Críticas

Curral Grande

por Fabrício Muriana

2 Comentários 30 September 2008

Reverberações da seca de 32

Fotos: Alex Hermes e Sol Coelho

Para se embrenhar no passado de nosso país é necessário não ter medo de mergulhar na lama. Marcos Barbosa, autor de Curral Grande – sua pesquisa de mestrado – soube descer com escafandro até bem fundo e trazer à superfície um material que provavelmente ficaria escondido nas esquinas da história do Brasil – aquela parte que não cabe nos livros didáticos.

Peça publicada no século 21, Curral Grande bota em cena os campos de concentração brasileiros do século passado. Isso mesmo, campos de concetração. Enquanto aqui, em São Paulo nem sequer resolvemos a questão do preconceito velado contra migrantes nordestinos (e não me venham dizer que ele não existe), lá em Guaramiranga vejo que nem no próprio Ceará os migrantes da seca tinham vez.

Na grande seca de 1932, Fortaleza manteve campos de concentração que recebiam os flagelados do sertão. O povo faminto rumava para as cidades em trens – em condições bem parecidas com as de navios negreiros a do transporte público em hora de rush de São Paulo – que os deixavam suficientemente distantes e confinados para que a cidade não fosse invadida pela miséria.

Assim como outras cegueiras presentes em obras por aí, a seca traz a cegueira da fome. O desespero diário do pai de família que não sabe o que vai comer nem o que vai levar aos filhos. Essa temática extremamente dura está presente nesse drama histórico, explorada de uma forma bem incomum: os atores usam roupas pretas que cobrem todo o corpo, menos o rosto, de maneira a despersonalizá-los. Criada como trabalho de conclusão de curso, essa montagem de Curral Grande é uma aposta de jovens atores na denúncia de uma realidade que só recentemente passou à história oficial e que nunca havia aparecido no teatro.

O que talvez faça falta nessa montagem é uma produção de imagens de conexão e síntese. Por mais que os atores interpretem diversos personagens e que a encenação dê conta de colocar a sua cara – ou várias delas – na montagem, sinto falta de proposições que conectem mais diretamente essas imagens da seca de 32 com o desastre social do Brasil atual. Minha sugestão vai pela via das imagens, pois como é dito pelo “pai da criança” no trem a caminho de Fortaleza, “nós – miseráveis de 1932 ou de 2008, adendo meu – tem tudo a mesma cara“.

4 cenas de chorar

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. Kelva Cristina says:

    Olá, Fabrício. Bem, antes de ontem tive notícia da tua página. Aí quando entrei, qual foi minha surpresa ao ler teu comentário. É isso mesmo, Fabrício. Tu tás conectado com o que sentimos quando começamos os estudos sobre o texto. Eu sou professora do CAD (Curso de Arte Dramática da UFC) e assisti ao Joca Andrade (diretor), principalmente na parte vocal junto aos atores. Fiquei impressionada quando parei pra pensar que o Ceará, vergonhosamente, foi pioneiro (se não houver outra história por baixo de algum tapete por aí) nestes espaços desumanos, que conhecemos como campos de concentração. Se te interessa, sugiro a leitura do livro do Lira Neto, O PODER E A PESTE (está esgotado, mas ele permite cópias, graças!).
    Sobre as imagens em conexão com nossos grandes currais, é verdade, te entendo. No princípio o Joca desejava incluir estas imagens. Esta idéia foi descartada porque em teatro se discute a estética, a teoria, a essência…e acabamos nos enviesando por outro caminho. Mas entendemos o que tu falaste.
    Sou grata por te ler.
    Um abraço forte.

  2. Fabrício says:

    Oi Kelva

    Muito legal saber que as palavras dialogaram (sei que é meio estranha essa frase, mas como não é regra, é ótimo ver que serviram). Arrisco continuar criticando, como maneira de explicitar que se achássemos arestas, tb seria proveitoso.
    Você comentou da essência, listando junto com estética e teoria. Pergunto pra você, como “perguntei” pra crítica em Guaramiranga, em que medida é válido pensar numa essência, num mundo TÃO obra aberta como o nosso. Não faço o julgamento. É uma dúvida minha tb. O que ainda é essência hoje em dia? (eu sugeri perfumes).
    Anyway, valeu pelo retorno, espero que continuem mantendo a peça viva e que rodem por aí.
    Grande abraço


E você, o que acha?

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