Uma comédia dramática musical romântica metafísica de guerra
Foto: Guga Melgar
Saí do SESC Consolação com uma pulga atrás da orelha. Não que o teatro estivesse com problemas de dedetização, mas algo me incomodava. A peça Cine-Teatro Limite, que acabara de assistir, me remetia diretamente a outra peça: Cabaret.
Este sentimento de déja vu me fez parar pra tentar identificar semelhanças entre as duas peças:
* Um apresentador (ou mestre de cerimônias) é quem abre a peça, avisa o público sobre o que vai acontecer e também tem participação importante na trama;
* Ambas as histórias são contadas pelo ponto de vista de um jovem escritor que resolve escrever tomando como base suas próprias experiências de vida. O resultado é Goodbye to Berlin em Cabaret e Deu o Breque em Berlim em Cine-Teatro Limite;
* A ação das duas peças se passa durante a Segunda Guerra Mundial com a iminente ameaça do nazismo;
* A penúltima cena de cada uma das obras se passa numa estação de trem, onde um aviso sonoro que indica a saída do último trem se repete sucessivas vezes;
* As duas peças se dividem em dois atos, com uma mudança sensível do tom cômico para o dramático entre eles (convenhamos que, com 135 minutos de duração, nem precisava de intervalo em Cine-Teatro Limite, não é mesmo? Fora que, como não era estréia, não tinha nem espumante nem aperitivos pra compensar depois.
Após ponderar estes fatores, eu ainda permaneço em dúvida se as similaridades são uma coincidência, uma inspiração ou mesmo uma homenagem. De qualquer forma, Cine-Teatro Limite é mais do que isso.
A peça conta a história de uma família carioca na década de 40 sob a ótica de um dos filhos, Sábato, que é sucessivamente demitido de diversos trabalhos e alimenta o sonho de ser escritor de filmes de cinema. Esta profissão não é bem vista pela família, especialmente pelo pai, que quer mesmo é que ele vá trabalhar no açougue do bairro. Em paralelo, o irmão mais velho é enviado para a Guerra e desaparece sem deixar notícias, fazendo com que a família não saiba se ele está vivo ou morto.
O que poderia ser um drama pesado vira uma comédia divertida ou, como diz Pedro Brício no programa da peça, uma “comédia dramática musical romântica metafísica de guerra”, uma vez que é o humor que conduz grande parte da narrativa da peça, com destaque especial para as personagens femininas, cada qual com um tipo de humor bem específico:
* A empregada Nancy, interpretada pelo ator Alexandre Pinheiro, é uma negra que sonha interpretar Marlene Dietrich no cinema e nos palcos. O humor da personagem, extremamente popular e calcado na tradição de empregadas engraçadinhas, conquista o público, que responde com risadas a qualquer fala da personagem;
* A mãe, uma ex-vedete que abandonou os palcos para se casar e que apresenta indícios de alcoolismo, apresenta um humor ingênuo nos momentos sóbrios e histriônico nos momentos em que está alcoolizada. Quando, por ocasião da visita de um policial à sua casa, ela se exalta e extravasa tudo o que estava reprimindo, presencio uma das cenas mais hilariantes a que assisti nos últimos meses;
* Por fim resta a personagem Sarah, uma revolucionária comunista em pleno governo Getúlio Vargas, que passa a ser perseguida pela polícia e se esconde na casa da família de Sábato. Esta personagem responde a tudo de forma seca, sem humor e, por isso mesmo, termina sendo uma das mais engraçadas da peça.
O texto agrada pela sua originalidade e sua temática é contemporânea sem precisar se relacionar diretamente com os temas sobre os quais transitam a grande maioria das peças contemporâneas: violência urbana, pobreza ou relacionamentos amorosos confusos: as aspirações de uma família de classe média.
Também é mérito da montagem tratar de um momento da história brasileira sobre o qual não existem muitas montagens por aí.
1 pulga que se divertiu pra caramba


