Chacoalho
Foto: Guga Melgar
Depois de um prólogo com gags de repetição, começa a se apresentar uma peça “tipicamente carioca”. Ok, você não conhece esse gênero? Não, não fazem parte dele as peças da Cia dos Atores, que apesar de, em sua maioria, serem cariocas, não produzem montagens “tipicamente cariocas” – falo isso sem ter assistido O Bem Amado, e fontes fidedignas me garantem que também é uma montagem “tipicamente carioca”. Também não consta na lista desse gênero as peças de Haroldo Rêgo e Jefferson Miranda, que, inclassificáveis, resolveram procurar outras estéticas. Também não estão entre as montagens “tipicamente cariocas” toda a tradição de palhaçaria daquela cidade. Mas calma, não vamos excluir todo mundo… tem muuuuitos exemplos de montagens “tipicamente cariocas”. No início de Cine-Teatro Limite, lembrei de cara das montagens recentes de Rasga Coração e Gota D’água (“tipicamente cariocas”).
Aí os personagens vão aparecendo, na mesma proporção que as citações. “Não entraria em nenhum clube que me aceitasse como sócio”, frase de Groucho Marx, proferida por Sábato ao policial, justificando porque nunca fez parte do partido comunista. E é o resumo da peça que está aí. Sábato (o protagonista, cujo nome é uma citação ao “último crítico” Sábato Magaldi) não entraria no partido comunista e não deixaria sua subjetividade de lado. Ele é o sujeito sonhador no tempo em que o Brasil massacrava as subjetividades. Relembro a fala de Suely Rolnik na unidadeprovisóriadosescavenidapaulista, quando ela explicou que boa parte de sua geração teve que optar entre direita e esquerda, num mundo onde ainda não havia contra-cultura. Sábato é um sonhador.
Ele prepara um roteiro de cinema que nunca saberemos se é verdadeiro. Totorito, seu ator principal, é também uma espécie de amigo imaginário, portanto os limites instituídos dentro da peça do que é real e imaginário se embaçam. A sacada, pra mim, está aí – não podemos dizer se é tudo só um filme (seu roteiro) ou se é tudo só uma peça (sua família). O que no primeiro ato é uma peça “tipicamente carioca” no segundo ato se metamorfoseia em alguma coisa onírica, realmente no limite entre teatro e cinema. As falas, o ritmo, o realismo e as imagens me remetem ao cinema brasileiro das antigas. Mas estamos num teatro e aquilo é uma peça.
Os recursos para chacoalhar com o público dessa maneira são poucos, arcaicos, mas parece que todas essas escolhas já estavam alinhavadas desde a dramaturgia de Pedro Brício. Portanto vemos também um controle total da situação. Desde a escolha de encenar num dos teatros mais caretas de São Paulo – o Sesc Consolação, que, remomorando, só não ganha do Imprensa – até a indefinição da história no seu final. Dentro da atmosfera pouco promissora do teatro comercial, com interpretações que se aproximam das já ditas montagens “tipicamente cariocas” temos uma grata surpresa. Dessa vez não vou contar, só quem for ver vai descobrir, mas posso adiantar que é bão demais ver as senhorinhas que batem cartão no Consolação saindo aturdidas com o final da peça. Não recomendada para cardíacos.
4 boa-noites respondidos pela platéia


