Arquivo X à margem do Guaíba
Foto: Bruno Goulart Barreto

Crucial Dois Um é uma peça gaúcha esquisita pra dedéu, e eu ainda não sei dizer se isso é bom ou ruim. O ambiente é o de um filme de ficção científica, num misto de Abre los Ojos (que é o Vanilla Sky bom, do Amenábar), Admirável Mundo Novo, 1984 e, por que não, Os Jetsons (isso sem contar O Demolidor, aquele filme em que o Stallone transa com a Sandra Bullock por telepatia). Há uma preocupação tão grande em construir a ambientação de um filme que tem até gente imersa em tanque de água, comunicação em videoconferência e roupas de borracha. Não faltam ainda referências a filmes do Stanley Kubrick, como o aparelho de tortura aplicado no personagem Alex, de Laranja Mecânica, ou ainda o diálogo com o “chefe”, representado, vejam só, por uma luz vermelha, em uma possível referência ao computador HAL, de 2001: Uma Odisséia no Espaço.
Na história, uma mulher é interrogada e torturada para delatar seu sócio, com quem fez tramóias pra ganhar mais dinheiro com sua empresa de extração de água – seeempre tem gente fazendo tramóia pra ganhar dinheiro, até no futuro que (ainda) não existe. Acontece que ela está morta e foi “ressuscitada” por algumas horas para resolver suas questões pessoais. E “o governo e as empresas patrocinadoras” estão interessadas no que ela tem pra dizer sobre o que andou aprontando em vida.
Luz negra, holofotes na cara da platéia, uma caixa preta onde acontece a história: tudo isso ajuda o público a embarcar nessa experiência. Tudo, exceto o texto, principalmente no início (quando a platéia mais precisa de elementos pra “fazer de conta que acredita” ). A mulher acaba de acordar, sai do tanque de água e é pendurada no “extensor”, o aparelho de tortura. Nós não sabemos ainda quem é ela. Não dá nem pra saber se ela sabe quem é ou não. E muito menos, quem é o cara de avental branco ao seu lado. Começam as perguntas que ela faz pra tentar entender sua situação, e eu fico uns bons minutos tentando encaixar as perguntas pra saber quem diabos é aquela mulher, o que só consigo entender lá na frente.
Ao longo do diálogo, ela descortina a realidade daquele que a interroga, e ambos entram num fluxo de acusações, de cumplicidade e de indignação com suas realidades. Alguns diálogos até se salvam, outros nem de longe. Então , o texto mostra uns buracos do tamanho de uma nave espacial: no meio do diálogo, ela tira um telefone celular sabe Deus de onde. Isso sem contar que, a essa altura, o chefe Big Brother que os obervava pela câmera-luz-vermelha já nem existe mais. Uma porção de outros deslizes como esse diminuem as chances do “esquisito” que eu atribuí à peça ser um adjetivo positivo. Pena, porque o clima estranho criado é bem legal. Perdão, tri-legal.
2001: uma cotação no espaço


Sempre quis ser capaz de escrever uma peça de ficção científica.
Nunca consegui…
QUeria ver essa bagaça!
Estou adorando falar bagaça!