Críticas

Deus Danado

por Fabrício Muriana

6 Comentários 24 June 2008

A vida privada de um crítico teatral

Foto: Divulgação

Esse texto que segue abaixo é o arquivo de uma conversa por Gtalk. O nome da pessoa com quem travei essa conversa será preservado, como forma de assegurar sua integridade física. A autoria das frases do diálogo se confundem por opção minha, pra complicar um pouco mais a sua vida, caro leitor.

deus-danado-1b.JPG

oi blabla
tudo bem?
oi blabla… tudo bem sim
etou terminando de escrever um trabalho
encontrei o blabla ontem
então… só pra te falar… avise teu amigo que a montagem de Cachorro Morto ficou muitolegal
vc foi na estréia?
na constanza macras?
sim
fui
vou dizer sim…. eu só vou poder na semana que vem
constanza macras?
tem alguns detalhes, nada relacionado à atuação, que ainda dá pra
melhorar… mas o trabalho como um todo tá muito legal
que blabla vc encontrou?
o da bacante?
no Acqua Toffana?
ou na constanza
sim… agora entendi
encontrei com ele no SESC, mas eu fui ver Deus Danado
já viu?
ai!

vc viu ontem?
que achou?
vi ontem
foi a primeira vez que pensei em suicídio
durante uma peça
ahahahaha
não como reflexão ou sensibilidade artística… mas como forma de escapar
eu olhava praquela porta do sesc paulista
e não via formas de fugira
e as luzes acendiam e apagavam
e não acabava
e os dois atores me lembravam o bicho estranho do senhor dos anéis
que vc achou?
Achei longa. Principalmente no começo tinha dificuldades de entender o
que a atriz falava, do meio pro fim eu passei a acompanhar os
episódios pelo programa….. Mas fora tudo isso, gostei bastante
tinha uma vida nos atores que passou bem longe do CPT que eu fui ver
semana passada
ah tá
e também que eu fiquei pirando no texto ser uma versão brasileira do Godot
mas são duas coisas bem estranhas as que vc compara
hehe
então
depois que acabou
o diretor falou uma coisa que apontou um pouco pra isso
de ser chato por opção…
mas não conseguia me aproximar de nenhum dos dois personagens… pq
não havia modulação alguma
são dois elencos né… vc assistiu com uma atriz negra?
não
eu assisti com o outro elenco
ele disse que eram dois… mas não tive coragem de rever
talvez isso. eu até cogitei voltar hoje para ver o outro elenco
o diretor ontem não falou nada não
mas sobre serem duas coisas bem diferentes… as duas são teatro…
ok… teatros diferentes, mas pra mim o Deus Danado faz mais jus ao
palco… exceto alguns momentos iluminados como o coro das putas
nos afogados
ah tá… c tá falando de senhora dos afogados
sim
quero ver o foi carmem, mas não sei se vai dar tempo
eu entendo sua comparação e entendo que existe mais verdade numa
proposta que na outra… mas acho que ambas são textocêntricas de uma
maneira que não consegue mais me tocar
enfim… e acho que qualquer proposta que queira se aproximar de um
esperando godot não pode ser encenado no sesc paulista, sob risco de
se esvaziar totalmente como mais um produto cult
precisava se fazer uma versão do Godot na rua
o godot veio antes das vanguardas tomarem outros espaços cênicos
já fizeram
há um tempo…
continuam montando em teatro italiano com a árvore atrás
sim
eu não fazia teatro ainda
teve uma montagem numa trincheira
fizeram no viaduto Santa Efigênia
teve vários… mas c entende? c colocou essa peça em relação com
godot… e pra mim, pra se efetivar como godot… tem que ter mais
apropriação
mais estranhamento do que essa peça causa
por isso que pra mim tem algumas coisas que me indicam essa sensação
de que nada acontece
presente no godot
mas, que não chega nas últimas conseqüências
enfim
pra mim não rolou
e espero que tenha sido por causa do elenco
pra mim a aproximação com o godot vem menos por nada acontecer e mais
pela dependência.
Manter-se um prisioneiro, não matá-lo, para não ficar sozinho…
saquei… é… juro que não cheguei a essa relação, e acho que
desacreditei de qqer coisa por conta do trabalho de atuação
E a brutalidade do sertão, embora óbvia, acho que foi radicalizada
pelos atores de ontem, foi pro corpo de forma até meio exagerada em
alguns momentos, mas na grande parte foi comprada com culhão, saca?
porque o maior risco que encontrei e que me faz pensar bastante
trabalhando com guimarães rosa, foi cair na pieguice e na compaixão
“ficar um sertanejo meia-bomba”
saquei
tb acho isso péssimo
meia bomba
mas ainda acho que não acertaram a mão
nem tanto pra peça do cacá carvalho
que tinha essa “poética meiga”
qual?
nem tanto pra exacerbação que vi ante-ontem
aquela das cortinas
era o homem alguma coisa
adaptação do grande sertão
eu vou ver com o outro elenco… homem provisório… eu não vi
isso
essae
blabla
vamos beber dia desses
muito a conversar
to saindo ahora
tentei ver um espetáculo da quito hj
mas não rolou
um infantil
enfim
vamos, se eu não tivesse que terminar o Ziembinski eu falava pra você vir pra cá
ah
mas tá firmeza
depois vc me fala do ziembinski
blz… blabla, só mais uma coisa,
e me explica como ele influenciou o antunes
e me explica tb como o antunes virou esse monolito
é o antunes devia se aposentar antes de fazer mais besteiras
pra mim ele virou uma heresia
mas ok… vá lá. outro dia e gente sai beber

