Recitando histórias
Noite de verão. Sem chuva, nem enchente. Situação rara. Nesses casos, além de praia e bar, poucas coisas são melhores que um sarau de poemas. Clarices, em cartaz no Teatro Àgora, não trata de poemas, nem é sarau, mas bem que parece. Curtinha – o que, quase sempre, considero uma vantagem -, íntima e simples, a peça oferece pra quem conhece Clarice Lispector ou não, momentos agradáveis e envolventes, apesar daquela espontaneidade quase agressiva da autora.
Quando falo em sarau, relaciono a peça com o formato de uma reunião informal – para o bem e para o mal. Claro que é delicioso ouvir histórias de Clarice. Aliás, se alguém começasse a ler um livro dela na rua em voz alta, eu provavelmente chegaria atrasada no trabalho só pra ficar ouvindo. Para uma peça, no entanto, esperava que brincassem mais com essa maluca que escrevia tudo que pensava. Esperava mais criação, mais desrespeito mesmo. Esperava ver mais o trabalho das três atrizes (concepção) e da diretora (organização da bagunça) do que o trabalho puro de uma autora cujos livros qualquer um pode ler ou até ouvir em saraus – ainda que não seja propriamente poesia.
Não quero, com isso, dizer que não houve nenhum trabalho, nem que não se percebe nenhuma idéia interessante executada ali. Pra começar, a competência e a presença de palco das três atrizes é inquestionável. Quase sem desnível entre as interpretações, elas brilham quando contam as histórias, seus rostos se iluminam. Certamente, se fossem elas a ler Clarice em voz alta na rua, eu não chegaria atrasada ao trabalho – nem iria.
Além da interpretação, duas boas idéias ajudaram a compor um universo bem próprio. Uma delas foi a de iniciar o espetáculo com o áudio da última entrevista de Clarice, concedida ao jornalista Junio Lerner, e transmitida pelo programa Panorama, da TV Cultura, em fevereiro de 1977 (a autora faleceu em dezembro do mesmo ano).
A outra boa idéia é o que nos explica o plural no título da montagem. É quase clichê dizer que um puta artista não é um só, mas muitos em um. No entanto, como clichê é mera questão de utilização, as meninas conseguiram ser originais e não se limitaram a dizer que Clarice é muitas: colocaram três delas em cena ao mesmo tempo, cada uma representando um momento, reforçando um sentimento, talvez até simbolizando uma fase da vida da autora. Faltou mesmo, um pouquinho de coragem para fuçar este texto. Se tem caras que fuçam até no Shakespeare, acho que “as Clarices” não se importariam tanto.
3 fluxos da mesma consciência


Ju, não é o primeiro que leio. Esqueci-me de dizer antes. Você “manda” muito bem no texto, heim?
Ei, menino de Tree Points! Obrigada! Sua opinião é o que posso chamar de opinião qualificada, não? rsss
Que bom que este não foi o primeiro e tomara que tb não o último! Volte sempre!!!
Beijos,
Juli =)