Pequenos quadros de uma relação longa e incompleta
Fotos: Isaumir Nascimento
Quadro 1
Parte externa do Espaço dos Satyros Dois. Ao fundo, os escombros da Praça Roosevelt, cuja demolição está malemá iniciada, oferecendo um cenário de guerra perfeito. Pelo vidro do bar que fica na entrada do espaço – o olhar atravessando as duas estantes de livros do Bac – vêem-se partes dos corpos de um casal esquisito. De braços dados, dividem um guarda-chuva. Com o corpo bastante curvado, aparentam cerca de trezentos e setenta anos cada um. Vestem chapéus – o dele, de palha, o dela, com uma flor na lapela – e trazem nos lábios uma eterna menção frustrada de dizer algo.
(A partir do próximo quadro, estamos na parte interna do Espaço dos Satyros Dois)
Quadro 2
Vista do palco para a platéia. De tempos, em tempos, os cerca de 30 espectadores soltam risos de incômodo diante das radicalizações a que assistem no palco. Ninguém sorri com alegria. Ninguém dorme nos longos silêncios. Expectativa é o que melhor define as expressões destas pessoas, olhos fixos nos atores.
Quadro 3
Vista da platéia para o palco. Uma mesa coberta com uma estranha toalha amarela com restos de qualquer coisa aqui e ali. Em frente a ela, dois atores com maquiagem e comportamento que remetem ao clownesco estão sentados sobre suas malas em “posição de discussão profunda”, anunciada por eles segundos antes.
Soltam frases curtas com gestos precisos que as representam.
_ Preciso fazer uma confissão – com uma das mãos levantadas – Você está preparado?
Soltam, depois, textos intermináveis sobre qualquer coisa sem importância. Incomodam-se um com o outro constantemente. Interrompem-se. Voltam, enfim, ao silêncio.
Silêncio.
Quadro 4
Vista do palco para a platéia. Na platéia, olhares de expectativa. Ninguém dorme.
Quadro 5
Vista da platéia para o palco. Os dois atores decidem caminhar um pouco. Correm em círculos, cada um para um lado, encontrando-se a cada volta. Em círculos, para não se distanciarem daquele lugar. Porque não querem se distanciar daquele lugar. Porque não podem se distanciar daquele lugar. Porque não sabem se querem nem se podem se distanciar daquele lugar. Pensam na hipótese de andar lado a lado, mas permanecem nos seus ciclos individuais. Cansam. Param de caminhar um pouco.
Quadro 6
Vista do palco para a platéia. (A cada volta, Ela, a mulher do casal, salta as malas dela e de seu esposo e solta gemidos engraçados que demonstram sua dificuldade) A platéia, aliviada por poder enfim soltar toda a angústia de quem assiste a uma relação que não sai do lugar a 350 anos, ri a cada pulo. Em seguida, corta o riso, envergonhada de rir do cansaço de uma pobre velhinha de aproximadamente 375 anos.
Quadro 7
Vista da platéia para o palco. Um mutilado ao fundo da cena aparece somente da cintura para cima. Anuncia, com uma música péssima, que “fez” e precisa que alguém o limpe. Ela, que costuma limpá-lo, parece dormir. Ele tem nojo de fazer o serviço.
Quadro 8
Vista do palco para a platéia. Uma moça faz cara de nojo quando Ele diz “tá fedendo”.
Quadro 9
Vista da platéia para o palco. Num dado momento, ela acorda e briga com ambos por não terem chorado sobre seu caixão. Então, utilizando um despretensioso recurso para radicalizar as repetições e experimentar o distanciamento, Ela repete incessantemente uma fala, como se tivesse enroscado. A palavra “Nada” é dirigida, alternadamente, a um e outro personagens, com tonalidade e expressão idênticas não menos que 50 vezes. O ator que representa o mutilado se cansa, se levanta normalmente com uma garrafa d’água e se aproxima do outro ator, ambos de volta aos seus corpos de “gente normal”. Eles a observam por um tempo, impacientes.
Quadro 10
Vista do palco para a platéia. Uma pessoa cruza a perna para o outro lado.
Quadro 11
Vista da platéia para o palco. O espaço se transforma numa baladinha, com trilha e iluminação próprias, enquanto Ela limpa o mutilado com uma toalha de rosto.
Quadro 12
Vista do palco para a platéia. Uma moça olha para o lado, constrangida.
Quadro 13
Vista da platéia para o palco. Os dois resolvem que chegou a hora de se separarem, afinal foi o que vieram fazer. Durante o tempo todo da peça, perguntaram-se se era mesmo aquele o lugar. Mas, neste momento, não importa realmente. Ela abre o guarda-chuva. Os dois afirmam, em uma das poucas passagens piegas, que sentirão saudades.
Silêncio.
