Glória ao Pai e ao Filho (os Tarcísios)
Resolvi assistir Ensina-me a Viver por dois motivos: o primeiro foi conferir de perto a atuação de Glória Menezes (que eu nunca tinha visto atuando no teatro) e o segundo foi o lacrimoso filme Harold & Maude (Ensina-me a Viver), que assisti quando tinha uns 11 anos de idade e que me marcou bastante. Bem, antes que alguém pergunte: “Sim! Eu era piegas aos 11 anos”… e para ser sincero: “Sim! Eu ainda sou piegas!” Mas é claro que é preciso explicar que é um piegas saudável, porque não sou daqueles que… bem, deixa pra lá, este não é o objetivo desta crítica… Voltemos a ela então…
Logo ao adentrar o Teatro Faap, um estranho sentimento de desconforto se apoderou de mim, uma sensação de estranheza, algo não explicado que fazia com que eu me sentisse um tanto quanto deslocado naquele ambiente. Demorei um pouco para perceber o que era: a estranheza era causada pelo público! Onde estavam os rostos conhecidos? Os freqüentadores assíduos das montagens da Praça Roosevelt? Aqueles que batem cartão no Oficina? Os “habitués” dos SESCs? Não, esse povo todo não estava por lá. O público de Ensina-me a Viver era composto por jovens casais, alguns mais maduros e grupos de senhorinhas. Enquanto vistoriava a platéia, fui incapaz de identificar integrantes da família dos iniciados teatrais que constituem o público da maioria das peças em cartaz. O público presente na FAAP estava contradizendo a máxima vigente que diz que em São Paulo o teatro é feito única e exclusivamente para a própria classe teatral. Não pude deixar de pensar que seria extremamente interessante assistir uma peça de teatro feita para o “público”. Eu estava me sentindo como se estivesse prestes a iniciar um excitante experimento científico…
Considerando que outras pessoas podem tentar reproduzir este experimento, eu faço aqui um breve parênteses para indicar alguns elementos que podem ajudar na identificação de uma peça teatral legitimamente feita para o “público”:
1 – Algum ator do elenco é famoso e está no ar em alguma novela da Globo. É claro que, dependendo das restrições orçamentárias da montagem, podemos ter algumas variações: o “famoso” do elenco pode ter sido integrante da Casa dos Artistas ou do Big Brother, ou ter saído na Sexy ou na G Magazine. O importante é que, independentemente de sua “fama”, este ator vai ter o seu nome usado como o principal chamariz da peça teatral (quando não for o único…).
2 – A peça nunca foi citada na Revista Bravo, mas pode ter sido citada na Revista Gloss (mas eu não saberia dizer, já que não leio essa revista).
3 – Dezenas de ingressos são sorteados para a peça nas rádios mais populares.
4 – Se for uma comédia, os atores irão parar para dar risada junto com o público. O público vai bater palmas sempre que isso acontecer. Esta é a única possibilidade de quebra da quarta parede. Meta-teatro ou encenações que gerem discussões sobre o fazer teatral nos dias de hoje não são permitidos.
5 – Se a peça for um drama, a trilha sonora vai ser formada por músicas dos filmes Castelos de Gelo ou Carruagens de Fogo. Clássicos sertanejos também podem fazer parte. Qualquer coisa do Richard Clayderman também se encaixa. O volume da música vai sempre aumentar em sincronia com o volume do choro dos atores.
6 – Uma das personagens principais vai ser uma empregada atrapalhada ou fofoqueira ou extremamente vagabunda. Ou as três coisas ao mesmo tempo.
7 – A peça não sai de cartaz nunca, está sempre trocando de teatro e de cidade. Normalmente são teatros e cidades de que você nunca ouviu falar.
8 – Você, leitor da Bacante, não vai ter coragem de confessar a ninguém que foi ver esta peça.
É necessário dizer que Ensina-me a Viver não se encaixa no padrão de “qualidade” acima estabelecido, afinal de contas eu estou aqui não só confessando que fui assistir como ainda escrevendo a respeito.
