Críticas

Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada

por Fabrício Muriana

Nenhum Comentário 18 June 2007

Se Deus sabia de tudo, por que não me avisou?

Pergunto pra atendente (muito simpática), descubro a referência: “do lado do terminal Vila Nova Cachoeirinha”, Zona Norte de São Paulo. Não é qualquer ônibus que saia de qualquer lugar que chega até lá. Uma horinha rodando. Lá cheguei. Centro Cultural da Juventude. Na fila, definitivamente não havia o público que costumo ver nas salas centrais. Uma molecada fazia humor antes de entrar na sala. Estávamos preparados pro espetáculo.

Lá dentro, vejam só, um grupo de atores (ouvi de alguns que eram da Record, mas sinceramente não os conheço) ocupa as primeiras cadeiras do anfiteatro. Não houve quem reclamasse, mas essas coisas me emputecem. O espetáculo já atrasara mais de vinte minutos e ainda havia escolhidos para ver mais de perto. Pequena mácula para o que viria na seqüência.

Lá não tem inclinação nas cadeiras. Sentou um blackpower na sua frente, chora nêgo, que vai ter que assistir de novo. Dei sorte, fiquei perto do corredor. No palco, uma cama, acima uma lâmpada, mais atrás uma cortina vermelha. O número de refletores no teto é 22 vezes menor do que aqueles que iluminam qualquer espetáculo do Sesc. Nem por isso o espetáculo foi menos inventivo na iluminação.

Começa Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada, peça com seis esquetes cômicas (quando não te fazem chorar) relacionadas com o universo homossexual. Uma delas se repete em todos os intervalos, sempre de uma forma diferente, é uma aula pra quem acha que só existe uma forma de atuar. Todas com lirismo e feitas por alguém que parece derramar gotas de sangue em cada frase.

Não há concessões. Não ao menos como pregam administradores de alguns centros culturais mais centrais, na escolha de textos para oficinas. Newton Moreno não parte da premissa de que o texto se adapta ao público. Pelo contrário, ele parece querer chocar ainda mais, com imagens claramente eróticas, críticas diretas à estrutura da igreja e cenas que vão do mais trágico ao mais cômico.

Conta com o trabalho da Cia. Fofos em Cena para traduzir, de formas extremamente simples, tudo aquilo que pode castigar fazendo rir. Pena termos descoberto tão tarde. Se você quiser assistir, tem só mais uma semana. Não se preocupe com os ingressos, é de graça. Só não vá com aquela roupa que você vai ao Cultura Artística, nem o perfume. Vai pegar mal. Esqueça os preconceitos em casa e aproveite o final do mês mais gay do ano em São Paulo.

4 famosos furaram a fila. Tsc, tsc, tsc… que feio.

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).