+ 1 teste de liberdade de expressão

O que a galera acha

6 comentários até o momento

  1. Talita says:

    Vi essa peça em Curitiba. É um pouco longa demais, mas a presença dos atores é marcante. Assisti com a atriz negra. Ela fala tão rápido que chega uma hora em que você desiste de entender tudo o que ela diz rsrs Mas assim mesmo dá pra captar todas as suas intenções pela força de suas expressões e partituras corporais. Gostei da peça.

  2. Marcelo Flecha says:

    Segue abaixo um trecho do manifesto que foi lançado na época da estréia de deus danado, acho que tem tudo a ver com o que se discute acima…
    “…Cru. A encenação deve conter a crueza do ser. O não cozido. O natural, sem precisar ser naturalista. O rude, porém espontâneo. O ser, só. Uma estética sem temperos ou preparos excessivos que cozinhem o ator deixando-o pronto para a degustação. Encenação indigerível, não degustável, indigesta para aqueles que perderam o contato com o inigualável sabor do cru. Arte vendida em lata tem data de validade. Vence. Apodrece. A encenação pronta para o consumo padece.”

    Acho que a arte tem por obrigação polarizar, o consenso na arte é nefasto… se eu gosto? Eu sou suspeito pra falar… afinal…. sou o diretor… rs

  3. Fabrício says:

    Oi Marcelo
    Acho que é a primeira vez que me vejo numa discussão estética que realmente me interessa, que toca nos pontos mais relevantes da crítica de uma obra de arte. Acho que o manifesto que você coloca no seu comentário é ao mesmo tempo o oposto de uma trivial conversa por msn e extremamente contraditório, tendo em vista que você aborda a idéia de um contato com o cru. Diz que “Arte vendida em lata tem data de validade. Vence”. Bem, nesse caso o que é apresentado condiz com o manifesto. Mas o local da apresentação não.
    Se você não quer enlatar o seu trabalho, deveria ter procurado outro lugar, não o Sesc Avenida Paulista. Ali é o lugar das montagens que se enlatam num pé direito de menos de 3 metros, numa linha de montagem que mensalmente traz preças em apresentações quase industriais, frutos do desenvolvimento de diversas outras indústrias no Brasil (inclusive em Mossoró) e no mundo.
    E sim, polarizou. Mas tendo a achar que polarização é a dupla face de uma coisa só. Então temos que procurar o múltiplo, pra que um objeto artístico se efetive.
    Claro que isso é uma opção parcial, já que eu assino a crítica acima publicada.
    Sigamos com a conversa. Valeu pelo comentário e apareça.

