Todos a bordo!
Logo na entrada do tradicional teatro Arthur Azevedo, com as instruções da produção, a platéia já saca que a utilização do espaço do teatro será diferente para o espetáculo Cardiff. Todos recebem cartões com os números dos assentos a serem ocupados na imensa platéia e, logo ao entrar, percebem que apenas os quatro lugares centrais de cada fileira seriam ocupados (Será que é pra ninguém reclamar que sentou no canto?). Fechando o palco, uma imensa parede de ferro (manja a quarta parede? A própria!) que, ao término da entrada do público, revela uma única portinha que permite ao comprido corredor de espectadores enxergar, minimamente, o que ocorre do outro lado, no palco. Através apenas dessa portinha, vemos a encenação de um eletrizante temporal que acomete um navio (sim, é uma peça no mar, parte do projeto Homens ao Mar, da Cia. Triptal), com dezenas de homens indo de um lado para outro, se pendurando em cordas, gritando e fazendo o maior barulho. Se o restante do espetáculo seguisse aquela mesma linguagem, pelo menos eu não sairia daquele teatro entediado naquele dia…
Passado o temporal (ou sua cena), a platéia é recebida por uma figura que, em francês, a convida a embarcar no navio. Sem legendas, aqui o francês vira uma espécie de não-língua, estabelecendo uma comunicação não-verbal com o público, que atravessa a portinha sem entender exatamente o que está acontecendo. É o momento de usar o segundo espaço do espetáculo, o palco do teatro. Aqui, o imenso elenco, composto inteiramente por homens, se revela. São marujos que trabalham na embarcação – e dão uma palhinha pra gente daquilo que eles fazem: alternam trabalho pesado e pouquíssimos momentos de descontração. É neste espaço que vemos a relação de submissão dos trabalhadores com as autoridades a bordo, e também é aqui que vemos um acidente que será o eixo narrativo do que vem a seguir. Vale ressaltar que os homens também se comunicam através de não-línguas, mas no lugar do francês, um incômodo uga-buga que me lembrou o personagem Chewbacca, do Star Wars.
Então todos são conduzidos para o porão situado abaixo do palco, onde uma semi-arena improvisada com cadeiras esperava o público para o restante do espetáculo. Então é aqui que, misteriosamente, o que era dito através de não-línguas passa a ser falado em português. Afinal, imagino que dificilmente a platéia entenderia o texto de Eugene O’Neill se fosse todo falado em francês ou em ugabuguês. A história traz a trajetória de um grupo de marinheiros que, em uma (longa) noite de neblina e entre seus turnos de trabalho e descanso, cuidam de um colega à beira da morte, ferido no acidente mencionado. O desejo de todos é o de chegar à cidade portuária de Cardiff, mas a densidade da neblina e os perigos da viagem transformam a cidade inglesa num paraíso utópico.
Muitos são os ruídos no espetáculo, que vão desde a irregularidade do elenco (problema comum – mas não necessariamente justificável – entre grupos que assumem a idéia de usar tanta gente em cena) até a falta de dinamismo de todas as cenas que acontecem no porão – sobretudo se compararmos com os minutos iniciais de espetáculo, apresentados no “convés” do teatro. Acontece que não quero, com esta crítica, exercer o papel de um testador de lâmpadas (de apenas dizer o que funciona e o que não funciona): prefiro pensar em aspectos um pouco mais amplos e que compreendem não apenas esta peça, mas qualquer outra encenação que decida levar o público para um espaço não-convencional.
A primeira questão é a incorporação do espaço em si. A transformação simbólica do porão de um teatro italiano no porão de um navio permite uma riqueza de paralelos, sentidos e interpretações que não acontecem em produções que fazem o público caminhar entre ambientes artificiais à la Hopi Hari, como ocorria, por exemplo, em Kasssandra in Process. Além dos infinitos paralelos entre o subterrâneo de ambos os ambientes, o cheiro de suor e o calor (não precisa nem dizer que era incômodo, né?) são incorporados como características do espaço e, com isso, garantem muito mais sensações à linguagem realista que a produção assume.
E por falar em sensações, caímos numa segunda questão: O que fazer com o público, quando se assume que ele botará seu lindo pezinho no espaço cênico? Por estar em cena, não seria adequado que este assumisse um personagem, ou ao menos um papel atuante (no sentido amplo da palavra) com relação ao que é apresentado? Em Cardiff, se houve a atribuição de algum papel para a platéia, só pode ter sido o de deus: onisciente e invisível aos demais presentes. Ao atravessar a parede de metal, não ocorre a travessia da quarta parede – que permanece durante todo o espetáculo – e fica uma questão a ser pensada: será que todo mundo que está em cena não deveria ter um personagem? Será que o fato de estar juntinho com o elenco no mesmo espaço é suficiente para que o público se sinta parte da narrativa?
3 ambientes num mesmo teatrão


