Atenção: Esta crítica contém cafeína
Não são raras as vezes que vejo um filme, leio um livro ou um conto e fico imaginando como aquela obra ficaria se fosse adaptada para o palco. Coisas dessa gente esquisita de teatro, num dá pra entender. Pensar nisso sempre força minha imaginação a colocar na balança o que é que se ganha e o que é que se perde ao transpor uma linguagem para outra. Certa vez, li em algum lugar que os roteiros de Ingmar Bergman, por exemplo, seriam facilmente transponíveis para o palco, enquanto 2001: Uma Odisséia no Espaço jamais teria no teatro a menor fração da genialidade que possui no cinema. Tá certo que Bergman teve uma longa trajetória no teatro além de sua brilhante carreira no cinema, mas… deu pra entender, né?
Ao ler Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez (cujo parentesco com Rodolfo García Vázquez ainda é desconhecido), mais uma vez me veio aquele pensamento: como seria se alguém tentasse transpor aquela história extensíssima pro palco? Que estrutura dramática (ou pós-dramática, pra lembrar da última moda de Milão) daria conta de traduzir a história do povoado de Macondo? E linguagem de encenação? Será que Zé Celso, em um surto megalomaníaco como o que o motivou a montar Os Sertões, conseguiria uma façanha igualmente grandiosa? E como seria essa montagem em uma escala menor do que a do bom velhinho?
Foi essa curiosidade que me levou para o Casarão do Belvedere assistir à adaptação Cheiro de Café, da companhia Teatro dos 100 anos. O local – um casarão burguês da década de 1920 – já indicava que a adaptação buscaria novas formas para contar a história. O espetáculo, de fato, brinca com o espaço onde se estabelece: ao entrar, logo após uma cena em uma pequena sala de estar, o público é levado para a cozinha – e é no trajeto entre estes dois cômodos que a peça se desenrola.
Para fazê-la caber em 1h30 de espetáculo, a adaptação (ou melhor, livre-adaptação, como eles se precavêm no programa) reduz a longa história da família Buendía a poucas gerações, e resolve a questão das pencas de homônimos do livro simplesmente limando os nomes originais e ignorando as adjacências que vão surgindo a cada geração. Noras, cunhados, sogras e primos de segundo grau – quem precisa deles?
No roteiro, acontecimentos que marcam a vida na cidade se intercalam com a trajetória da família, mas nada consegue projetar suas conseqüências com clareza, deixando a sensação de ver uma sucessão de fatos que apesar de lineares, não mostram bem onde querem chegar. O tempo todo, a amarração é feita por Francisca, uma espécie de boneca Emília genérica que acompanha toda a peça e a narra em terceira pessoa – indício de que a dramaturgia ainda tem ranços da forma literária. O que ao longo de toda a peça parece um personagem neutro, onipresente e onisciente – tipassim, um deus ou um Big Brother -, ao final se mostra como apenas mais uma personagem, difícil de relacionar com o resto do que foi visto e contado.
O elenco é composto por jovens atores que evidenciam inexperiência, mostrando preocupação excessiva em fa-lar o tex-to di-rei-ti-nho, quando poderiam encanar um pouco menos com o texto (ou melhor, sua pronúncia) e um pouco mais com repertórios corporais e maneiras de construir aqueles personagens de forma mais autoral e menos reprodutiva. Na mesma medida em que, como grupo iniciante, ainda lhes falta uma formação mais sólida e que lhes garanta mais segurança e liberdade, há o mérito de buscarem um formato que dialogue mais com a história contada do que com estruturas tradicionais – ainda que espetáculos itinerantes já não sejam mais novidade.
Também fica clara a preocupação de estudar formas alternativas de se produzir cenários e figurinos utilizando materiais reciclados e resgatando trabalhos manuais caseiros como, por exemplo, o crochê. Economia, estudo de linguagem ou histeria ecológica? Não sei e a montagem não explicita – o que me faz acreditar mais na primeira hipótese, justificada com a segunda. Fato é que algumas soluções funcionam bastante (a exemplo das armaduras que são tão bacanas que demoramos pra perceber que são feitas só com crochê e pedaços de embalagem Tetra-Pak), enquanto outras parecem estar ali apenas por falta de solução melhor (pedaços verdes aparentes de garrafa pet sempre me incomodam, por mais bem-intencionada que seja sua utilização).
