Era uma vez nós dois
Fotos: Rafael Pucca

Inicia-se o ano. As temporadas teatrais começam. Espetáculos estréiam ou retomam seus lugares junto ao público fortalezense. O “Theatro de Portas Abertas” – slogan do Theatro José de Alencar, oferece uma programação bastante diversificada graças ao trabalho da atual diretora Izabel Gurgel. O teatro está ocupado não apenas por atores, técnicos e alunos, mas pelo público. Coincidência ou não, as portas do velho Zé, neste mês, abrem-se para a diversidade com textos inspirados em Caio Fernando Abreu. Em cartaz três peças, três solos, três amores, três homens, três atores, três trabalhos autorais. Temos a veterana e conhecida dos palcos nordestinos Uma Flor de Dama, solo de Silvero Pereira, em cartaz desde 2005, que aqui se apresenta em sua versão cabaré. O espaço cênico transforma-se em um bar, com transformistas, travestis e um atendente punk. De brinde, o público ganha uma caipirinha. Já Murilo Ramos, em sua segunda temporada, aprisiona-se em Da Paixão sobre Borboletas. E por último, a debutante Dias de Setembro, de Lucas Sancho, com estréia prevista em fevereiro no Teatro Guaralhufa – Praça Roosevelt. Concentro-me neste espetáculo.
Cortina aberta. Público entra e sobe ao palco. Já em cena, a personagem recebe todos em sua sala. Cortina fecha. Todos são convidados a uma breve degustação de vinho e chocolate. Em troca desta cortesia do anfitrião, temos que escutar o seu sofrido e doloroso desabafo. Na sala, a decoração é composta com muito bom gosto e requinte por três abajours, seis castiçais, treze velas e um baú. Sentados, participamos da aflição desta pessoa: a perda de um amor. Ao som da banda cearense Encarne, o dia passa para esta personagem. As velas uma a uma vão sendo apagadas juntamente com os abajours e a peça chega ao seu desfecho.
O espetáculo tem seu início quando Henrique compartilha conosco uma poesia de Vinícius de Moraes. Depois disso, ele relata a trajetória do seu namoro – encontros, desencontros, mentiras e traições – que completaria hoje, um ano de existência. Sempre hoje. Nunca ontem, nem amanhã. Hoje. No momento presente. Na hora atual. No instante real. O que confere um caráter naturalista ao espetáculo. Tudo necessário à cena encontra-se neste espaço. Inclusive nós, o público, com quem o intérprete mantém uma comunicação direta por meio de opiniões e conselhos. Logo percebemos que esta relação – ator/espectador – será uma constante neste trabalho. Constrangimentos? Nenhum! O ator está diante de uma platéia generosa e o jogo torna-se divertido, para quem assiste e para quem faz. Ele conduz com maestria este processo. Sabe o momento exato de interferir tal comunicação e voltar ao seu mundo.
Sancho tem um bom desempenho corporal. Entra em cena dilatado é possível sentir a energia que os seus poros emanam. Talvez, isto seja a chave para abrir as portas no diálogo com a platéia, que por sinal está muito próxima dele; o que não justifica o “falar” muito alto para uma pessoa vinda de um berço tão luxuoso, não conferindo o ar natural que o espetáculo propunha em sua estética inicial. Isso ocasiona um tom artificial à representação, sobretudo nas inflexões, dando um aspecto linear ao espetáculo, que embora limpo e muito belo de ser observado, precisa amadurecer. Há o cumprimento de marcas, entonações, olhares etc, mas falta o impulso vital movimentando tudo isso. Embora seja um tema comum: o fim de um relacionamento e a perda de um namorado – maturidade é essencial na busca da verdade cênica, da verdade no trabalho do ator, deste impulso que gera a vida. É um assunto comum a todos, ou a grande maioria da humanidade, e por isso mesmo, muito difícil de ser realizado com a devida carga e naturalidade exigida.
O espetáculo tem um tom pesado, melancólico. Não tem clímax. O conflito já é exposto no início e a sensação é de que não vai acabar nunca. Mas de repente, acaba. De repente. Do mesmo jeito que começou. De repente. Termina. Pronto, acabou! Proposta ou não da encenação, esse desfecho faz que a história continue, continue, continue… Ficamos querendo saber o que vai acontecer com Henrique depois do apagar da última vela e da leitura da última frase escrita na última carta que ele enviou ao namorado: “Você ainda me ama, Eduardo? Eu te amo! Muito. E só…Henrique.”…

1 barra de chocolate pra quem tiver mais sorte na platéia porque seretonina é bom pra dor de cotovelo.


boa indicaçâo. eu vi e gostei!
gente alguem pode me diser oq eh uma garalhufa ???? URGENTEE