Críticas

Determinadas Pessoas – Weigel

por Marco Albuquerque

Nenhum Comentário 20 May 2008

Por trás de todo grande homem…

Determinadas Pessoas – Weigel, que esteve em cartaz no teatro do Sesc Santana, é um espetáculo fruto da pesquisa empreendida por Esther Goés e Ariel Borghi sobre a figura de Helene Weigel, atriz alemã que foi mulher de Bertolt Brecht e uma das fundadoras do Berliner Ensemble.

O monólogo interpretado por Esther Góes (com pequenas participações do ator Paulo Del Castro, que entra em cena para mover uma cadeira ou para fazer uma saudação nazista) é marcado pelo uso intensivo de projeções de vídeos que mostram momentos da intimidade de Weigel, trechos de montagens das quais ela participou, além de importantes acontecimentos históricos, como cenas da Alemanha destruída após a Segunda Guerra Mundial. O objetivo é aproximar ainda mais a montagem teatral do universo de Weigel e conseqüentemente de Brecht.

Os recursos cênicos de Determinadas Pessoas – Weigel também se confundem com a obra do dramaturgo alemão. O início é caracterizado por um palco nu, onde estão apenas Esther Góes, uma mala de viagem e uma cadeira (Cuidado! São elementos cênicos diferentes: palco nu + Esther Góes + mala de viagem + cadeira, não confundir com “Esther Góes, a mala, nua sobre uma cadeira”). Esta estrutura dialoga com um momento politizado em que os espetáculos de Brecht eram encenados nas ruas, praticamente sem cenários, com a disposição de levar seu teatro a qualquer lugar e com a prontidão pra fugir a qualquer momento da polícia. Por outro lado, o período do pós-guerra, quando Brecht e Weigel retornam à Alemanha após um exílio de 6 anos nos Estados Unidos, é retratado por um cenário mais estruturado, com mesas, cadeiras, tapetes, entre outros objetos, refletindo as melhores condições que o Berliner Ensemble encontrou neste período.

O mesmo paralelo entre a teoria de Brecht e Determinadas Pessoas – Weigel é visto nos momentos em que Weigel discorre sobre o distanciamento de Brecht: estes trechos são seguidos por diálogos (ao invés dos monólogos presentes na maior parte do espetáculo) sem que o interlocutor de Weigel possa ser visto pela platéia, o que resulta numa falsidade cênica que faz com que a platéia não acredite no que vê, e seja forçada a prestar maior atenção ao que é dito.

O espetáculo também retrata o lado pessoal da relação entre Brecht e Weigel. Ela, que ficou grávida enquanto ele era casado e pai de (outra) família, teve seu troco ao longo dos anos, quando assistiu a diversos relacionamentos amorosos de Brecht com outras mulheres. A disposição de Weigel em lidar com estes conflitos familiares, enquanto concilia suas funções de mãe, atriz e pensadora é um dos pontos fortes da montagem.

Existem momentos curiosos, quando Weigel relata que, quando jovem, nunca havia pensado em ser atriz, por se considerar feia, fora do padrão de moças de olhos “semi-cerrados”, com “semi-expressão” que predominavam naquele período (qualquer semelhança com os nossos dias de modelinhos e big brothers poderá ter sido mera coincidência…). Entretanto, Weigel logo se rendeu ao seu desejo de se tornar atriz ao considerar que alguém teria que interpretar as personagens feias (mesmo que os leitores da Revista Vip se recusem a assistir as peças com as feias… Desculpe leitor da Bacante, mas não foi possível resistir à tentação de mencionar mais uma vez a reportagem da Vip…).

Situação curiosa também ocorre quando Brecht escreve o papel da personagem muda de Mãe Coragem e seus Filhos com o intuito de que Weigel o representasse em Nova York, pois como ela possuía um inglês sofrível e não tinha a sensualidade que os americanos exigiam para o papel principal, esta foi a forma encontrada por Brecht pra fazer com que Weigel pudesse participar do elenco. A situação foi invertida quando a peça retornou à Alemanha, e Weigel assumiu o papel-título da peça, representando Mãe Coragem e seus Filhos em centenas de apresentações e se consagrando como uma das grandes atrizes do século.

O final da vida de Weigel, após a morte de Brecht em 1956, também possui destaque na peça. São deste período questões importantes como o controle que o Partido tentou ter sobre a criação artística do Berliner Ensemble e a luta de Weigel para se manter à frente do grupo, apesar das diversas tentativas de tê-la apenas como figura decorativa sem papel importante na definição dos rumos do Berliner Ensemble. Destaque também é dado para os truques usados por Weigel para que a obra de Brecht pudesse ser publicada sem censura.

Determinadas Pessoas – Weigel constitui-se, sobretudo, em um precioso documento histórico, que compartilha com o público o trabalho de pesquisa feito por Esther Goés e Ariel Borghi, e que retira Weigel da posição menor que ela ocupa na história de Brecht (e conseqüentemente do próprio teatro alemão), dando-lhe os devidos créditos por seu trabalho. Esta pesquisa não é compartilhada somente no palco: o programa do espetáculo, por exemplo, traz glossário, biografias de todos aqueles que foram parte importante nas vidas de Brecht e Weigel e uma detalhada cronologia da vida dos dois. Ao final, o programa traz até uma extensa relação bibliográfica.

1 aula de história do teatro sobre 1 mulher independente

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