O que no início segue a seqüência de acontecimentos propostos por Márquez (fundação da cidade – que aqui chama-se Melquíades -, influência dos ciganos, crescimento da população), ao final se desmancha em dramalhão fácil como novelas do Wolf Maia – com direito até a “O que houve entre nós foi apenas sexo!”. Pouco da relação do espetáculo com o ambiente doméstico (e, por isso, a encenação numa casa) vai até o fim, e a proposta da peça se perde. Fica registrada, porém, a a intenção do grupo de buscar uma linguagem própria e legítima.
1 xícara de café no meio da peça


Sr. Maurício Alcântara,
“Sobre a crítica de Cheiro de Café”.
Gostaria de parabenizar esta revista pelo trabalho que vem realizando na divulgação dos espetáculos, mesmo que através de suas críticas.
Estou escrevendo, porque quero de esclarecer a você alguns fatos que, creio, não deva ter percebido corretamente. Você leu corretamente o folder? Caso não, vou esclarecê-lo devidamente.
Em primeiro lugar, o Teatro dos 100 anos não teve, em momento algum, a pretensão de fazer uma adaptação de Cem Anos de Solidão, mas sim, buscamos inspiração em tal obra (livre inspiração e não livre-adaptação. Consegue ver a diferença??), por isso, a liberdade poética.
Repito: o grupo não tem e nunca teve, pretensão de adaptar o que, para mim, é absolutamente INADAPTÁVEL: GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ. Sou louca, abusada, arrisco-me a fazer espetáculos, mas tenho e sempre tive bom senso: Gabriel é único! Por isso, por favor, nunca mais confunda uma coisa com a outra: INSPIRAÇÃO!!! NÃO ADAPTAÇÃO!!!
Em segundo lugar, sempre acreditei ser mais fácil criticar a fazer. Assim, pelo menos, não me arrisco a quaisquer opiniões que possam surgir.
Não que eu tema, como uma das autoras e diretora do espetáculo, críticas quaisquer que sejam, porém, tenho a certeza que, mesmo o grupo estando em formação e o espetáculo talvez não haver lhe agradado (fato que também me é absolutamente tranqüilo, já que nada que existe no universo agrada a gregos e troianos…), você deveria, ao invés de tratar um trabalho com palavras tão… como poderei descrever???… Irônicas??!!! dar-se ao trabalho de entender, como alguém de teatro que diz ser, que TEATRO é vida, é pulso, é arriscar-se, é fazer, e por isso mesmo, apenas pelo fato de um espetáculo estar no mundo, deveria ser respeitado, mesmo que fosse o pior dos espetáculos.
Mas mesmo assim, que bom que existem os críticos, senão, como poderíamos também ironizá-los? Nós, pelo menos, nos expomos para que de nós falem, mas e os críticos, o que criam, o que expõem além de suas críticas? Profissão ingrata, heim? Pior do que juiz de futebol: ninguém gosta e todo mundo xinga a mãe!
E também que bom que nem todos no universo têm o mesmo gosto. Muitas pessoas tem gostado e bastante do trabalho.
E, saiba que, apesar de uma crítica tão “construtiva” (ah, ah, ah…) e tão interessante, esta não nos fará desistir de trabalhar com aquilo que sempre amamos em nossas vidas: O TEATRO.
No mais, o “Teatro dos 100 Anos” continuará sua jornada, mesmo com seu dramalhão a la Wolf Maia, sua boneca Emília, (estas foram realmente ótimas: profundamente inteligentes e extremamente criativas!!!).
Numa próxima vez (sim, haverão muitas, tenha certeza!!!) talvez você possa fazer suas críticas pessoalmente para que, de forma tranqüila, honesta e amorosa, nosso(s) espetáculo possa ser melhorado, pois assim, creio, devesse ser o teatro: uma troca de experiências. E se um dia isso ocorrer, tenha certeza, sua opinião será ouvida com muito carinho e, se for pertinente, levada em consideração.
No mais, desejo que A Bacante prospere e que continue divulgando a arte, já que, no “resumo da ópera”, todos trabalhamos para este mesmo fim.
Com carinho,
Kamunjin Tanguelê
“”A vida não é o que a gente viveu e sim o que a gente recorda e como recorda para contá-la.” – Salve nosso querido Gabriel Garcia Márquez.
Sr. Maurício Alcântara,
Parece que dessa vez você foi direto ao ego da pessoa, hein?! Ao ponto de ela não enxergar que, em meio à sua ironia, estava elogiando o espetáculo em muitos aspectos!!! Impressionante! Tem que explicar tudo…
Continue escrevendo dessa forma irônica, pois ao que parece, a Sra. Karamujinho gosta de tirar uma onda com os críticos e, também nessa arte, ela é bem iniciante e tem muito o que aprender com vocês!!!