Tudo incompleto, inexplicado. Tudo angústia e expectativa. As relações humanas completamente relativizadas pela indefinição do espaço e do tempo. Tão incompletos e silenciosos quanto estavam ao chegarem ao Espaço dos Satyros Dois, o casal termina a apresentação sem nos dar respostas. Eu nem queria.
Quadro 14
Parte interna do Espaço dos Satyros Dois. Vista do palco para a platéia. Uma pessoa pensa se desligou o celular. Tocar no meio de um silêncio como esse seria muito vergonhoso.
4 minutos de silêncio. Antes e depois de cada fala.





Oi Juli, sem querer rasgar as havaianas, muito bacana o seu texto sobre a peça. Pegou os pontos centrais e falou o que tinha a ser dito. E curti muito o “estilo” do texto. Essa coisa de colocar em quadros, dois ângulos… Valeu pela força. Puxei o texto para meu blog, ok? Com link pra cá e o que manda o serafino. beijão
I. Sobre a Revista Bacante – do blog Boteco do Ribeiro (linkado no comentário do César):
Adjetivo 1:
Sarcástica.
Adjetivo 2:
Detonadora.
II. Sobre a Juli, da Bacante, que escreve a crítica:
Substantivo 1:
Figura.
Objeto de comparação:
Valmir Santos.
Idéia geral abstrata:
Uma pessoa insistente que telefona aos sábados de manhã.
III. Sobre a sensação de “sofrer” uma crítica:
Situação 1:
O Ulisses Alemão Sakurai dá um uivo kabuki que significa mais ou menos “Putz, esses caras detonam todas as peças”.
Situação 2:
Rezam três Aveia Quaker, sete Why So Serious? e treze Ossétia nas Alturas para que o nervosismo não faça a peça sair do eixo.
IV. Comentário da Juli:
Ufa… que bom que vcs curtiram… rs Quem sabe a partir deste primeiro milagre na relação crítica-artistas a gente possa conversar, né?
E, daqui pra frente, quem vai rezar três Aveia Quaker antes de publicar textos serei eu, pra ver se ela abre o coração dos artistas! rs
E livrai-nos do medo e da resistência, Amém!
Beijocas. E até o buteco! (PS: nunca te disseram que buteco é com u?)
Algumas observações sobre as observações observadas:
a) os adjetivos são bacanas. são elogios. sarcasmo é fundamental em tudo. já o detonar só depende da mecânica da bomba. algumas são interessantes, outras ficam no “eu gostei daquilo mas achei que a groselha podia ser mais vermelha”. aí não tem significado nenhum.
b) visão do ângulo inverso: um cara que tem celular e não atende tem celular para quê, afinal? fora isso, não há comparação nenhuma, só o fato de ninguém da tar da mídia aparecer lá e, de repente, dois no mesmo dia.
c) óbvio que se trata de um exagero no vatapá. felizmente a póva da peça entende que não há diferença alguma entre o altista, o criticuzinho, a herdeira que tem a casa mais cara do mundo e o gari que recolhe a ferrari zero-bala do lixo da casa mais cara do mundo. tudo aqui se trata de opinião. cada um com sua farinha tentando achar o ponto certo da mistura. não há diferença alguma entre uma crítica detonadora ou babadora se o que está escrito define bem o que foi visto. assim como não há diferença alguma entre a peça mais bizarra de todos os tempos e o mais genial espetáculo multidisciplinar dos últimos dois segundos se o que está feito era o que deveria ser feito. no fundo, tudo se trata de gosto e da justificativa encontrada para explicar o gosto e o desgosto.
d) opa, boteco é com o. tá no tar do aurélio. diminutivo de botequim.
Não tô falando de dicionário, tô falando do que é assim porque é assim, tipo: muleque, buteco, butiquim… sacou? Fala boteco em voz alta e vê se vc ouve a letra o! rsssssss Legal vc ter procurado, em todo caso.
Enfim, voltando à seriedade do mundo do teatro (hahaha), seria do caralho apresentar pro autista e pro gari, não? É comum eles aparecerem? Menos comum que a tar da mídia, não? Pois. Alguns gostos e desgostos são mais legitimados que outros… E às vezes a gente tem que enfiar o gosto no meio das pernas e admitir que algo de que eu pessoalmente não gosto é foda por alguma razão.
“…se o que está feito era o que deveria ser feito” – não entendi. Deveria?
