Críticas

Dolores

por Emilliano Freitas

Nenhum Comentário 13 October 2008

Prazer, meu nome é Dolores.

Foto: Ricardo Borges
Meu nome é Emilliano F., mas já quis ser santo, fui, fiquei insatisfeito, saí pela rua, ouvindo funk num radinho, com um cigarro aceso fazendo tipo de libertino.

Meu nome é Emilliano F., e, ainda que namorasse, fiquei virgem por alguns meses, indo a bares imundos sozinho pra tomar uma cerveja com ar de garoto de programa.

Meu nome é Emilliano F., contudo quase parei num seminário, sentindo um fogo por baixo da roupa de coroinha durante as músicas sacras.

Meu nome é Emilliano F., e mesmo assim acordei sem saber de quem era a cama onde tinha dormido, e a vocação pra gigolô deixa uma ressaca com sabor de como seria bom ser santo.

Meu nome não é Dolores, mas de vez em quando tento ser Dolores.

Prazer, meu nome é dia após a estréia, o que dá medo nos outros e gera aquele discurso de que muita coisa ganhará mais forma daqui um tempo.

Meu nome é dia após a estréia, e as atrizes fazem das marcações rígidas, partituras de uma brincadeira. O que elas oferecem é aproveitado. O humor da garota-propaganda de produtos de limpeza é incorporado em cenas bizarras. A força demoníaca salta nos olhos da pequena negra notável, num descompromisso gostoso (diferente da possuída-expressionista antes vista na trilogia rodrigueana farjalanesca). A loucura, sutileza e energia das outras duas atrizes são colocadas em cena (deixando um crítico surpreso e com muita raiva do talento delas ficarem na sombra em outras oportunidades).

Meu nome é dia após a estréia, e o único ator tem menos fogo que as meninas (também, com o poder daquelas pererecas fica difícil), mas guardo qualquer comentário esperando que com o tempo as “marcas” do diretor deixem de ser apenas “marcações cênicas” de um ator e virem brincadeira.

Prazer, meu nome é busco o novo (reforçado no programa do espetáculo), e uso apenas cinco cadeiras como cenário [e num momento déjà vu (nossa, estou montando uma cena que também utiliza esse trem) as cadeiras dançam e acabam tendo várias utilidades, inclusive objetos em que atores sentam]

Meu nome é busco o novo (reforçado no programa do espetáculo), e utilizo marcações de cena precisas (quase uma coreografia), repetições de partituras, marcações e textos [e num reflexo de já vi isso antes, penso “será que um diretor manter determinadas características em suas montagens de sucesso é medo de não arriscar e cometer erros ou é o fortalecimento de uma identidade (inaugurando quiçá uma escola)”.].

Meu nome é busco o novo (reforçado no programa do espetáculo), e utilizo contos ágeis da Ivana Arruda Leite, só que prefiro conectar as histórias tradicionalmente, colocando as personagens num hospício e explicar tudo no final da peça (todas as vezes que vejo um final explicativo me sinto assistindo algo do Falabella).

Prazer, meu nome é felicidade e a cada dia gosto mais de ir ao teatro no cerrado e me surpreender com as peripécias proporcionadas pela classe, mas essa é uma revista séria que preza pelo não uso de juízos de valores sentimentais. Então trocarei de nome e me chamarei eficiente (tudo bem, é um nome vago, mas foi o mais neutro que consegui ter nesse momento).

Um real para escutar 03 músicas da trilha na Jukebox de um lugarzinho que freqüentei.

E você, o que acha?

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