Abraços
Oi, Kamunjin,
Antes de qualquer coisa, queria deixar claro que o papel da revista não é o de divulgar espetáculos, mas sim o de analisar criticamente o que acontece na cena teatral – e ainda sob um prisma um pouco menos estéril do que o da mídia convencional – daí a escolha por uma linguagem mais informal, mais bem-humorada e sim, irônica. Dê uma volta pelo site pra perceber que não é nada pessoal. E divulgação pela divulgação, a gente deixa pra uma porção de guias que tem por aí…
Sobre a questão do livro, adaptação, inspiração, referência, isso tudo, na verdade, pouco importa. E pouco interfere na forma como vejo um espetáculo – de verdade. Pra mim, mais importante do que o quão fiel o espetáculo é à obra, é o quanto o espetáculo cria uma nova linguagem a partir dela, ou melhor, como a literatura se transforma em teatro. Seja Gabriel García Márquez, seja “Ana Maria Braga Comenta O Segredo”.
Sobre o papel do crítico, sabe, não vou entrar nessa questão porque… oras, porque tenho preguiça. Mesmo. Só digo que em meu texto, eu acho que faço muito mais análises – positivas, inclusive – do que juízos de valor. Olha lá, porque não vou ficar me justificando aqui.
Sobre a questão da troca de experiências que o teatro “deveria ser”, olha essa área de comentários… É o que a gente mais gosta na Bacante. No geral, as discussões que surgem costumam ser mais legais que os próprios textos. Isso não é construção de diálogo?
Agora, se pra vocês, para que a crítica seja válida, esse diálogo precisa ser feito pessoalmente e “de forma tranqüila, honesta e amorosa”, bom… aí o critério é e vocês. Tranqüilidade e honestidade nós garantimos. O resto, é carência.
Abraços,
Maurício
Oba!!!!
Agora fiquei com vontade de ver o espetáculo!
Adoro isso! Me senti instigada!
Poxa, dona Kamunjin é isso que vale, opiniões diferentes não significas que estejam certas ou erradas! Que chata seria a vida (e o teatro) se todos pensassem igual, né?
Vou ver Cheiro de Café e volto aqui pra comentar!!!!
Assistí a peça e achei bem interessante, é muito dinâmica, não dá tempo para dispersar e em alguns momentos me emocionei.
Claro que por ser um teatro alternativo possui restrições orçamentárias mas que foram compensadas com criatividade como no figurino e cenário reciclado.
Não achei a crítica destrutiva, embora que no início esboce um certo preconceito em relação a adaptações e portanto inicia-se com um olhar negativo, mas o crítico tenta comparar o real com o ideal, onde sempre existe espaço para ‘criticas’ eh eh.
Também fui ver a peça e gostei muito!
A proposta de criar uma nova linguagem a partir da obra foi cumprida com êxito pois, entendi plenamente que a inspiração foi LIVRE e que o espetáculo estava desvinculado da obrigação de ser um “Cem anos de solidão”. Óbvio, ninguém é louco!
A Francisca Milenar me envolveu, me fez chorar…e olha que sou durona…rs… Achei óbvio que os nomes das personagens devessem ser “limados”, uma vez que seria difícil desfiar a árvore genealógica inteira em uma hora e meia.
Uma coisa me intriga, como um crítico pode dizer que adaptação, inspiração, referência , isso tudo, na verdade, pouco importa? Ora pois!
O importante é o forum de opiniões e este, já está acontecendo!!!
Quanto à preguiça para se comentar sobre qualquer assunto que seja Maurício, creio ser da parte de todos, até para mim.
E se apenas os críticos puderem ser irônicos, que graça teria a vida, não é mesmo???
Maurício, bom ouvi-lo novamente, bem como a todos os outros.
Ego ou não, iniciante ou não, o importante é nenhum de nós pararmos.
É sempre como o velho e piegas ditado: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”
Um beijo à todos,
Kamunjin Tanguele
Acho que todo debate é benéfico. Já pensou que tédio se todos gostassem de tudo e concordassem com tudo??
Além do que há um ditado que diz: O verdadeiro amigo não é o que sempre está a nosso favor, mas o que é capaz de dizer a verdade, ainda que ela doa!
Por isso, quero agradecer a você Maurício por ter se portado como um amigo e também ter “despertado, motivado e instigado” tantos outros “amigos” do Teatro do 100 Anos.
Com os elogios ficamos felizes, mas com as criticas é que crescemos e melhoramos como pessoas e profissionais.
abraços
Silvana Cordeiro
Assessora de Imprensa – “Cheiro de Café”