A harmonia conflituosa entre amor e liberdade
Fotos: Zeca Caldeira

A sala experimental do Teatro Augusta recebeu muito bem o espetáculo Cleide, Eló e as Pêras, adaptação de três contos do livro Macaúba da Terra, de Gero Camilo, mesmo conjunto de obras que deu origem à super premiada Aldeotas e também a As Bastianas. Recebeu, reforço, porque a temporada infelizmente já acabou (foi de 22/06 a 26/07). Mas não chore ainda. A reestréia, apesar de não estar definida (nem quanto à data, nem quanto ao local), não deve tardar, dado o sucesso do espetáculo que já rodou São Paulo, passando por espaços como Sesc Paulista, TBC e Parlapatões.
A Kátia, que fica na recepção do Teatro Augusta, me alertou: “Só tem lugar no chão”. “Tá ótimo!” E tava mesmo. Melhor do que eu poderia imaginar. Ao descer pela “super alternativa” escada em espiral que leva àquele espaço espremido de teto baixo, pude ver que os sofisticados lugares no chão tinham até almofadas! E o mais especial do meu lugar foi que ele me deixou tão perto do “palco” a ponto de quase ser atropelada pelos atores várias vezes. Entenda-se por “palco” o local onde Gero Camilo e Paula Cohen ficam a maior parte do espetáculo, levando em consideração que ali não há muita diferenciação entre palco e platéia e que tudo vira espaço cênico, até mesmo a estreita escada em espiral.
Da minha almofada preta particular assisto o longo beijo que dá início a relatos sobre histórias de amor que aprisionam e libertam, que unem e afastam, tudo subitamente. Conhecemos a atormentada Isadora, que nos apresenta o idealizado Eló, um bon vivant admirador de pêras por quem ela se apaixona e a quem se prende. Em seguida, conhecemos Ernesto, vigia de uma fábrica que, por sua vez, nos apresenta um amor libertador e não menos idealizado: Cleide, a quem amava contando estrelas. Eló e Cleide: duas personalidades que nos colocam diferentes possibilidades de relacionar amor e liberdade, necessidades tão intensas.
Encenando um texto que tem alma própria, capaz de falar de sensações que arrepiam até “os pêlos da alma”, Gero se desdobra e cresce. Cresce tanto que não parece o mesmo ator baixinho que vemos em bares por aí. As brincadeiras com o corpo convencem, divertem, mas não são sequer comparáveis a Aldeotas, em que Gero é criança, formiga, adulto, menino que vive no centro da terra, homossexual reprimido, velho reencontrando a infância… Em Cleide, Eló e as Pêras, Gero muda menos, há que se admitir, no entanto, continua sendo impossível conter o sorriso quando ele sorri. Neste ponto, o espaço contribui, permitindo ao ator passear pela platéia com facilidade e conversar com pessoas que estão a centímetros de distância.
Paula Cohen, também em cartaz na peça Uma Pilha de Pratos na Cozinha, de Mário Bortolotto, não fica nem um milímetro atrás de Gero. A segurança de sua interpretação traz intensidade e, como numa mágica, falas que poderiam ser banais, curtas, sem destaque, ganham força nos ritmos imprevistos que ela impõe. Juntos em cena, os dois mostram entrosamento e conseguem o feito de não ofuscarem um ao outro. O encontro dos olhares e a expressão corporal de ambos fazem incrível a cena em que Cleide e Eló tentam se tocar, porém são impedidos por uma distância que não é física, mas que, em cena, é “interpretada” por uma das fileiras da platéia, que se vê no imprevisível papel de obstáculo entre os dois atores, que se esticam, se jogam contra o público e, finalmente, desistem. (Ok, neste momento eu odiei meu lugar no chão.)
A trilha sonora da peça consegue uma rara harmonia com o conteúdo, contando com duas composições de Gero: Astrolábios (com Kleber Albuquerque) e Infinito Meu, além de Ribeirão, de Celso Sim e Coração Contemporâneo, de Carlos Zimbher. Com exceção desta última, interpretada pelo próprio compositor, todas são cantadas por Rubi. Pra quem gosta de música que canta para a alma, fica a dica. Pena que, no incrível encontro entre Cleide e Eló, optou-se por rock clássico, já que, ao fundo, acontecia uma animada festa de aniversário. Perfeitamente adequado ao contexto, mas com menos significados e menos intensidade do que as outras canções utilizadas.
Terminado o espetáculo, com dor nos joelhos, subo a escada em espiral e caminho de volta pra casa com Cleide, Eló, Ernesto e Isadora ecoando em minha cabeça. Os personagens nos falam tanto de amor, de alma, de liberdade, que é inevitável ficarmos tentando encontrar quanto de cada um deles e de suas formas de amar existe em nós. Afinal, amar é humano.
Em respeito à declaração de Gero Camilo de que “teatro faz parte do mistério e não do critério” esta resenha não tem cotação, embora merecesse 5 caixas de pêras.

