Chanchada, pornochanchada, comédia!
O amor é essa substância intangível que nos enleva, nos torna humanos, nos faz enxergar a dádiva da vida e possibilita a existência dela, enfim. Linda a frase: uma visão romântica do amor. E é o que Don Juan, o personagem-título da peça homônima de Moliére, vê como objetivo de vida. O amor. Enleva a alma deste fidalgo. Sim, ponto para os homens. Torna-o humano. Sim, mais um ponto. Faz a vida ser vista como uma dádiva, sim, portanto, outro ponto. Possibilita a existência da vida? Claro. Super-ponto. Entretanto, este amor dura bem menos do que uma vida inteira. De fato, a duração depende do próximo instante em que ele vai encontrar outra donzela para desposar (um bom eufemismo para “comer”).
Don Juan é esta personagem mutável no quesito amor. Seu amor é digno. É real. Mas é beeeeeem flexível. Não acredita em fidelidade. Não acredita em Deus. Não tem escrúpulos, não sente culpa. Uma pedra, por assim dizer. Do ponto-de-vista romântico, ele não ama , se apaixona. E sua paixão dura menos do que um beijo, uma transa, mais do que o saldo positivo em minha conta (aceito doações). Seu deleite é a arte da conquista – o resto é a ação – essa mesma que você está pensando, safadinho(a)! Segundo seu próprio ponto-de-vista, ele ama de verdade , e é isso que o alimenta.
Todo esse nariz de cera sobre Don Juan, Moliére e o amor se justifica porque assisti Don Juan, no Ágora Teatro, companhia de Celso Frateschi e Roberto Lage. O espetáculo dirigido pelo próprio Lage é uma comédia do dramaturgo francês Moliére, o mais badalado desde incontáveis tempos (contável sim! Do século XVII).
Muito bem alinhavada, a história registra o “mito” de Don Juan, o homem que amava muitas mulheres e conseguia “engambelá-las” para seus propósitos hedonistas. Na peça, como já se poderia prever, o personagem-título vai enrolando quatro mulheres e acaba provocando uma série de situações engraçadas com relação a elas, seus irmãos, seus noivos e outros.
A encenação do Ágora aproveita ao máximo o que Moliére oferece de situações cômicas, como por exemplo na cena na excelente cena em que Charlotte (a expressiva Christiane Galvan) e Maturina (Bete Correia) se ofendem mutuamente e Maturina cospe em Charlotte. Charlotte desvia do cuspe com o artifício de Neo em Matrix. Tudo bem, a piada é velha, mas surpreende pela composição, pois a graça resulta de uma seqüência rápida e engraçada em que ações vão se interpondo.
De maneira geral, o acerto está no fato de reunir elementos clownescos e repetições de situações para fazer a platéia explodir em risadas. É o caso do personagem Pierrot (Hermes Baroli), que encarna um pleonasmo gestual. Ao dizer, “cheguei”, Baroli emprega um gestual de Che Guevara e gay, compondo um quadro muito engraçado (e que você só vai entender assistindo, leitor). Não obstante, as outras atuações do elenco são igualmente bem construídas, como a de Cinthya Chaves com sua Dna. Elvira e Jairo Mattos com seu Don Juan. Este, aliás, consegue a certa altura nos ludibriar com todas as suas volumosas falas acerca de seu propósitos, dando um tom humano e cafajeste em essência, com uma lábia de dar inveja a vendedor de shopping.
Sganarello, o criado de Don Juan, funciona como uma espécie de consciência do patrão. O personagem é muito bem interpretado por Angelo Brandini, no entanto, seu monólogo inicial é muito tedioso. Sem vistas de vermos acabá-lo, prestamos mais atenção em Don Juan e suas mulheres ao fundo do que em Sganarello, o que é uma pena, já que é esta personagem que sinaliza à platéia o que Moliére pensava sobre as atitudes do libertino.
Dado isto, eu concluo: um dos problemas do monólogo do criado e do restante do texto reside na linguagem rebuscada, que afasta o público do que é dito, fazendo-nos prestar mais atenção nas palhaçadas. Daí perdemos todo o contexto de libertinagem, de conceituação de amor e paixão e de como Moliére achava que não amar ou ser libertino tinha a ver com não acreditar em Deus. Tal discussão é anacrônica hoje, mas não deixa de ser fascinante explorá-la, ainda mais em uma comédia. Portanto, isso não deve ser encarado como um problema, mas há que se pensar em como atingir a platéia de hoje com textos datados [e digo "datado" "não-pejorativamente", afinal, o texto é do séc. 17!]. De volta à velha questão: autores como Shakespeare e Moliére devem ter os textos realizados ipsis litteris ou adaptados (hein, Bárbara Heliodora?)? Essa discussão vai longe. Fica pra você, leitor.
8 expressões de apaixonada diferentes feitas pela atriz Christiane Galvan

