Críticas

Cheiro de Chuva

por Fabrício Muriana

Nenhum Comentário 15 January 2008

Um diálogo ou dois monólogos?

Foto: Lenise Pinheiro

Durante toda a apresentação de Cheiro de Chuva, não pude deixar de imaginar o que pensava Mário Bortolotto da obra de Bosco Brasil, que ali se apresentava como diretor e, sobretudo, como dramaturgo. Bortolotto, também diretor e dramaturgo (além de ator e bebum), sentou-se a poucas cadeiras de distância e assistiu com atenção a quase uma hora e meia de falação no palco.

O fala-fala parecia não ter fim, até chegarem os silêncios. Armadilha cruel, essa de quem dirige o próprio texto. Bosco e Mário sabem bem: como estabelecer uma relação menos autocrática quando se é dramaturgo e diretor? Como definir um distanciamento crítico possível pra não forçar a barra em cenas que não funcionam, mas que estavam previstas na dramaturgia? Como chegar àquele ponto em que um diretor sabe que a cena é plena de sentidos, mas que na visão do dramaturgo ainda parece limitada (ou vice e versa)?

A questão das múltiplas funções nessa montagem em cartaz no CCSP não pára por aí. A atriz Tânia Costa, que interpreta a protagonista, uma professora de dança de salão, também foi a pessoa que verteu para o francês o texto de Bosco Brasil. Atriz-tradutora, dramaturgo-diretor: numa perspectiva otimista, tal multiplicidade tem tudo pra ampliar os sentidos da obra. Mas algo de natural demais, de textocêntrico mesmo, sobra como ruído dessa montagem. Bosco Brasil é de uma geração que ouviu muito dizer que o “autor morreu” – lembrando as palavras de Beth Néspoli , do Estadão – durante a era dos encenadores. Duas décadas depois, no entanto, o que vemos em cena nesse caso é que o texto não só venceu o braço de ferro, como afugentou todos os demais elementos cênicos: eles aparecem tímidos, tímidos.

Cheiro de Chuva 1

 

Dois monólogos. Essa é a impressão que fica de Cheiro de Chuva no fim das contas. Dois monólogos conectados por uma relação de professora/aluno, dois incapazes que não voltarão iguais pra suas vidas de antes da primeira aula. Dois solitários que se encontram na dança, mas não conseguem exprimir suas próprias angústias em palavras, a não ser as muitas dirigidas para o espelho/platéia. Essa incomunicabilidade resulta numa peça construída mais com silêncios do que com imagens – outro ponto que relaciona Bosco e Bortolotto (impossível de esquecer os silêncios de Uma Pilha de Pratos na Cozinha). Infelizmente, o diálogo entre dramaturgos não se concretiza com profundidade. Acessei hoje o Atire no Dramaturgo e Bortolotto se limita a fazer um elogio da peça de Bosco. Gostaria que essa discussão da dramaturgia brasileira contemporânea proposta no Palco Sur Scéne (projeto que envolve dramaturgos franceses e brasileiros, cujas discussões pretendo cobrir nas próximas semanas, lá no CCSP) fosse realmente mais um espaço de embate de idéias e menos vitrine dos últimos trabalhos.

2 monólogos

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).