Pegue o próximo elevador
(ler com entusiasmo) Três desconhecidos enclausurados em um elevador, tendo que conviver uns com os outros, à mercê da própria sorte. Condenados a dividir aquele espacinho, cada um teve que abrir mão de sua própria individualidade – sem televisão, joguinhos, água, banheiro ou nudez. Entre os personagens, o malandro descolado: de coturno e óculos escuro, é o típico folgado. Ele só tem um objetivo – comer a menininha. Em contraponto, temos o senhor de meia idade: misterioso, ninguém imagina o que esse homem carrega em sua maleta. E para completar, a garota: jovem, bonita, ar de ingênua, mais forte do que aparenta ser. Eles conseguirão sair ilesos do elevador? (fim do entusiasmo)
Não, esse não é um novo reality show. Trata-se da peça Elevador – Porcos não olham para o céu , do grupo Quadrilha de Teatro Notívagos Burlescos, em cartaz no Espaço dos Satyros I. O espetáculo corresponde exatamente à descrição feita no primeiro parágrafo, só que sem as rubricas e com um elemento lúdico a mais: na peça, o elevador não pára de subir. Assim, os personagens precisam deixar de lado as formais conversas de elevador – sobre o tempo, o prédio, as crianças, o carro – e estabelecerem uma relação mais íntima.
Contudo, esse contato ocorre por meio de um texto superficial, recheado de clichês e obviedades, como quando a menina constata o que todos já perceberam, ao dizer: “o elevador não pára de subir, isso é estranho. Não é normal. Ele já deveria ter parado”. Mas a situação chega no ápice quando o rapaz de óculos escuros, com voz alterada, fala para seus companheiros: “Porque você não abre logo sua pasta (para o senhor) e você não abre logo suas pernas (para a menina)?”.
Os pontos fortes da montagem são os momentos de silêncio. As longas pausas conseguem determinar o ritmo da narrativa. A peça inteira é embalada por uma música de elevador chatinha, suave, ao fundo, importante para o clima da situação.
O cenário inexistente traz marcações brancas no chão feitas com fitas adesivas, no estilo do filme Dogville, determinando o espaço do elevador. Em dado momento, uma parte da pasta do senhor sai um pouco para fora da marcação. Mas como era dia da estréia, relevam-se – esses errinhos acontecem mesmo.
Por fim, o espetáculo não mostra a que veio. O sentido do elevador não parar de subir também fica vazio dentro da narrativa. No contexto da peça, tanto fazia ele ter ficado parado, apenas subindo, ou até vagando de lado, que não faria diferença nenhuma.
2 piadas de pai dentro do elevador

