Um malucão injustiçado
Dá uma boa olhada pra foto do figura. Trata-se de um caiçara que, no auge da ditadura, ficou escrevendo textos que falam de exploração de um pelo outro, desigualdades e injustiças sociais (teve gente que foi torturada por menos que isso, não? Ele chegou a ir parar no DOPS, mas isso é outra história). Um cara que dizia: “Para incomodar os que estão sossegados, é para isso que faço teatro”. Pois bem. E que impressão se tem dele ao ver as montagens recentes de suas peças? A de que é um chato que fala sempre dos mesmos temas do mesmo jeito – com falas enoooooormes, piadas ultrapassadas e dilemas morais antigos. Calma, defensores do teatro brasileiro! Não estou falando que ele seja isso, estou falando que é o que se faz dele hoje. Sempre tem um grupo pronto a montar Plínio Marcos “cru”, simples, sem frescuras – e todas essas desculpas típicas usadas pra não se apropriar de um texto e trazê-lo pra mais perto do público, do tempo do público e de suas questões mais urgentes. Não seria o caso, por exemplo, de nos perguntar quem está “sossegado” atualmente pra gente incomodar?
Dramaturgos como Plínio, a meu ver, escrevem sobre algo mais que puteiros e mercados de peixe, escrevem sobre o ser humano e, principalmente, sobre suas características mais essenciais. O Décio de Almeida Prado, em sua crítica na época da estréia, aponta pra isso ao dizer que: “Ele tomou uma só situação dramática investigando-a e aprofundando-a até tornar translúcida a relação humana que lhe deu origem”. Não que o Décio seja muito confiável, já que ele escreve na terceira pessoa do plural e sugere (ai, que sono!) que os dois atos fossem transformados num só. Olha: “Cremos inclusive que [a peça] ganharia em consistência e intensidade se os seus dois atos fossem condensados num longo ato único”. De todo modo, voltando à questão da exploração das relações humanas, penso (na primeira pessoa) que cabe a quem vai realizar a montagem, extrair do texto esta ‘humanidade’, e pra isso é preciso lê-lo hoje.
Não vou descrever a montagem que assisti no TUSP neste domingo. Poderia dizer que as atuações são muito competentes, suadas, intensas, bem mais do que a da Maria Padilha, que eu assisti depois, por exemplo (ok, pra isso não precisa muito). Mas sabe quando não basta? Agora é esperar pelos demais espetáculos da Mostra Plínio Marcos que continua até novembro.
Para finalizar esse texto, roubei as declarações abaixo do site oficial do Plínio (grifos meus), só pra você, leitor, ver o tanto que o cara não se levava a sério (no melhor sentido) e, sobretudo, o quanto era mil vezes mais ousado do que os que se propõem a remontá-lo hoje. Homenagem? É o que alegam, muitas vezes. Mas será que o risco, a inovação, a criatividade não seriam homenagens melhores que a repetição?
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“Eu queria namorar uma moça do circo, que conheci quando o cantor do nosso bairro foi cantar no circo. O pai dela só deixava ela namorar gente do circo. Então eu entrei para o circo. Achei que era mais engraçado do que o palhaço e que eu devia ser palhaço.”
“Então, escrevi Dois Perdidos numa Noite Suja para eu mesmo representar. Ator pequeno, sem nome, sem carreira, sem nada, trabalhando de técnico na Televisão Tupi, ninguém convidava pra nada. Ninguém se lembrava que eu era também ator. “Então escrevi uma peça com papel pra mim.” “Uma peça de dois personagens, inspirada num conto do Moravia, O Terror de Roma. Peguei o Ademir Rocha, que também estava desempregado, e chamei o Benjamin Cattan pra dirigir. E, como não tínhamos local, fomos estrear no Ponto de Encontro, um bar na Galeria Metrópole, que o Emílio Fontana conseguiu pra nós. A Nídia Lycia, que é muito minha amiga, foi quem me emprestou os cinqüenta mil-réis pra montar a peça. O Bucka, outro amigão, outro dinheirinho.” “O pessoal da técnica da Tupi ajudou a gente a afanar refletores, os praticáveis, as camas e tudo aquilo de que precisávamos para o cenário. O transporte foi feito pelo pessoal da garagem.” “O Toninho Matos e o Paulinho Ubiratan (depois diretor da Globo) operavam luz e som.”
“Cinco pessoas foram assistir à estréia: a Walderez, o Carlos Murtinho, a mulher do Ademir, um bêbado, que não quis sair porque aquilo lá era um bar, e o Roberto Freire. Aí, o Roberto Freire começou a fazer uma onda em torno, dizendo que a peça era muito boa, e outra vez voltei a ser notícia como autor teatral. O Alberto D´Aversa escreveu cinco artigos sobre a peça. Fiquei na moda. A Cacilda Becker, quando viu a peça, comentou: Incrível! Você conhece dez palavras e dez palavrões, e escreveu uma peça genial. E várias peças minhas piaram na parada: Navalha na Carne, Quando as Máquinas Param, Homens de Papel.”
“Dois Perdidos foi liberada porque naqueles dias a Censura passou da Polícia Estadual para Federal. E mudaram os censores. Mandaram o Coelho Neto assistir ao ensaio. Homem de teatro, diretor de peças. Foi da comissão julgadora do Festival de Santos, quando a Barrela se consagrou.” “Numa tarde de sábado, chuvosa e fria, num estúdio abandonado da Tupi, sem cenário, eu e o Ademir, sentados em bancos velhos, falamos o texto pra ele. Quando acabamos, ele liberou o texto sem cortes.”
77 pingos d’água no balde por minuto de peça



Ju,
vc foi no nervo.
Adorei a citação
do “Quem Sabe, Sábato” -
título para uma futura
pecinha de humor sobre
crítica teatral -
A pior coisa que podem
fazer com um maldito
é citá-lo em solenidade
de formatura e parece
q foi o q fizeram aí, né.
Abração
Pois é, Astier. É como escreveu um amigo meu da Paraíba: “se a pedrada vira estátua, o beco/ é sem saída e é aqui que eu desço”. hahahaha. Obrigada por comentar, querido. Bjo.
Oi, sou apaixonado por teatro, por crítica, adoro Décio de Almeida, crítico já falecido de O Estado de S. Paulo. Fui influenciado pelo teatro de N. Rodrigues, e consequentemente, pelo de Plínio, seu seguidor direto.
Adorei seu texto. Tb estou me iniciando na crítica teatral. Mas eu fico com NAVALHA NA CARNE (1967), pra mim sua obra-prima maior. (E Veludo com seus trejeitos de bicha?) kkkk
Quero muito ser seu amigo.
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Bjs
Júnior
Olá, amigo, bem-vindo!
Se vc está começando na crítica, esteja super convidado para escrever pra Bacante tb. E conhecer mais a revista. Quero muito saber mais da sua opinião sobre o conteúdo geral e outros textos.
Ó, teve uma montagem de Navalha criticada aqui na Bacante: http://www.bacante.com.br/revista/critica/navalha-na-carne. Se puder, dê uma olhada!
E vamos nos falando, menino!
Até logo.
Bjos,
Juli =)