Críticas

Confissões das Mulheres de 30

por Maurício Alcântara

Nenhum Comentário 06 December 2008

Mulheres de 30 vão ao shopping

Querido leitor, vamos fazer um exercício de imaginação. Feche os olhos (você está lendo aqui ainda? ufa! pode ficar com os olhos abertos, mas prestenção). Imagine uma peça que fala, com humor, sobre angústias e crises femininas – trabalho, sexo, relações afetivas, família etc. Que peça vem à sua cabeça? Só com essa sinopse (tão fraquinha como as que vemos nos guias de jornal), dá pra imaginar muitas montagens: Os Monólogos da Vagina, Os Homens são de Marte e é pra lá que eu vou, As Olívias Palitam, boa parte das peças em cartaz no circuito comercial, além de considerável fatia da programação do Fringe de Curitiba (que deveria ter, nos próximos anos, a categoria “comédias conjugais” na programação, pra facilitar a organização).

Se a sinopse apresentada é fraquinha, vale uma colherada de biotônico: às “angústias e crises femininas”, somamos a informação de que essas mulheres têm mais de 30 anos, são claramente de classe média, já conquistaram muitas coisas, já perderam muitas coisas, já foram casadas, já se divorciaram, já treparam muito e continuam suas vidas, buscando o amor, questionando e almejando um ambiente familiar, crescendo profissionalmente. É de tudo isso que fala Confissões das Mulheres de 30, monólogos com dramaturgia assinada por Domingos de Oliveira. A montagem, dirigida por Fernanda D’Umbra, tem em cena Camila Raffanti, Juliana Araripe e Melissa Vettore – que, junto com a própria Fernanda, compõem o elenco de um seriado na TV paga sobre… (tchananã!) a vida de mulheres modernas.

Às personagens de classe média com suas crises e alegrias de classe média, que – ainda que subjetivamente – remetem a personagens de classe média de uma série de um canal de classe média, somamos um teatro pequeno e confortável, instalado no último piso de um shopping center (em estilo neoclássico, sempre bom ressaltar) num dos bairros de classe média-alta mais tradicionais da cidade. Tudo isso não deixa dúvidas com relação ao público e o propósito da peça – e, inclusive, reflete uma declaração da própria D’Umbra em seu blog no ano passado, em que dizia que sentia falta de público “civil” nas peças, “gente de fora da classe artística (dentistas, jornaleiros, vendedoras, cabeleireiras, etc.)”.

A interpretação, toda a concepção visual da peça e a direção de D’Umbra (distanciada da linguagem e do público característicos das peças do Cemitério de Automóveis, a que estou muito mais acostumado a associar seu trabalho) imunizam a montagem de descambar para o besteirol ao buscar não apenas o riso fácil, mas também uma identificação maior daquele público “civil” – afinal, apesar do recorte específico (feminino e balzaquiano), os depoimentos refletem não apenas as mulheres de 30, mas todo o universo sentimental da nossa sociedade burguesa. Não há vulgaridade nem mesmo no momento em que, por exemplo, uma personagem declara ter levado uma “surra de pica” (e em seguida olha com cara de “ih, baixei o nível, foi mal, gente cheirosa e respeitável de Higienópolis”) – e o resultado é que a platéia se identifica e se diverte – reação já esperada numa peça com esta temática e apresentada num shopping, e muito mais verdadeira do que a reação deste mesmo público quando vai ver as peças beginhas e tradicionais que sempre aparecem no teatro Renaissance ou no Jaraguá.

30 anos na temática, mas a média da platéia era um pouquinho maior…

E você, o que acha?

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