Críticas

Êxodo

por Juliene Codognotto

9 Comentários 25 March 2008

Falar o quê?

Fotos: Cris Seciuk / Clix

Êxodo 5

Estamos todos na Bacante falando de critérios para escolher entre as muuuuuuuuitas peças em cartaz no Fringe – a mostra “alternativa” do Festival de Curitiba. No caso de Êxodo, encenada pela companhia curitibana Teatratividade Produções, fiquei nos mais básicos: proximidade e horário, até porque, pela sinopse, esperava um relato clichê de um fenômeno antigo que, junto com muitos outros fatores, é responsável pela doideira que se vive hoje nas grandes cidades. Afinal, o que a gente já não ouviu ainda sobre êxodo rural desde a quinta série?

No entanto, o que foi apresentado naquele teatro-galeria (que parece mais galeria que teatro), não era coisa-de-ouvir, era coisa-de-ver, muito diferente do que se ensina na escola e, sobretudo, muito diferente do como se ensina. De tanto ver, somos provocados a ver mais. Ver e refletir sobre um fenômeno tão complexo sem que os atores precisem formular uma única frase, uma única palavra. Apenas alguns sons, algumas sílabas e, sobretudo, uma série de imagens que se repete e progride lentamente sem dar sono (incrível, não?).

Simplicidade que em vez de simplificar, aprofunda a temática, dando liberdade para formularmos, dentro de nós, mais reflexões do que quando lemos uma reportagem sobre o assunto e acreditamos estar ali tudo o que se pode saber sobre aquilo. Talvez não haja mesmo nada mais a dizer no código restrito das palavras, mas há o que mostrar, o que pensar.

Êxodo 4

Figurino simples, cenário formado por um rio e algumas flexíveis caixas de madeira (aquelas de feira, sabe?) que viram berço, cadeira, carroça, barraco… Personagens estereotipados e definidos por gestos padronizados e pelo som de seu riso, de seu choro, de sua tosse. Aos poucos, provocados, nossos sentidos vão aguçando e então todos os sons e as expressões se tornam preciosos e repletos de significados. Tanto que quase podemos ouvir o ronco do estômago dos personagens quando eles fazem menção à falta de alimento esfregando a mão na barriga.

Um dos momentos mais emocionantes é quando mãe e filhos retornam para o sítio, fugindo da violência do pai – provocada, claro, pelas dificuldades enfrentadas. Sozinho, ele se lembra dos bons momentos em família. O público, para que possa reviver com ele essas emoções, assiste à repetição de cenas já vistas, mas desta vez sem a participação das atrizes. O pai, então, não tem a filha para abraçar, mas repete o mesmíssimo gesto e ouve-se, ao fundo, a risada dela, já tão conhecida. A lembrança e a saudade, definidas de maneira tão simples, tocam porque não se limitam a lamentos textocêntricos de um personagem linear e naturalista.

êxodo 6

A história, não preciso contá-la. Quem vive numa cidade grande ou já passou por uma, viu uma infinidade de exemplos de famílias que procuraram uma vida melhor e encontraram ainda mais dificuldades, além de perderem sua união. Nesse âmbito, que podemos denominar dramatúrgico, só uma fragilidade desponta – não era preciso fechar o final feliz dos personagens, como se fosse uma fábula. Numa peça tão cheia de sentidos, eu teria preferido imaginar os caminhos trilhados por eles no futuro.

Só 11 privilegiados na platéia.

O que a galera acha

9 comentários até o momento

  1. Valmir says:

    Só 11? Adoro o Fringe… Todo mundo reclamou no ano passado… No maior festival do país, 11 pessoas na platéia…

  2. Luana says:

    Achei o festival deste ano muito mal divulgado e com peças horrorosas, mas graças a Deus sou uma das 11 pessoas privilegiadas que assistiu a peça Êxodo. Concordo com tudo oq vc disse, mas tbm gostei do final.

  3. que interessante e bom saber de um trabalho assim… beijo.

  4. jaque says:

    bom, particularmente gostei muito do festival, apesar d realmente ter sido meio desorganizado, mas, infelizmente não pude ver êxodo, (:/)
    mas tenho certeza que foi um ótimo espetaculo..
    parabens ..
    e com certeza com o passar do tempo, o espetaculo e outros q surgirão
    serão maravilhosos..
    bj!

  5. Fabrício Adami says:

    Se não me engano, o diretor desta peça é Reikrauss Benemond, que já esteve trabalhando nos palcos do Rio de Janeiro.
    Trata-se de um verdadeiro monstro, tanto na atuação quanto na direção teatral.
    Recomendo qualquer trabalho que tenha seu nome envolvido.
    Tenho inveja da privilegiada população curitibana por estar às voltas de um gênio como este.
    Espero que este grupo possa mostrar seu material para o público carioca, saturado de peças medíocres e atores/modelos insosos e sem talento.

  6. Rodrigo Segantini says:

    Assisti quase todas as apresentações de Êxodo no Festival mal organizado de Curitiba.
    Me emocionei em todas as apresentações!
    A peça é muito bem montada… não tem como não entrar na estória…
    O Diretor Reikrauss Benemond é fera… manda mais do que bem no Teatro! Sou fã do cara!!! É assim que dá ainda mais vontade de aprofundar neste mundo maravilhoso.

  7. Leandro Lobo says:

    Pena que durante o ano esse grupo não faz trabalhos expressivos… apenas algumas peças que visam publico e mais nada.

  8. Reikrauss says:

    Comentário infeliz o seu Leandro Lobo, que por sinal nunca o vi assistindo nenhum espetáculo meu. Soa como inveja não acha? Enfim….

    Vai aí outras críticas de outros trabalhos, tire suas conclusões sobre “algumas peças que visam o publico e mais nada”.

    http://www.curitibainterativa.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=16906

    http://jornal.amigosdobairro.com/index2.php?ctg=23&nt=568

    Comentário de gente que não entende o significado do teatro, realmente eu viso o público mas com trabalhos de qualidade.

  9. Juli says:

    Talvez o Leandro também esteja apontando para uma questão realmente complicada que é a falta de incentivo e de público no teatro curitibano fora da época do Festival, o que acho que vale a pena discutir.

    Só não entendi tb o que ele quis dizer com “visam o público” e acho que ele descondera o fato de que Êxodo, por exemplo, foi apresentado no Festival, mas teve um trabalho de concepção anterior a ele = resto do ano.


E você, o que acha?

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