Devíamos ter visto um tango…
O espetáculo El Ojo del Panóptico, como o título diz, é um estudo teatral em torno da sociedade de controle apontada pelo filósofo francês Michel Foucault – inicialmente estimulada pelo conceito arquitetônico penitenciário desenvolvido pelo utilitarista inglês Jeremy Bentham no século XVII, mas que é replicável a praticamente qualquer instituição que envolva algum tipo de controle, como escolas, escritórios, redações de jornais e parquinhos infantis.
Achou a apresentação muito didática? Pois esse é o início deste espetáculo argentino (sim, minha gente, a Bacante está cada vez mais internacional) que pretende misturar teatro e tecnologia. Traz, logo de cara, uma projeção que lembra uma breve aula de sociologia, explicando esse conceito sem aprofundar nada (e feita por uma boca voadora gigante e assustadora). A montagem é tão redutora que as cenas que sucedem este prólogo resumem todas as possibilidades de análises a três sentimentos (dor, culpa e medo), apresentados isoladamente e sem a menor preocupação de relacionamento com o tema central. Assim, todas as oportunidades de relação com o mundo moderno e – por quê não? – com o pós-moderno se dissipam.
A mesma estrutura se repete, inalterada, para cada sentimento: o personagem central (que mal conseguimos enxergar como personagem, do início ao fim da peça) abre uma boneca russa e encontra uma outra boneca; pega uma carta de baralho (misterioso né?). Então, é projetado o nome do sentimento a ser trabalhado, seguido por uma porção de símbolos (sabe aquela fonte Wingdings, do computador? Então…) e o coro realiza diversas cenas com segundos de duração e que representam aquele sentimento. Um exemplo? Na dor, aparece um cara com uns pregos enormes fincados no peito (sacou o naipe das cenas?). Após uma porção de imagens isoladas (e pouco representativas) como essa, ele abre novamente a boneca russa e – oh! – outra boneca. E começa tudo de novo, primário assim. Não precisamos nem nos esforçar no espanhol, já que as cenas eram todas mudas.
Desta forma, o espetáculo é apresentado como uma seqüência interminável de flashes permeados por blackouts, com muitas imagens e poucos significados. A fórmula dos apagões poderia ser um ótimo recurso, sobretudo nos momentos em que o coro surge e desaparece em frações de segundo – quase como um jogo cinematográfico -, mas a exaustiva repetição esvazia qualquer efeito surpresa. Pra terminar há ainda projeções de símbolos religiosos que se encaixam como engrenagem – dando à religião um peso muito maior do que o que ela realmente tem na atual sociedade de controle. Neste momento, o som lembra Tumbalacatumba, superhit de Valentino Guzzo (mais conhecido como Vovó Mafalda).
o término do espetáculo, nosso protagonista, só não mais atordoado do que a platéia, joga baralho com a morte (já vi isso em algum lugar?) e se refugia em sua posição fetal, pendurado em uma corda de rapel, tal qual Didi Mocó descendo do teto em um inesquecível Criança Esperança. Tudo com direito a coro de putaria querendo pegá-lo, música alta, luzes piscantes, chuva de cartas de baralho e, claro, muita projeção de coisa nenhuma.
Resultado final: um espetáculo encenado em um espaço alternativóide (que lembra os espaços dos Satyros, mas maior), com público muito parecido com a turminha que enche a cara nas calçadas da Roosevelt, que se define como uma experiência multimídia – mas que se mostra, depois de tudo, uma pretensiosa colcha de retalhos que não consegue levantar nenhum questionamento sobre aquilo a que se propõe.
1 tentativa frustrada de achar algo diferente em Buenos Aires

