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Críticas

Delicadeza

por Leca Perrechil

15 Comentários 10 September 2007

Beverly Hills 90210 

Fotos: Lenise Pinheiro/ Blog Cacilda.

Quando um playboy metido, folgado, que vive da grana do papai, te dá uma surra e humilha na frente dos outros, o que você faz?

a) pede ajuda pros amigos pra seqüestrar o dito-cujo;
b) droga a irmãzinha dele;
c) bota ele pelado e amarra numa mesa;
d) queima o cu do cara com cigarro;
e) obriga-o a chupar a irmã;
f) Todas as respostas anteriores.

Quem assinalou a alternativa “f” acertou. É isso o que acontece na peça Delicadeza, em cartaz no Espaço Satyros II, na Praça Roosevelt. O espetáculo retrata a vida de quatro jovens viciados em cocaína que fazem de tudo para sustentar o vício e não medem as conseqüências de seus atos. Um deles vive em um apartamento sustentado pelos pais, que não sabem que o rapaz largou a faculdade, e continuam enviando dinheiro para ele terminar os estudos. Apaixonada pelo garoto, a patricinha vivida por Luciana Caruso, vende suas botas, roupas e bolsas para comprar drogas para os dois, depois de ter sua mesada cortada. O terceiro jovem, apesar de também ser da alta sociedade, sofre todo tipo de preconceito por ser gay. Completam o grupo o único pobre da turma, que mora de favor no apartamento do primeiro.

A narrativa muda seu rumo quando o pobretão do grupo apanha de um fortão (como ele mesmo define), e planeja uma vingança com a ajuda dos, teoricamente, amigos. Assim, a turma seqüestra o tal cara forte e a irmã dele, e se vinga (na verdade, o grupo também rouba o dinheiro dos dois pra comprar drogas), como se estivesse fazendo algum tipo de justiça.

Para mostrar para a platéia como o playboy fortão era mesmo um filho-da-puta-que-merecia-sofrer-muito, ele protagoniza um discurso clichê, ao dizer que pode fazer qualquer coisa que não seria punido. Provavelmente essa é a mesma mentalidade dos rapazes que queimaram o índio ou daqueles outros que espancaram uma empregada doméstica, e alegaram ter confundido a moça com uma prostituta. Porém, essa característica dita explicitamente da boca do personagem, dá menos força à mensagem do que se fosse usado algum outro recurso cênico mais visual e não tão didático.

A grande ironia do texto vem da figura desses justiceiros-drogados. Eles se vingam do rapaz e de tudo de ruim que este representa, mas negligenciam o fato de serem como ele: filhinhos de papai, metidos e preconceituosos. Todos eles (tirando o que mora de favor) também fazem parte dessa crítica aos jovens da alta sociedade – sempre os donos da razão, sem compromissos e responsabilidades – que acham que podem fazer qualquer coisa, até punir brutalmente um “colega”, sem serem atingidos. Essa crítica ganha força no discurso da patricinha, que chora na frente do pobretão, porque o pai não dá mais dinheiro, e ela enfrenta uma difícil situação sem poder mais comprar roupas de marca e nem seus sapatos que tanto gosta.

Se a desculpa para tanta brutalidade é “ele me atacou antes”, “eu não bati, eu só olhei”, ou “achei que o índio fosse um mendigo”, imagina quantos cigarros acesos teríamos que usar pra corrigir isso se fossemos nos vingar também?

milhares de grãozinhos brancos espalhados pelo chão

O que a galera acha

15 comentários até o momento

  1. Maria Clara says:

    talvez eu assista essa peça no final de semana. depois comento. beijo.

  2. Maria Clara says:

    ah! eu amava ´barrados no baile´! você também?

  3. Leca Perrechil says:

    Ah, eu cheguei a assistir bastante a série em um período, mas gostava dos primeiros episódios. Depois descambou, né! bjos.

  4. Emilliano says:

    Mas e aí?..
    Resenha com cara de sinopse…

  5. Vanessa Medeiros says:

    Apontar uma ironia do texto e fazer um paralelo com fatos recentes é ultrapassar a linha da sinopse e entrar no campo da resenha crítica. Se você, emilliano, esperava um “muito bom” ou “a pior droga que eu vi na vida”, recomendo as estrelinhas de classificação dos guias culturais. Um ótimo instrumento para quem não quer perder tempo refletindo sobre as questões propostas pelo espetáculo. Se não gostou da crítica, aponte as falhas, mas não vale classificar aleatoriamente.

  6. Fabrício Muriana says:

    ô Loco, meu!