  4. Bom, acabei de assistir a peça no SESC e trago aqui minha humilde opinião sobre o espetáculo.
    É com pesar que digo: Nunca havia visto uma peça tão cansativa. Acho que o que ela tem de incomum com o “Senhor dos Anéis” não é apenas o Gollum, e sim a exaustão! Mas ao contrário do filme, essa peça não rende “oscars”. Pelo contrário! Apesar do tema abordado ser de meu total interesse (o sofrimento dos nordestinos), não consegui me prender em nenhum momento ao assistir. O texto é totalmente retilíneo, sem altos e baixos, movido apenas por uma intenção de atores exagerados e meio desnorteados. Depois temos uma bela desculpa do tipo; “Eu queria assim, cru. A intenção era causar exaustão na platéia!”. Avalio um espetáculo pela capacidade de texto e ator de transportar o público atravez das emoções. Isso não me foi transmitido, infelizmente.
    Mas olha, estou recomendando essa peça pra muita gente que conheço… Principalmente pras pessoas que não gosto!
    Enfim, boa sorte!

  5. Niege Felix says:

    Oi, quería saber se vcs tem as fotos de quando se apresentaram em Macau – Rn , Porto de Ama, eu assisti adorei a peça!!! Quería ver as fotos!!!!

    Se não for nenhum encômodo mandem pro meu e-mail: loenipunk@yahoo.com.br

    bjo bjo

    A peça foi no começo assustadora, confesso, mas fascinante!!!

  6. Caro Fabrício:
    Estou respondendo um pouco atrasado, mas é para mim um prazer. Em primeiro lugar, quanto ao espaço, acho que você parte de um pressuposto conhecimento da cidade de São Paulo e não leva em conta que a possibilidade de mostrar o nosso trabalho aqui, não passou de um mero aborto do destino. Em toda a minha trajetória jamais trabalhei com a possibilidade de que isso viesse a acontecer, partindo do principio de que nossa síndrome nordestina de vira-lata distancia qualquer expectativa a esse respeito. Quando surge o convite, confesso que não sabia nem quantos SESC ou espaços existiam em SP, quanto mais seus conceitos, tendo em vista que a dura realidade do nosso fazer local nos faz brigar para conseguir espaço, seja lá qual for, na tentativa de manter nossa prática. (Não justificando, porque haveria a opção de não vir.)
    Quanto à linguagem estética, que é o que realmente interessa, acho que o olhar está padronizado (ritmo, tempo, luz em resistência, interpretações televisivas, condimentos mil) e qualquer possibilidade que procure romper com essa pasteurização (não tenho essa pretensão, mas sim esse desejo) sofrerá duras conseqüências, o que faz da arte um doloroso exercício. Não há novidades no nosso trabalho, apenas acredito que qualquer concessão feita na busca de aceitação perturbaria meu sono. Não sei me comunicar eletronicamente, mas gostaria de poder lhe estender o conteúdo completo do manifesto para me fazer compreender melhor – compreender o discurso e não a obra, claro! (não faço idéia de como se pode enviar, na verdade, não sei nem se eu posso escrever tanto assim aqui neste sítio).
    Não compreendi direito o conceito do múltiplo e da dupla face da polarização, o que me impede desenvolver um raciocínio a respeito, partindo do princípio de que duas faces de uma coisa só ainda são faces opostas, e a multiplicidade é inerente a qualquer obra de arte seja ela polarizadora ou consensual.
    Sim, a possibilidade de estabelecer este diálogo a partir do objeto em questão é o que mais me gratifica, mesmo que, dialeticamente falando, jamais cheguemos a uma síntese (o que torna a arte extremamente fascinante), lógico que, um café e uma mesa facilitariam as coisas para mim, mas, passados dois anos, acho que o café esfriou. rs


E você, o que acha?

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