Críticas

Experimentações Inevitáveis + Antropofágica 3

por Marco Albuquerque

Nenhum Comentário 26 May 2008

Uma maneira diferente de contar uma história

“Isso é Dança ou é Teatro?”. Essa frase, proferida diversas vezes pelos componentes da Cia Nova Dança 4, provoca ruidosas gargalhadas na platéia. O espetáculo que me-ta-lin-guis-ti-ca-men-te lança esta dúvida para o público é Experimentações Inevitáveis + Antropofágica 3, e o público em questão é a do Sesc Consolação, eleito a melhor sala de teatro da cidade de São Paulo.

Além do local, o espetáculo em si também é reconhecidíssimo: Experimentações Inevitáveis + Antropofágica 3 ganhou o APCA na categoria de Melhor Espetáculo de Dança de 2007. Opa! Seria essa uma pista para responder à questão que inicia esta crítica? Provavelmente não, já que existe tanto teatro neste espetáculo quanto existe dança em My Fair Lady, ganhador do APCA na categoria de Melhor Espetáculo Teatral de 2007.

Com direção da também premiada Cristiane Paoli Quito (quantos prêmios são mencionados nesta crítica, não é mesmo? Vale então abrir um pequeno espaço pra relembrar o prêmio da Bacante), o espetáculo é alicerçado na improvisação e possui apenas um início e um final pré-determinados. Tudo o que acontece entre estes dois momentos é criado na hora pelos componentes da Cia Nova Dança 4. O resultado disso é que há muita verdade cênica e a platéia curte esta veracidade. O corpo literalmente fala neste espetáculo e se comunica por si só, livre de amarras e de qualquer coreografia pré-estabelecida. A impressão que fica para a platéia é a de que todos os componentes da Cia Nova Dança 4 estão ali fazendo única e exclusivamente o que querem (o movimento que querem… o texto que querem…) e quando querem. Fico com vontade de juntar-me a eles no palco e usufruir daquela liberdade.

Existe, entretanto, um fio condutor para o trabalho corporal do grupo: a história da atriz e bailarina Marilena Ansaldi. O que marca significativamente essa história é a própria dualidade entre dança e teatro na vida e na obra de Marilena, razão que justifica todas as escolhas cênicas da Cia. Além das contextualizações (sempre com muito humor) dos principais fatos e personagens que marcaram a história de Marilena, existe ainda espaço para intervenções de histórias pessoais dos intérpretes. 

Esta foi a segunda vez que assisti ao espetáculo (a primeira foi em agosto de 2007, por ocasião da participação do grupo no II Festival Jogando no Quintal de Improvisação) e nas duas ocasiões a história de Marilena Ansaldi foi contada de maneira similar, apesar de ter ritmos diferentes, atores diferentes em momentos diferentes e, especialmente, movimentos diferentes. Entretanto, além da história, o que une as duas apresentações é o vigor, a energia, o entusiasmo com que tudo é contado. Impossível não viajar nesse balão.

Tanta liberdade e improvisação geram, claro, alguns problemas: em alguns momentos, dois atores iniciam simultaneamente um texto. A escuta, entretanto, é enorme e um deles rapidamente se cala, evitando que o espetáculo seja comprometido. A liberdade também se estende à pequena banda que integra o espetáculo e que escolhe, no palco, as músicas a serem tocadas dependendo do espírito da noite.

Ao final fica mesmo a questão: “Isso é Dança ou é Teatro?” Esta questão, que talvez não tenha sido respondida na vida e na obra de Marilena Ansaldi, também não é respondida em Experimentações Inevitáveis + Antropofágica 3. De qualquer forma, se você quiser tentar responder, pode dar sua opinião após assistir um trecho do espetáculo aqui.

 

1 questão não respondida… e não precisa!

E você, o que acha?

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