Críticas

Desmonte – A Grande Obra

por Juliene Codognotto

2 Comentários 25 November 2008

“Até o momento, essa é a cidade que temos”

Quando o Kassab contou sobre o projeto Nova Luz durante o último debate das últimas eleições à prefeitura de São Paulo, ele disse algo como: “é um projeto maravilhoso, blablablabla blabla blabla blablabla blablabla bla bla blablabla blablabla blablabla bla blabla, eu convido a população, pode ir lá ver como o local melhorou”. Minha mãe, que (felizmente) não vota em São Paulo, acreditou: “Se ele está dizendo que pode ir ver, é porque deve ser bom mesmo”.

Poder, pode, mas ninguém vai ver, né? Quando vai, vai uma equipe do Fantástico e mostra que a cracolândia apenas mudou de rua e não tem mundo cor-de-rosa por lá. Todo mundo se choca. E todo mundo esquece. E todo mundo vota no Kassab. Mas, ok, a discussão das eleições pára por aqui, já que devo admitir que as alternativas eram realmente desoladoras.

Vamos voltar ao “ir lá ver”. Eu tenho medo da cracolândia, porque na única vez que passei por lá, tentaram me assaltar. Só por isso. Um conceito bem raso mesmo. Mas eu tenho mais medo ainda da tal da Nova Luz. Um projeto que vomita números (225 hectares de área, 23 quarteirões só na primeira fase, 1500 imóveis, 162 vistorias e 37 lacrações em hotéis, 179 vistorias e 21 lacrações em bares, 23 empresas interessadas em investir na área sem pagar quase nada de imposto, investimento de 752,52 milhões de reais sem pagar quase nada de imposto – números copiados daqui ó) pra justificar dar uma empurradinha nas pessoas pobres, tipo assim, só uns passinhos mais pro lado em direção à periferia, de preferência inseridos nos serviços “sociais” da prefeitura. Aqueles que contam com pseudo-assistentes-sociais em vãs especializadas em tirar as pessoas de lugares que elas conhecem e onde viveram por muito tempo (em geral, pontos “turísticos”) para levar a um lindo abrigo na periferia, de onde elas serão expulsas na manhã do dia seguinte. Ai, desculpa, é verdade. Esqueci de dizer que pra quem tem o imóvel desapropriado ou é expulso dos prédios tipo Treme-Treme, o governo nunca abandona a louvável prática de construir CDHUs, né? Outra coisa que vale a pena conhecer. Você já pegou algum ônibus que leva até um desses conjuntos habitacionais? (Minha mãe, não) Você já foi pro interior? Então, é no meio do caminho, mais ou menos.

Conforme me contou uma amiga arquiteta, o que se tem verificado com relação ao desenvolvimento das cidades é que elas se expandem loucamente para a periferia numa lógica que, em alguns lugares é de ocupação mesmo, mas que, em São Paulo é de exclusão e exploração. Interessada em construir condomínios com muito verde e muros bem altos, a elite arranja seu cantinho na perifa, mano. Só que, num dado momento, tchanram!, a expansão não tem mais pra onde ir. Bem, isso em Nova Iorque, no Rio, enfim, cidades com mais limites, porque em Sampa a expansão tem pela frente muito terreno vazio em beirada de rodovias que conduzem ao interior. Tudo plano e sem mar. O que se espera é que, então, a expansão encontre outros limites. O que se prevê, atualmente, é que o limite será o trânsito. Tchanram! Será que sempre planejamos essa coisa de tráfego meio mal? Será que enfiar trabalhadores na periferia e fazê-los andar de ônibus por quatro horas diárias não era uma boa idéia? Opa.

Partindo dessa perspectiva, empresários espertinhos – que são também os protagonistas daquilo que se chama de especulação imobiliária (algo tão abstrato quanto às especulações da Bolsa e, ao mesmo tempo, tão concreto quanto o faturamento das construtoras) – já estão olhando pro centro de volta, do tipo “eu voltei, voltei para ficar… porque em Alfavile de carro eu não consigo mais chegar”.

Aí, vou ao Teatro Coletivo Fábrica ver a peça Desmonte – A Grande Obra. Com uso interminável e, pode-se dizer, corajoso dos recursos mais clichês – tem programa de auditório, piada com religião neopentecostal, história de amor, vidente, etc – eles conseguem uma façanha no final da peça. Não vou contar como aconteceu, mas pela primeira vez eu vi algum sentido em existir um teatro cuja porta dá na Consolação (lugar ruim de chegar, barulhento, descontextualizado, cheio de trânsito e em frente a um cemitério). O grupo propõe no espetáculo uma situação absurda em que pessoas são realojadas por conta de uma grande obra de revitalização – ou algo que o valha – que será realizada na cidade. Aos poucos, todos os pobres (eles não dizem isso, mas dizem), são removidos para habitações em buracos que, na mídia, são divulgados como lugares muito aprazíveis. No entanto, um belo dia, o governo inventa uma terrível contaminação que o obriga a tampar os buracos com cimento. Soterrados, os atores se iluminam com palitos de fósforos (um bom jeito de morrer mais rápido no buraco, porque acaba mais rápido o pouco ar lá de dentro) e me perguntam, entre outras coisas: “em que momento permitimos que isso acontecesse?”. E eu me pergunto – quem foi que escreveu isso?

420 mil imóveis identificados como vagos em São Paulo no Censo 2000 (boa parte deles no centro) = o dobro do déficit populacional da cidade. (Leia mais, se quiser)

Leia também a crítica de Maurício Alcântara para esta peça.

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. Josivalda says:

    Eu num acho nd…
    pq quem acha deve devolver no correio…
    rsrsrs
    huahuahuahauhauhaua

  2. Juli =) says:

    Depende. Se for no metrô, tem um Achados e Perdidos próprio. É mais eficiente que levar ao Correio.

    Agradeço o comentário oportuno, Jo.

    Abraço,
    Jui =)


E você, o que acha?

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