Críticas

Doce Deleite

por Marco Albuquerque

1 Comentário 20 October 2008

Trash 80 ou Os Bons Tempos que Não Voltam Mais

Foto: Divulgação

Nas últimas semanas os palcos paulistanos foram invadidos por um revival de espetáculos que fizeram sucesso nos anos 80, como O Mistério de Irma Vap, Brincando em Cima Daquilo e Doce Deleite. Este revival foi convertido em polêmica quando a Folha de São Paulo identificou a remontagem destes textos como um reflexo de uma suposta crise na dramaturgia brasileira. Essa afirmação gerou réplica de alguns criticados e de alguns dramaturgos de renome na cena atual e ainda uma tréplica de Alcione Araújo, autora de Doce Deleite.

Após ler a argumentação dos dois lados, decidi formar minha própria opinião e assim fui ao Teatro Fecomércio pra assistir Doce Deleite, espetáculo dirigido por Marília Pêra e estrelado pelos globais Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado.

Percebo que, apesar dos precinhos nada camaradas (R$ 80 às quintas, sextas e domingos e R$ 90 aos sábados), o teatro estava completamente lotado. Concluo que não devo estar sozinho na minha busca por respostas e corro os olhos pela platéia na tentativa de identificar partidários do Bortolotto, do Roveri ou do Newton Moreno. À primeira vista eu não encontro, mas tenho certeza de que eles devem estar muito bem disfarçados entre aqueles senhores grisalhos acompanhados das mulheres que passaram a tarde no cabeleireiro se arrumando pra ir ao teatro.

Ciente de que a polêmica sobre a dramaturgia pode inflar os ânimos dos presentes, desconfio que alguém pode subir ao palco a qualquer momento e ler algum tipo de manifesto. Corro os olhos novamente pela sala na tentativa de encontrar o Pedro Cardoso, mas ele também deve estar muito bem escondido. Minha busca é abruptamente interrompida pelo início do espetáculo.

O cenário é composto por dois camarins (um de Gianecchini e outro de Camila) e são usados para que, em cena, à vista de todos, os atores possam se caracterizar como cada uma das diversas personagens da peça, criando assim uma grande intimidade com o público. Entre as cenas, enquanto se preparam, os dois atores conversam e muito com o público que, mesmo sem ter a chance de responder, se sente íntimo das celebridades e sente que o preço do ingresso valeu cada centavo. Tem lá o seu gostinho de sabadão com as estrelas.

Camila e Gianecchini se multiplicam no palco (hum… sem conotações eróticas… a intimidade com os espectadores não chegou a tanto…) e a platéia ri sem reservas enquanto as personagens vão se sucedendo: a bilheteira Godelívia, o contra-regra, a diva do teatro, o gerente barrigudo, o não-ator que quer um papel na peça a qualquer custo, o médico “penissicalista”, a mulher que dá dicas sobre como chupar um sorvete, o casal de velhinhos e assim por diante. Ainda rola um hilário concurso de interpretação, um número de balé, um número operístico e assim por diante.

Apesar do texto ser datado da década de 80, grande parte do humor é atualizada. São exemplos os momentos em que Gianecchini finge que conta os ingressos da noite e reclama do excesso de convites cortesias e de meias entradas. Outro momento é quando a metalinguagem passa a reger as piadas e sobram comentários divertidos sobre Birigui (a cidade natal de Gianecchini), o fato de Camila Morgado sempre fazer papéis densos e intensos (sobram piadas sobre Olga) e até sobre o relacionamento de Gianecchini com Marília Gabriela.

Ao final do espetáculo ainda é exibido um vídeo com cenas dos ensaios. É impagável ver Marília Pêra (a diretora da peça) passando a coreografia dos números musicais com os dois atores.

Fica claro que a remontagem de uma peça que tem como principal função entreter o público e movimentar as bilheterias do teatro nacional nunca pode ser apontada como reflexo de uma suposta crise na dramaturgia. Esta é mais uma daquelas peças que não quer mudar o mundo. Entretanto, é um espetáculo bem feito, bem dirigido, bem interpretado, que faz o público se divertir muito e que movimenta freneticamente as bilheterias do teatro (a despeito das também salgadinhas meias-entradas e dos convidados que não pagam, como brincou Gianecchini). Desta forma, Doce Deleite cumpre seus objetivos. E, nos dias de hoje, com mais de uma centena de opções teatrais em cartaz em São Paulo, existe espaço para tudo e para todos. Existe espaço para a experimentação, para a dramaturgia contestadora, para as montagens de vanguarda e, por que não, para o teatro de entretenimento e para o teatro que move financeiramente a indústria teatral.

Se você quer rir, ver as estrelas da Globo e topa pagar R$ 90 por isso, vá ver Doce Deleite. Acredite, você vai se divertir muito! Se, por outro lado, você quer ser impactado por uma dramaturgia contemporânea que te questione e que te faça pensar, vá ver outra peça, existem muitas assim por aí.

198 peças em cartaz nesta semana em São Paulo de acordo com o guia Boca a Boca.

P.S. Na saída do teatro, duas senhorinhas conversavam animadamente sobre o espetáculo. Uma delas dizia que achou extremamente interessante e inovador que a dramaturgia da peça continha pedaços de diálogo e pedaços de monólogo. E depois dizem que as pessoas vão ao teatro somente pra ver o Gianecchini…

O que a galera acha

1 comentário

  1. Délia Nilmann Brure says:

    Estamos em maio de 2009,e ontem fui assitir no Teatro Sete Abril (Pelotas/RS) a peça Doce deleite,achei muito divertida, gostei da versátilidade da atriz Camila Morgado, já que não conhecia esse lado humorístico da atriz e também da bela atuação do galã Reynaldo Gianecchini, percébesse nitidamente que ele se esmera para libertar -se desse rótulo de deus Grego,fazendo uma interpretação exemplar, despindo-se de seus predicados físicos e encorporando seus personagens.
    Sem dúvida, a peça tem o seu valor,mesmo sendo comercial,mas o que me deixou aborrecida,foi perceber a falta de sensibilidade da Assistende ou Diretora de produção,não saberia dizer qual a sua função,esta chegou para o seleto público que aguardava a saída dos atores,para aquela corriqueira tietagem,e disse que eles estavam cansados e não atenderiam as solicitações dos fãs.
    Convenhamos,quantos daqueles fãs não estariam cansados também,e quantos não fizeram o sacrifício de viajarem de outras cidades visinhas para prestigiarem o espetáculo,ou mais ainda,quantos não fizeram um sacríficio monetário para pagarem o salgado ingresso.
    Senhores artistas e profissionais da arte,lembrem-se que prestigiar a arte no Brasil é um luxo,somente 30% dos brasileiros tem esse privilégio,portanto tratem bem o seu público,porque, assim como em qualquer outra profissão, a existência das mesma,depende única e exclusivamente do seu cliente do seu público e fãs. Isso que estou escrevendo pode ser clichê,mas mesmo assim,voces celebidades contínuam pecando, com repetidos acessos de vaidade,
    tratem bem quem os mantém aonde voces conseguiram chegar!


E você, o que acha?

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