  7. Emilliano says:

    Ok, Ok, Vanessa Medeiros!
    Não espero um “muito bom” ou “a pior droga que eu vi na vida”, já que como vc escreveu, isso eu leio em outros locais, e não na Bacante!
    Fazer uma resenha crítica (como vc escreveu) é expor claramente e com “certos” detalhes o conteúdo da obra (iguais as resenhas que eu tinha que fazer no colegial depois de ler os livros de Machado de Assis e José de Alencar). Se eu fisesse uma “resenha crítica” superficial, escrevendo que eu achava que minha visinha tinha feito o mesmo com o marido dela igual em Dom Casmurro, a minha professora chamava isso de sinopse, que só servia pra tirar dúvidas momentâneas. Quase um textinho dos programas de teatro (inclusive com as emoções expontâneas dos produtores culturais)!
    Portanto, em se tratando de teatro, abro a Bacante toda terça pra ler uma resenha que não fale apenas do texto ultra-super legal e que faça paralelos com fatos recentes (já bastam as histórias ultra-políticas do Juca de Oliveira), mas também dos outros elementos existentes no que costumamos chamar de teatro. Tudo bem que tem algumas peças teatrais o texto é a melhor coisa que a gente podia ter visto na vida! Mas e os atores? E a direção? E a luz? E os Ohhhhhhh da platéia? E o cenário? E a forma como é jogada esse texto?
    Será que só a historinha é responsável por propor questões???????
    E como assim não vale classificar aleatoriamente? Isso é o melhor em uma revista como essa: CLASSIFICAR ALEATORIAMENTE! (se bem q minha classificação não foi aleatória, só foi minimalista).
    Por uma semana da CLASSIFICAÇÃO ALEATÓRIA na Bacante! (senão, só vão valer opiniões maximalistas!)

    Ah, alguém sabe em qual canal tá reprisando “barrados no baile”? Uh!

  8. Fabrício Muriana says:

    Wehoo!

  9. Juli =) says:

    Eu nao sei nada de TV, Emiliano, mas se me pressionassem, eu chutaria SBT, apesar do Seu Silvio ter vendido e apesar de estar decretado que agora só entram séries mexicanas…

    Bjo.

  10. Leca Perrechil says:

    Olá, Emilliano
    Não vou ter tempo de responder muita coisa, mas vamos lá. Não creio que o texto está com cara de sinopse, já que não me limito simplesmente a contar a história, mas também analiso suas sutilizas (ou delicadezas) e critico alguns pontos. Em dado momento me refiro a um discurso clichê, porém não meto o pau nele porque, apesar de ser clichê, é um retrato explicito do que está acontecendo na sociedade, ai dei exemplos desse paralelo. Mas digo que poderia ser melhor resolvido cenicamente. Como mensagem passa, mas como teatro não muito (não creio que precise escrever assim na resenha, com todas as letras). Com isso também, estou um pouco criticando a direção, que não buscou outra solução. Digo isso em:
    “Porém, essa característica dita explicitamente da boca do personagem, dá menos força à mensagem do que se fosse usado algum outro recurso cênico mais visual e não tão didático.” Mas não acho que preciso escrever “Olha, a direção foi falha nesse ponto”. Deixei subentendido. Realmente busquei focar na história, que era o ponto mais válido da peça. Ela traz essas delicadezas (ai, ai, o trocadilho) que, sem elas, poderia ser uma peça qualquer do Juca de oliveira. Mas por causa do texto não é. Sim, vc tem razão. Eu dei muita ênfase a história porque achei que merecia. Sobre não falar dos atores, é até interessante você citar isso, porque o conselho editorial da Bacante discutiu esse aspecto. Na primeira versão do meu texto, eu elogiava o ator Sérgio Guizé, mto bom, e dizia “Alguns dos atores apresentam irregularidades, mas nada que compromete o resultado da peça”. Porém, um dos integrantes da Bacante observou que citar nomes é uma forma de desnivelar a montagem, já que o ideal é que haja uma nivelação na qualidade dos atores. Como estava meio assim tb de só citar ele, e tinha outras pessoas boas, e para não ficar citando um por um, resolvi tirar a parte que falo do elenco. Também acho que não agregaria muita coisa falar do elenco nesse caso. O cenário e a luz não eram nada fora do comum para serem descritos ou citados, ai sim viraria uma tarefa escolar. Em uma peça, existem muitos elementos a serem analisados, mas você não precisa necessariamente citar todos em todos os textos que for escrever. Dessa vez, achei que a história e sua mensagem eram o que mais valia, ai me aprofundei nisso. Citar o resto só por citar também é banal. Se vc for ver, e achar o cenário (um apartamento estilo dos playbas da malhação) espetacular, ai vale escrever. Mas apenas reforçaria o que já tinha escrito sobre a mensagem da história. Preciso ir agora.

    Abraços.
    Obs: quando parei de assistir “Barrados no Baile”, passava em um canal que nem existe mais e que virou o AXN na TV paga. Depois ficou anos no canal Sony. Se fosse apostar, diria Sony. Mas nem sei. Na tv aberta não deve mais ter.
    Obs2: Fiquei admirada com sua professora, que considera sinopse fazer um paralelo entre sua visinha(sic) e Dom Casmurro. Considerando, como vc disse, que sinopse é pra tirar dúvidas momentâneas. Realmente, a relação da visinha(sic) com o marido é uma dúvida momentânea, né!

