A vida na praça…
Foto: André Stéfano
“Como que alguém que não come carne mora na rua?” – espanta-se a solitária senhora (Cláudia Mello) que visita a praça todos os dias, conversa com as plantas, mas não quer ser incomodada pelo morador de praça (veja bem, não é morador de rua) vegetariano (Caio Blat). A tal praça, com banquinho, árvore imaginária e tudo, é o cenário da peça Chorinho, em cartaz no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt (sem banquinho) – igualmente habitada por moradores de rua, travestis, traficantes e todo esse povo que você e aquela senhora preferem não ver perto de suas casas e nem dos lugares onde freqüentam.
Esse diálogo com o entorno e a solidão da cidade grande dão o tom do espetáculo. Nele, uma senhora solteirona aposentada procura algo mais para sua vida, preenchida apenas por programas de televisão. No mesmo espaço em que se dá a busca da mulher, vive um mendigo orgulhoso, vegetariano e de família espírita, que conversa com a praça. Convivendo ali, os dois chegam a se ajudarem mutuamente, mais do que isso, acabam dividindo suas loucuras. Ela, com os preconceitos estabelecidos pela classe média, ele com um discurso inflamado a respeito das leis e da corrupção política. No discurso do mendigo, aliás, está o maior buraco do texto. Por mais fora do comum que seja o personagem de Caio Blat, o autor colocou na voz dele todo seu idealismo e suas próprias críticas a tudo o que há de errado com o mundo.
Na comparação entre esses dois personagens tão distantes, o texto traz um outro significado para o conceito de liberdade. O menino é mais livre se considerarmos que não precisa dar satisfação a ninguém, não tem a limitação do medo – seja o de ficar na rua até tarde ou o de ser assaltado, por exemplo -, e não se importa com a opinião dos outros. Já a senhora está presa nos preceitos da sociedade e precisa se comportar como tal para não ser esmagada pelo sistema. Ela precisa das aparências e vive presa – em casa e nos seus (pré)conceitos.
A encenação não poderia ter estreado em melhor época e lugar, em plena temporada de caça aos “menos favorecidos” (um sinônimo politicamente correto, para não repetir palavra, claro), com as políticas de higienização do centro e bancos anti-mendigo, que consistem puramente em varrer essas pessoas para debaixo do tapete, para quem tem dinheiro poder passear tranqüilamente pela cidade.
Caio Blat deixa um pouco de lado seus personagens comunistas de filmes sobre a ditadura, interpretando de maneira convincente o morador da praça. Consegue, ainda, fazer ótimas caras de choro, como se pode ver nas fotos, fazendo juz ao nome da peça. Já Cláudia Mello quase descamba para uma comédia mais pastelão, beirando a outra praça, aquela que é nossa (rá!). Mas nos momentos mais dramáticos ela consegue segurar sua personagem e recupera a má impressão inicial.
Dirigido por Marcos Loureiro, o mesmo de Delicadeza e Hotel Lancaster, e Fauzi Arap, também autor do texto, o espetáculo mostra essas incongruências da cidade, que faz com que até mesmo os locais ditos públicos sejam cercadas por grades, para os “não-cidadãos” (outro sinônimo eufemístico, tô ficando boa nisso) não entrarem. Como conseqüência, as pessoas, cada vez mais solitárias, se comunicam cada vez menos.
7x a palavra “praça” no texto + 1 no título
PS Social: Como a Bacante está ficando chique e presenciou a estréia, a platéia era formada por pessoas ilustres e bem vestidas. Algumas não lembro o nome, mas sei que uma menina de uma novela da Record estava lá (a moça do Guia da Semana quem me falou), Leopoldo Pacheco de A Javanesa , e Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores dos Satyros, também. Aliás, Vázquez pelo visto gostou da peça, ele estava rindo bastante na minha frente.