Fechado o parênteses, que de breve não teve nada, voltemos à peça, que começa num ritmo extremamente interessante: um criativo jogo cênico era formado em função de sucessivas movimentações dos objetos de cenário (executadas pelos integrantes do elenco de apoio) passando a compor, em ritmo acelerado, inúmeros ambientes diferentes. As cenas em que Harold simula seu suicídio (com os objetivos de chamar atenção para si e de assustar as demais personagens) são recriadas com forte impacto visual, cumprindo seu papel de divertir e assombrar a platéia. Pontos para a direção de João Falcão.
Como já confessei, um dos dois motivos que me levaram ao teatro da FAAP foi conferir a performance de Glória Menezes, um dos ditos “monstros sagrados da televisão brasileira”. Um tanto cético e precavido, eu já tinha idéia do que poderia acontecer: eu poderia facilmente me decepcionar com o “monstro” que, ao vivo, em carne e osso, sem os “efeitos especiais”, poderia não ser tão impressionante, poderia não causar nenhum impacto, poderia estar mais próximo de uma lagartixa do que do Godzilla.
Fico feliz que os meus receios não se confirmaram. Enquanto esperava que Glória Menezes surgisse em cena numa cadeira de rodas, empurrada por algum integrante do elenco de apoio, ela me surpreende e surge em cena engatinhando, esbanjando energia. Ponto para Glória Menezes.
O restante do elenco também defende com brilho as suas personagens. Arlindo Lopes convence como Harold (apesar de exagerar demais na cena final), enquanto Ilana Kaplan interpreta a amalucada Helena Chasen (mãe de Harold), levando o público às gargalhadas. Augusto Madeira e Fernanda de Freitas interpretam várias personagens e terminam roubando todas as cenas. Augusto tem 6 personagens (com destaque para Tio Vitor, um ex-militar que perdeu o braço na guerra) e Fernanda tem 3 (as três hilárias candidatas a namoradas de Harold). Pontos para o elenco todo.
Ao final da apresentação eu saio da FAAP feliz com o que vi, e percebo que este sentimento é compartilhado pelo restante do público. Que bom que gostaram da peça, tomara que voltem com mais freqüência ao teatro – quem sabe brevemente eu não encontro este pessoal na Roosevelt…
502 rostos desconhecidos na platéia



finalmente achei uma critica honesta, não dizendo que as outras não foram, mas o dito teatro comercial é sempre mau visto, claro que em sua maioria se resume a uma sala de jantar , 3 atores, um casal, e um amante, é sempre assim, mas nem todos os ditos teatros comerciais são ruins, assim como nem tudo da roosevelt é bom, alias, tenho assistido muita coisa ruim ultimamente na Roosevelt, vou ao teatro para me emocionar, rir, refletir, etc, e me incomoda profundamente quem quer ser cabeça demais, ou apenas uma piração do diretor, isso anda me irritando ultimamente, gosto da simplicidade, não há nada mais simples e bonito do que aldeotas, e alguns outros trabalhos.Parabéns pela critica sincera!
Li ansioso o texto, mas não achei a “crítica”.
Alguém pode me informar em que paragráfo se encontra?
Nada pessoal…
rs
Leia de novo, Rodolfo.
Agora com atenção às vogais.
Você vai encontrar.
Abração
Em geral, nao reclamo e simplesmente procuro em outro site. Marco, voce falou muito, mas muuuuito, de voce mesmo. Apesar de bem escrito, procure atencao em outra praia. Tente contos ou um romance; pode dar muito certo !
Ricardo, não entendi seu ponto… Você prefere uma crítica em que o autor mostre o que pensa e o porquê de seu raciocínio – ainda que para isso tenha de se expor -, ou um texto hermético que não diz a que veio e que não tem a menor característica de seu autor? Esse segundo caso, você considera, ainda assim, uma crítica?
Oi Ricardo. Fiquei com a mesma dúvida do Maurício. Partindo do pressuposto que toda crítica é pessoal e subjetiva, será que existe um limite, que não pode ser ultrapassado, para esta subjetividade? Será que não é válida a exposição de quem escreve, com o intuito de contextualizar algumas das opiniões colocadas?