. Com toda essa ênfase na estética, algumas cenas acabam ficando visualmente poluídas pelo excesso de elementos.

Quem conhece o dramaturgo por peças como Um Bonde Chamado Desejo ou Gata em Teto de Zinco Quente, não espere encontrar o mesmo estilo em Camino Real, que transporta elementos da pintura expressionista e uma posição política de esquerda para os palcos.

Com o texto pouco realista, o autor buscou criticar a ideologia e o modo de vida norte-americano – com seu “Sonho Americano”, em uma sociedade extremamente capitalista cujo consumo é um dos valores mais importantes e a riqueza provém da exploração da classe trabalhadora. Nem parece que a peça foi escrita há 45 anos (no pós-guerra), já que nem encontramos isso nos dias de hoje, não é mesmo minha gente?

No espetáculo dirigido por Nelson Baskerville, a analogia se dá pelo paralelo desse mundo com um lugar chamado “Camino Real” – aparentemente um território agradável para se morar, mas que ao longo da peça mostra seguir uma lógica cruel: assim, quem não possui dinheiro acaba humilhado. Como conseqüência, os ideais e sonhos destas pessoas vão morrendo e, apesar de cada um ser livre pra ir e vir, deixar o lugar é praticamente impossível.

A peça se auto-explica logo no início: trata-se de um sonho de Dom Quixote. Assim, se o cavaleiro andante já tem suas alucinações quando está acordado, imagine sonhando… imaginou? Se sim, dá pra visualizar um pouco do que é o espetáculo – uma explosão de imagens, referências a personagens literários europeus (como Marguerite Gautier, personagem de A Dama das Camélias, o poeta romântico inglês Lord Byron, e a cigana Esmeralda de O Corcunda de Notre Dame), e à fase azul de Picasso. O espectador muitas vezes não acompanha essas citações do texto, principalmente se não tiver lido o programa da peça ou explicações no saguão de espera. As complexas imagens (apesar das cenas lindas), mais uma vez, confundem.

Em uma das histórias, entrelaçadas por outros dramas, o boxeador e ex-campeão Kilroy (o nome é referência a como os soldados norte-americanos eram denominados na segunda guerra mundial) chega à cidade e, logo no início, já é roubado e humilhado. Para piorar, se apaixona por Esmeralda, filha de cigana, que joga com os sentimentos dele o tempo inteiro. Ele – que possui o coração do tamanho da cabeça de um bebê – representa, ao mesmo tempo, o herói norte-americano, esquecido após a guerra e a decadência esportiva, que se vangloria de seus títulos do passado.

Além de alusões aos cults da literatura européia (afinal, O Corcunda de Notre Dame virou um clássico), o espetáculo também se rende à cultura pop – como, por exemplo, quando Esmeralda aparece para escolher quem será seu primeiro parceiro sexual. Inesperadamente a música “Like a Virgin”, da Madonna, começa a tocar, mudando totalmente o clima da cena. Assim como Quentin Tarantino explica no filme Cães de Aluguel, a garota mencionada na música, na verdade, não é virgem, mas todas as relações sexuais dela parecem acontecer como se fosse a primeira vez. Na peça – apesar de não ser exatamente como Tarantino relata – Esmeralda já teve diversos parceiros, mas sempre fica virgem novamente após as relações.

Engraçada no início, a cena acaba se tornando pedante por sua longa duração. Parece que eles não sabem a hora de parar de brincar, como o rato Jerry (do desenho Tom & Jerry) que sempre quer provocar cada vez mais o gato e não tem limites. Da mesma forma, Esmeralda fica enrolando Kilroy durante longosssssssss e chatossssss minutossssss.

A cenografia merece um parágrafo à parte: montado em forma de semi-arena – apesar de apresentada no Tuc(arena) – o palco redondo lembra o picadeiro de um circo. Ao redor dele, um trilho conduz os personagens por um carrinho, produzindo cenas muito bem elaboradas. Ao fundo, os elementos diversos (que, de tantos, dificultam a descrição de cada um deles) e, somados aos também diversos personagens, produzem a bagunça tantas vezes citada no texto. Tá certo que foi usada uma linguagem de sonho, mas toda essa poluição realmente atrapalhou os rumos da narrativa, com espectadores perdidos diante do bombardeio de informações.

Obs: A peça foi vista em duas partes. Como ela terminaria depois da meia-noite e a revista Bacante ainda não disponibiliza um veículo automotor próprio para cada integrante, assistimos à primeira parte do espetáculo no sábado, e voltamos no domingo depois do intervalo para assistir a segunda parte, que terminava antes.

Inúmeras referências em uma única peça

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. david says:

    gostei daqui! vi camino real neste domingo e concordo em partes com o que você falou…
    realmente as vezes existe em cena referencias de mais o que faz a cena ficar “poluida”, muito bem notado por você.
    porem a cenografia só ajudou o espetaculo, acho que se não fosse a bem elaborada cenografia e ambientação o espetaculo não teria o que mais me agrada: a plasticidade.
    gostei do espetaculo, gostei de ver uma coisa desas no Brasil!
    fiquei realmente muito contente de um grupo montar tal texto, o que é um grande risco pensando em produção, né?
    abraços

  2. Leca Perrechil says:

    Olá, David
    Concordo com você que as coreografias eram bem elaboradas. Gostei bastante de quando o coro fazia a mesma coreografia, mas de uma maneira não sincronizada. De fato, é uma “peça pintada”. Mas continuo achando que o excesso de elementos deixa a peça mais confusa. Realmente é um grande risco, e um trabalho que o grupo se dedicou bastante. Acho que se dedicaram tanto, que esqueceram que o público nem sempre consegue pegar no ar uma referência que eles estudaram por um ano / um ano e meio.

    Você disse que gostou de “ver uma coisa dessas no Brasil”… fiquei curiosa: você mora fora, é estrangeiro, viaja muito?

    Abraços,


E você, o que acha?

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