Cada Pirandello a seu modo
Na mesma semana em que teve início no SESC Consolação uma breve temporada de apresentações e leituras do repertório de Cacá Carvalho para textos de Luigi Piradello, estava em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso a primeira de duas peças que as companhias Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita prepararam para o Projeto Cada um a Seu Modo, do mesmo dramaturgo italiano.
A história apresentada em Como você me quer traz uma esposa que volta à residência do marido após anos de ausência, e aproveita-se do fato de ninguém mais se lembrar de sua fisionomia para induzir todos (marido, familiares, empregados) ao erro: o que no início parecia certo – que aquela mulher era a esposa “perdida” - com o desenrolar da história, todos ficavam na dúvida: seria ela ou uma impostora? Como metáfora para essa ausência de identidade, ao longo do espetáculo todos os atores se revezavam no papel da protagonista, imitando sempre algum aspecto do retrato sem rosto que aparece em cena – a única referência que todos têm de quem era a esposa “original”.
Além da constante troca de personagens, há ainda o distanciamento metalingüístico gerado pelos camarins improvisados no próprio palco (alguém já viu isso em algum lugar? Eu tive uma leve sensação de déjà-vu), mas tudo perde força porque a linguagem assumida pelos atores é a do drama tradicional: os diálogos todos seguem aquele padrão stanislavskiano de que tudo – voz e movimentos – apontam para aquilo que o personagem quer dizer, quando há, na verdade, muito mais a mostrar sobre o personagem do que o que já está dito. O texto se torna o centro de tudo, e os personagens que não estão na interlocução simplesmente não têm o que fazer em cena. E tudo o que acontece assumindo a forma do verborrágico e tradicional blá blá blá no proscênio.
O que, em geral, deveria traduzir os grandes questionamentos sobre a individualidade e sobre a identidade, pontos fortíssimos (tipo bombados) da obra de Luigi Pirandello, no fim acaba assumindo a forma superficial dos melodramas policiais de Agatha Christie. Muito distante do outro Pirandello que podia ser visto dois dias antes bem pertinho dali, sob a direção de Roberto Bacci, aqui talvez tenha faltado um pouco mais de mergulho na obra e na linguagem proposta pelo autor.
2 textos no projeto, mas só vi um

