Críticas

Edmond

por Juliene Codognotto

4 Comentários 15 May 2007

A história de alguém que deixa a segurança de uma vida besta para se fuder no mundo real

Fotos: Divulgação

Edmond é a história de Edmond, um homem de 34 anos, com trabalho e vida estáveis, que resolve mudar tudo quando descobre – pela voz de uma cartomante – que é especial e que, por isso, deveria estar em um lugar mais especial. Nesta nova trajetória, procurando seu lugar no mundo, tudo o que o pobre coitado consegue é se fuder. Em todo e qualquer sentido que você possa imaginar.

Começa abandonando a esposa e procurando uma prostituta para se divertir, depois de ouvir de um amigo o sábio conselho: “você está precisando de uma boa trepada”. E ele bem que procura, mas o mundo da prostituição é ‘esperto’ demais para um Edmond boboca de classe média alta.

E, de repente, não mais que de repente, um pacato cidadão – cheio até o último fio de cabelo dos preconceitos que todos nós escondemos – se torna um serial killer de duas vítimas e só encontra de verdade seu “lugar especial” quando chega à prisão e se vê livre de seus medos, tendo a companhia mais improvável possível se considerarmos a construção de sua personalidade ao longo da peça.

A história de alguém que sai de sua rotina e se rebela contra o mundo ou acaba engolido por ele não é exatamente novidade. Filmes como Um dia de Fúria e Mais Estranho que Ficção trazem personagens que, de uma hora pra outra, em função de acontecimentos nem sempre relevantes, decidem abandonar suas vidas pacatas e banais.

Em Um Dia de Fúria, William Foster, interpretado por Michael Douglas, é absorvido e contaminado pela violência, da mesma maneira que Edmond. Ou, por outra, o ambiente violento e real das ruas permite a ambos revelar uma violência que já morava neles. Já Harold Crick, de Will Ferrel, no filme Mais Estranho que a Ficção, não se rebela de maneira violenta, mas também abandona desesperadamente sua vida babaca quando descobre, por meio de uma voz, que está prestes a morrer. Só então ele percebe o quanto sua rotina era desinteressante.

Nos três casos, Edmond, William e Harold, a busca dos autores é revelar e trazer à tona o fato de estarmos todos presos às vidas monótonas que vivemos de maneira automática. O despertar desta automaticidade pode ser desastroso, como no caso dos dois primeiros, ou criativo e inusitado, como no caso de Crick.

Voltemos ao Edmond, antes que ele se sinta desprezado ou solitário, pois isso o torna perigoso. Edmond é, definitivamente, um cara que fala. Fala, fala, fala. Fala demais. Em algumas passagens, suas falas são ótimas e o ritmo é perfeito. Em outras, Edmond me decepcionou muito, porque não me deixou descobrir, deduzir ou construir nenhum significado. Ele contou tudo!!!

Dinâmica e didática, a peça parece ter surgido de esquetes que, aos poucos, se encaixaram para formar uma história. Algumas esquetes são engraçadas, outras geram reflexão, outras são claramente malfeitas. É o caso das duas mortes, que mostram aos espectadores atônitos que a faca de Edmond é à prova de sangue humano.

Falhas de produção à parte, o espetáculo consegue uma pegada envolvente, com um cenário muito prático e atores rápidos e versáteis, embora nem todos muito talentosos (é o caso da esposa de Edmond, interpretada por Martha Meola, que aparece pouco, mas consegue ser inverossímil neste pouco). O único elemento que realmente atrapalha a dinâmica é a prolixidade do personagem principal, que talvez venha do texto original de David Mamet, talvez seja pecado da tradução de Marco Aurélio Nunes.

A história, em si, tem muitos pontos altos, dos quais destaco dois, especialmente. O primeiro é o momento em que Edmond chega ao auge da sinceridade em sua conversa com uma garçonete que quer ser atriz. Uma sinceridade que nunca expomos, mas que todo mundo sabe que sempre pensamos. O segundo é a maneira como o personagem joga na cara da classe média espectadora seus próprios preconceitos, da maneira mais suja possível. Além disso, há que se reconhecer os méritos da atuação de Marco Antônio Pâmio (o Edmond) e algumas soluções cênicas, como os biombos dispostos para formar o metrô em uma das esquetes.

Por outro lado, incomoda profundamente a intenção de tratar de todos os temas polêmicos ao mesmo tempo. Edmond quer falar de dinheiro, prostituição, jogo, assassinato, loucura, respeito aos animais, preconceito e homossexualidade, tudo na mesma peça. E, o pior, quer aproveitar pra fazer metalinguagem e falar sobre o que é o teatro. Naturalmente, não dá conta de tudo isso.

A peça, patrocinada pela FUNARTE, é um oferecimento da Anjos de Todas as Cores Produções Artísticas – cujo objetivo é, veja só!, “levar a uma reflexão sobre os valores sociais contemporâneos”. Neste caso, eu acrescentaria todos, antes de valores sociais, e ao mesmo tempo no final da frase. Assim teríamos um resumo da iniciativa que resultou em Edmond.

100 temas polêmicos em 100 minutos.

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Maria Clara says:

    se for possível: ´homossexualidade´no lugar de ´homossexualismo´. só o papa ainda acha que ser gay ou lésbica é doença. a ciência não acha mais. beijo gata.

  2. Juli says:

    E, afinal de contas, o “bom velhinho” já foi embora, não é mesmo? rs
    Valeu pelo toque, Maria Clara. Já está corrigido.

    Beijos.

  3. Ivam Cabral says:

    Juli do céu, você acabou contando o final da peça. Que feio! Não se pode fazer uma coisa dessas.

  4. Juli =) says:

    Ivam… xiiiiu… não conta que eu contei! rssssssssss Valeu pelo toque, mas não sei se o que eu contei é exatamente o final. Também não sei se o final é tão importante assim. Em todo caso, estou considerando a dica pra próximas! Beijão. Juli =)


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