O outro lado da cratera
Não é por coincidência que nos últimos anos surgiram tantos espetáculos tratando sobre a ocupação oportunista do solo urbano, especulação imobiliária e a recaracterização das cidades de acordo com interesses privados que não representam necessariamente (pra não dizer nunca) os interesses públicos: Hygiene, do XIX, revela que as políticas higienistas estão longe de serem recentes. A Rua é um Rio, do Tablado de Arruar, apresenta um esboço de definição entre quem são as pessoas que se beneficiam e quem são aqueles que perdem num processo de ocupação urbana, mas o argumento mostra-se frágil ao apostar numa dicotomia maniqueísta. Para demonstrar que este problema não é uma característica apenas de São Paulo, vale lembrar do espetáculo Testigo de las Ruínas, do grupo colombiano Mapa Teatro, que apresentava por meio de um mezzo-documentário, mezzo-espetáculo, a demolição de um bairro miserável e violento de Bogotá (com a conseqüente expulsão de seus moradores que foram ironicamente encaminhados a um antigo matadero, e a construção de um imenso parque sem árvores no local); além de lembrar dos espetáculos Avenida Dropsie e Pessoas Invisíveis, da Sutil Companhia e do Armazém, respectivamente – inspirados nas graphic novels do Will Eisner e que, apesar de não ser este o foco, também refletiam, bem de levinho, a explosão da especulação imobiliária em Nova York, décadas atrás.
É neste contexto superpopuloso que também se apresenta Desmonte – A Grande Obra, criação coletiva da companhia Domínio Público, inspirada pelas transformações sofridas pelo Largo da Batata, em Pinheiros, e pelas obras e transtornos oriundos da expansão do metrô naquela região (acidente causando uma gigantesca cratera também conta como “transtorno”?). A linguagem do espetáculo usa e abusa (não, essa crítica não é patrocinada por nenhuma loja) de intervenções em vídeo e de um registro cômico (exagerado, até) que, ao fazer rir, revela as contradições de uma sociedade esquizofrênica que não consegue mais discernir os limites entre espaços, direitos e desejos individuais e o que pertence ou é de interesse do coletivo. Mais que isso, cada vez mostra-se que a percepção de que o público é aquele espaço que pertence a todos perde força para a concepção de que é o que não pertence a ninguém – argumento básico para que a iniciativa privada enriqueça aos tubos às custas das pessoas que simplesmente abrem mão de qualquer forma de convívio com o espaço urbano público.
Ao optar por nunca mostrar indivíduos responsáveis pelas tomadas de decisões (por exemplo, o senhor Mataratos, presidente da Desmonte Corporation – empresa criada para simbolizar o poder privado que enriquece com a especulação – nunca tem seu rosto revelado) ou por mostrar pontos de vista muito diversos (desde o da velhinha que quer ter sua reforma bancada pelos responsáveis pela obra próxima à sua casa até o do mendigo, cuja simples existência já representa uma agressão aos transeuntes, por exemplo), a peça consegue ir além do panfletarismo e do unilateralismo. Por outro lado, ao optar por revelar múltiplas nuances sobre o processo das transformações urbanas, é pouco o aprofundamento em cada questão.
Há ainda, em cena, um excesso de literalidade sobre tudo o que se apresenta – todos os elementos e signos presentes no palco e no material de divulgação (cones de sinalização, capacetes, placas de trânsito, ferramentas de obras etc.) remetem ao universo da construção civil e das obras urbanas. Tudo dialoga com o conceito da trama, mas este excesso de informação temática, além de poluir as cenas, reduz as possibilidades de interpretação de um contexto que vai muito além da construção civil e do buraco do metrô. Mais do que a ganância corporativa, a bananice do estado e as transformações que interferem diretamente na vida das pessoas, o espetáculo também fala sobre um sombrio conceito urbano em que o coletivo é submetido a padrões urbanísticos pautados não mais pela convivência (ou co-vivência), mas pela individualidade ditada por uma sociedade que sistematicamente ignora o sentido de se viver em… sociedade.
250 metros quadrados privativos com lazer completo, com vista pro buraco
Leia também a crítica de Juliene Codognotto para este espetáculo.


Prezado Maurício,
Gostaria de parabenizá-lo pela crítica à peça “Desmonte – A Grande Obra” da Cia de Domínio Público. Sou integrante do grupo e co-criadora da peça e achei os seus cometários bastante pertinentes e embasados. Certamente, leremos a sua crítica, em grupo, e refletiremos sobre a sua avaliação sobre vários aspectos da montagem.
Sem dúvida, um texto como o seu colabora muito para o nosso processo.
Um abraço
Alessandra Velho
Oi Alessandra,
Legal seu comentário… mas eu prefiro que a crítica sirva como uma tentativa de diálogo/leitura do que como uma “avaliação” (sabe como é, tenho traumas do período escolar). Recomendo também a crítica da Juli, que levanta várias questões também bastante pertinentes…
Abraços,
Maurício