E, por fim, depende de onde está a groselha…
Senta que lá vem história…
Vou tentar explicar o “que deveria ser feito”. Tudo se trata de opinião, de viver em sociedade e acharmos que somos importantes a ponto de querer transmitir (não convencer) o que pensamos. É um ato egocêntrico em si, no bom e no mau sentido. O jornalista, o filósofo, o cientista e o ser dito humano de modo geral têm a tendência de achar que as próprias opiniões ressignificam o mundo e deveriam ter alguma importância. Claro que acredito que a peça diz alguma coisa importante e deveria ser vista por mais gente, mas o resumo da ópera é que essa importância é válida para algumas pessoas e para outras não passa de abobrinha. Normal. O que vejo é uma padronização diante de tantos conchavos, de tantas leis de incentivo, de tanto marketing cultural, e infelizmente se você quer viver de teatro é preciso fazer algumas concessões, tanto estéticas quanto éticas, para se enquadrar no tar du mercadu. Não vivo de teatro, não quero viver de teatro se isso significa mudar o que quero fazer em teatro. Os atores do grupo, com uma exceção, não vivem de teatro. Não sou menestrel para dar aulas, não acredito que minhas opiniões (a não ser as que estão nas peças que faço) mereçam ser ouvidas. Sim, tenho o que dizer, mas e daí, todo mundo tem o que dizer. É triste ver as pessoas se enquadrando em um padrão para poderem ser aceitas, o que também ocorre na arte. É claro que eu não viver de teatro me dá liberdade para fazer o que quiser, afinal não dependo de uma platéia cheia, de destaques na mídia e de enquadrar politicamente o projeto para as leis ou prepará-lo comercialmente para o departamento de marketing das empresas. Assim, não há preocupação em buscar inovações ou fazer algo para chocar. Nem elaborar minuciosas pesquisas de mercado para saber que tipo de espetáculo deve ser feito. Não estamos vendendo maisena. A peça é uma peça, nada mais do que isso (que genial, não?). Ela vem de uma vontade de dizer algo, sem pensar se alguém vai gostar ou achar uma merda, sem preocupação se aquilo vai atrair milhares de pessoas ou apenas o pai, a mãe e o periquito do ator. Pessoas gostam, outras acham sofrível. Normal. Alguns dizem “esses caras não estão fazendo nada de novo”, “já vi isso”… Sim, não estamos fazendo nada de novo. Há Beckett, há Antunes (o guarda-chuva), há Gerald Thomas (a quebra da água)… e daí? As referências estão lá, sim, da forma que queríamos que elas estivessem. Talvez exista uma respiração infinitesimal nunca vista antes na galáxia, mas isso importa? De qualquer jeito, o que está lá é exatamente o que queríamos fazer, sem mudar uma vírgula. Se as pessoas vão gostar ou não, certamente isso não é problema nosso.
(até que para alguém que acha as opiniões desimportantes há muitas opiniões aqui, não? Faz parte: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa)
Em síntese, “o que deveria ser feito” é exatamente o que vc tem vontade de fazer sem mudar uma vírgula?
Falando sério, claro que é uma questão de opinião, das referências de quem está assistindo, do que a pessoa comeu no café da manhã, etc. Mas a sua “vontade de dizer algo” (da qual vem a sua peça), não é também a vontade de dizer algo *a alguém*? A quem? Por quê? Acho engraçado que você usa chocar num sentido negativo, como uma obrigação, mas uma peça que choca talvez cumpra também uma espécie de “o que tem que ser feito”, enfim.
“É triste ver as pessoas se enquadrando num padrão para serem aceitas”, mas é bem legal ver as pessoas saindo do enquadramento sem se importar se serão aceitos (no sentido de legitimados), mas porque querem dizer algo e porque consideram esse algo relevante, não porque são elas quem estão dizendo, mas porque mais alguém vai ouvi-lo.
Quanto a “viver do teatro” ou não, eu usaria “pago minhas contas”. Você vive de muita coisa além daquilo que te dá grana. Claro, é só uma questão de palavras, a idéia é a mesma…
Acho que compliquei algo que é simples. Quem vai a uma padaria às 7 da manhã normalmente não quer assistir lá um show do Tony Ramos cantando os maiores sucessos do Metallica. É exatamente por isso que a coisa é egóica: se eu digo algo a alguém porque eu quero dizer algo a alguém, o que as pessoas vão ouvir tem de ter a minha voz, sem eu pensar na hora de criar se a galera quer ouvir isso ou não. Ou tão levando marzipan quando queriam ver hortelã. Essa tal de voz vai sempre encontrar alguém disposta a ouvi-la, sem fazer concessões para ter mais ouvidos. Então não se trata de pensar em agradar ou em chocar. As duas coisas têm de ser apenas resultado, e não parte de uma fórmula. Isso em qualquer área que lide com discussão sobre coisas. A Bacante é uma revista de teatro. Fala sobre teatro de um jeito específico. É essa especificidade que interessa, independentemente de ser interessante para uns e vazia para outros. Você escreve um crítica. Digamos que você pense em agradar ao diretor. Ou em desagradá-lo. Depois pensa em agradar ou desagradar ao elenco. Depois ao iluminador… Depois a quem mais? E quem diz que tua fórmula bate certo no alvo? Então não há saída: seu público é você mesmo. Se alguém gostar, melhor.
Quadro 8: a moça da platéia era você!
Talvez fosse, Valmir. Talvez ninguém tenha feito cara de nojo. Ishi… será que eu inventei? rs
Beijos.