Uma peça leve
Personagem 1: Aspirante a quadrinista frustrado que fica o tempo todo em casa porque não tá nem um pouco afim de trabalhar. Adora tocar a campainha dos vizinhos e é impotente.
Personagem 2: Mulher que, além de ter um emprego fixo, faz programa para poder sustentar manter o apartamento em que vive com o marido. É casada com o Personagem 1, que é ciente da vida dupla da esposa e não se importa com isso. Ela também parece não se importar muito de ter de sustentá-lo.
Personagem 3: Adolescente com hormônios em ebulição. Entra na vida dos dois personagens anteriores como um dos clientes da Personagem 2 (que leva o nome da peça) mas, em vez de despertar ciúmes, acaba ficando amigo e aderindo ao mesmo estilo de vida do Personagem 1.
Se colocássemos uma garrafa de uísque na mão do Personagem 1, uma trilha sonora talvez com Tom Waits, talvez com Bob Dylan, e não nos preocupássemos com muito além de uma boa iluminação, um cenário com o básico necessário e um boteco na porta do teatro pra encontrar com os amigos na saída, poderíamos dizer se tratar de uma peça de Mário Bortolotto, mas Cordélia Brasil não tem nada disso. Nada de uísque, de Bob Dylan ou de boteco.
No lugar de todos estes elementos bortolottianos, há o rostinho global de Maria Padilha, figurinos ultracoloridos, cenário estilizado (também ultracolorido) e até mesmo uma chuva de bolinhas de sabão, numa produção que não apenas rejuvenesce o texto de Antonio Bivar, como também tem o bom-senso de não querer forçar a barra com escândalos que, depois de 40 anos, já não escandalizam ninguém (ou quase ninguém, nunca se sabe).
O resultado é quase uma comédia de costumes, um espetáculo tão leve, mas tão leve, que não parece ter pretensão maior do que a de divertir, sobretudo ao público que vai ao teatro, não pra se atormentar com provocações existenciais nem encontrar referências para o resto de suas vidas, mas para encontrar bons momentos de descontração antes de rumar com os amigos para uma pizzaria. Mais curioso é que essa peça carioca (com cara de peça carioca), que poderia muito bem fazer temporada no Cultura Artística e, com isso, ganhar um montão de dinheiro, está em cartaz lá no SESC Avenida Paulista, meca culturete do teatro paulistano, a preço de teatro no SESC.
Ótima oportunidade praquela turminha que só vai ao teatro quando tem gente famosa no elenco, e ainda reclama que teatro é caro. Só é uma pena que a montagem não aproveite essa capacidade de atrair – das novelas pras peças – todos os fãs da Maria Padilha para despertar neles qualquer reflexão nova, para chocá-los de alguma maneira ou, pelo menos, para dar uma vontadezinha que seja de conhecer outras maneira de fazer teatro que não essa: leve, confortável e lucrativa.
3 perdidos numa noite de bolinhas de sabão


Ok, tá certo. Leve e colorida. Mas tem algo mais lá. O multicolorido, pra começar, faz ver o tamanho da infantilização daquele personagem 1, que fica em casa brincando com as roupas da mulher, lendo HQ e dizendo q um dia vai escrever um. É exagerado, meio redundante, mas acho que é isso.
O que fica pra pensar, se vc quiser pensar alguma coisa, são papéis masculino e feminino nas relações. O que faz um homem de 30 anos se jogar em casa e só se interessar em quadrinhos? Falta vontade de viver? Motivação, sentido? Sensação de q o mundo (ou a mulher) tá ali pra sustentá-lo? Individualismo? Mimo (essa palavra assusta qm esteve por lá)?
E a mulher, pq se sujeita a sustentá-lo? É uma coisa maternal? De dependência tb? Medo da solidão? Sei lá. Mas acho que vejo esse tipo de relação à minha volta. Então não é uma peça vazia, ainda que leve como a bolha de sabão q a gente sopra (se não for jornalista).
Chato mesmo é a incapacidade na Padilha descer do salto, tirar o delineador e para de posar de bonita. Ficaria mais sincero, já q a personagem está em crise de idade, se sente feia, acabada, frágil. A atriz, nunca.
bjs
Oi Lu,
Não tinha visto por esse lado, e realmente faz todo sentido. Realmente gera um estranhamento essa relação de dependência que, num primeiro momento remete a uma inversão de papéis na sociedade, mas logo fica claro que não rola exatamente uma inversão. Muito legal!
E concordo com relação à Padilha. Será uma espécie de distanciamento incorporado pelo padrão Globo?? hehehe
Beijo!