Sobre gelatinas vermelhas, mesas com buracos e lagartixas
A gelatina vermelha não é o tema central da montagem de Diários da Sede, que estreou no dia 3 de maio no palco do Next, o campeão em fedor de fumaça de cigarro. Odores à parte, é muito difícil definir a peça, que é permeada de significados e fica dançando entre o vazio e o infinito quando o assunto é transmitir e despertar sensações.
Começamos conhecendo dois estranhos narradores, cujas falas são líricas, dinâmicas e bem sincronizadas, mas cujo sentido para a obra não ficou muito claro. Talvez, neste caso, eu esteja sendo o que chamamos de “público-problema”, mas o que pareceu foi que os dois personagens estavam suspensos, sem posição definida e sem conexão com os outros, que eram tão tão (como dizer?) palpáveis, creio.
No entanto, os apresentadores, ela oriental, ele negro, passam por assuntos como a criação do homem, seus medos, seus sonhos e seus fracassos de maneira objetiva e divertida e nos preparam para conhecer estereótipos da sociedade.
São seis personagens (o casal esquisito, o casal chique, a executiva gostosona e a empregada estranha) e a maneira como eles se apresentam é bastante criativa e instigante. Entendemos as verdades daquelas pessoas por meio, inicialmente, de encontros entre elas e, posteriormente, de monólogos muito engraçados e bem construídos. Um deles se resume a uma palavra: “eu”, que retrata brilhantemente todo um universo.
Tudo é, nas primeiras cenas, preto e branco. Somente a união destes personagens todos em um jantar traz um pouco de vermelho ao palco. E com o vermelho, vem para o centro a mesa com furo no meio, proposta inteligente e bem explorada, como que para tentar prender e cercar uma verdade que não vem ou não satisfaz.
A base do espetáculo é a história de uma criança que, vítima de abusos sexuais, mata a professora a facadas. As discussões sobre o fato vão ganhando corpo e fazendo parte da vida dos personagens, de forma que suas opiniões e reações nos ajudam a entender quem são eles realmente e em que ponto são todos iguais. E, sim, são bastante iguais apesar de tantas diferenças aparentes. São iguais, sobretudo, na mania de opinar sobre aquilo que não conhecem. Aliás, não somos assim também?
A brincadeira inicial com a gelatina vermelha fica por conta de, no final, ao invés de pizza, tudo acabar em gelatina. Além disso, a comida molenga ganha um belo destaque graças à iluminação, cujas soluções estão entre os pontos altos da montagem. Cabe valorizar, por exemplo, o microfone que é também holofote e, assim, traz, ao mesmo tempo, voz e luz aos personagens, que se estapeiam para estar no foco.
Diários da Sede é uma montagem sem muita pretensão e com muita disposição para correr riscos. Isso, por si só, já lhe rende pontos positivos, pois o risco pode trazer “barrigas” e acidentes de percurso, mas traz também soluções criativas e inovadoras.
A abordagem leve de temas atuais (como opinião e mídia) e o questionamento consistente de temas atemporais (como sonhos, medo, fracasso e amor familiar) saltam do texto veloz de Elzemann Neves e fazem o público sair do teatro rindo por fora e pensando por dentro (com o perdão do pleonasmo).
3 bonecos do Bocão cantando “Abre a boca, é Royal”



esteriótipos(sic)?
A crítica é boa mas a peça merecia uma sem erros de ortografia.
Afinal, quem não gosta de opinar sobre aquilo que não conhece?
Tem razão sobre o erro, Acauã! Valeu pela dica!
A peça mereceria, na minha opinião, várias críticas. Tenho certeza de que há muito mais sentidos nela do que os que eu apreendi e coloquei aqui. Tomara que outras pessoas também compartilhem o que viram. Inclusive, se vc tiver visto, mande opiniões pra gente!
Beijo,
Juli =)