  11. Valmir says:

    Leca,
    Adorei a chamada, adorei, adorei!!! Mais uma música!!!!! ÊÊÊÊÊÊ!!! E vc vai virar a “mana da Bacante” porque vc é a que escreve mais palavrões nas resenhas. Tô ficando com inveja. Vou escrever palavrão na próxima!
    Bjão!

  12. Leca Perrechil says:

    É, Valmir. No final do ano lançaremos uma coletânea com as músicas de chamada… rs.

    Não tinha pensado nessa estatística. Depois farei um gráfico pra ver se confere… heheh. Ah, mas convenhamos, eu escrevo textos de peças como “120 dias…”, “Santidade”, “Delicadeza”, “Garota Glamur”… rs.

    Bjos.

  13. Emilliano says:

    Aeh Leca!
    Por isso volto toda terça a ler a Bacante: pessoas educadas, afim de discutir, sem radicalismo barato, e que não grilam com as classificações aleatórias!
    Falei q era sinopse pq vc só tinha discutido a história em si (apesar de analisado a história, como os sinopses que temos que mandar pra imprensa).
    Desculpe se não entendi as mensagens subtentidas , mas ficou muito mais claro agora q vc explicou. Devo ter um pouko de dificuldade de entender coisas subtendidas (lembrei da música do Lulu Santos “deixo assim fikar subtentido, como uma idéia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”.
    Citar só por citar realmente vira tarefa escolar, e sempre citá-los na resenha vai fiká mó chatice, mas agora que vc disse sobre a luz e o cenário que eram fracos, os atores que estão meio desnivelado, fikou claro pq falar tanto da mensagem da peça (que foi o que mais te encantou!).
    Valew pela resposta!

    Bju garota!

    Obs. 1: Descobri que Barrados no Baile tá passando na Sony de segunda à sexta, 7:00h com reprise às 17:00h. Assisti hj tomando café da manhã e a Brenda continua linda!
    Obs.2: Graças a minha professora de literatura, que obrigava a gente a fazer resenhas e não sinopses 80% da turma nunca mais leu um livro na vida! Os outros 20% tornaram-se cri-crizentos!
    Obs.3: Campanha por uma semana da CLASSIFICAÇÃO ALEATÓRIA na Bacante!

  14. antônio neto says:

    Vi Delicadeza, não concordo com algumas coisas ditas acima (atores, cenário, etc.)acho o espetáculo ducaralho, muito bom, com uma direção fudidaça e os atores afinadíssimos, mas não posso achar que minha opinião (visão) seja a ideal (correta), acho que isso vale pra tudo, mas lendo os comentários e a “resenha/sinopse”, fico pensando… pensando… porra, não adianta uma pessoa contestar algo que ela não viu ainda, seria mais interessante que nosso amigos acima tivessem um argumento com uma base maior pra não falar blá blá blá. Vejo muitas possibilidades de entendimento no espetáculo, e uma delas é uma puta crítica social a esse pensamento escroto que uma parte da nossa juventude burguesa, classe média ou periférica, seja lá o que for, alimenta a cada dia, potencializando mais ainda o momento negro e complicado que vivemos. Só não basta olhar, tem que encarar de frente o buraco cruel e desumano que a peça retrata. Uma frase do texto: ” a justiça tarda e se espalha, cada um faz a sua… talvez eu queira fazer a minha” será? Onde estamos metidos?! Recomendo, vale muito assistir DELICADEZA e depois trocar uma idéia aqui.
    Ah, lembrando do tal clichê que nossa amiga fala, eu imagino que o autor fez em palavras aquilo que eles pensam e fazem em ações na vida, já que naquele momento detonar um shopping com um taco de golfe ou quebrar a cara de alguém da platéia não seria possível, né não, é teatro, apontar coisas pode ser uma boa, e é na peça, né não?Abraços,

    Antônio Neto

  15. Leca Perrechil says:

    Olá, meninos
    Respondendo com muito atraso (Sorry!).

    Emilliano, vi que vc tá pegando o ritmo da coisa. Até colocar um trecho de musiquinha colocou, hehehe.

    Antônio, então, achei o Sérgio e a Luciana Caruso bons, principalmente o Sérgio. Porém, acho que o resto do elenco não acompanha os dois, o que causa esse desnivelamento que falei acima.

    Sobre a cena clichê, acho que dava pra ter sido resolvida cenicamente de outra forma, ao invés de um discurso estático – que cumpre o protocolo de passar a mensagem, mas não muito teatral (opinião pessoal).

    E o ponto alto do espetáculo é isso mesmo, essa crítica.

    Bjos,
    Leca


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