Críticas

Faces da Loucura

por Fabrício Muriana

2 Comentários 25 March 2008

Dos limites da sanidade, da loucura e da radicalização de propostas

Foto: Rogério Nunes/Clix

faces da loucura

Quando se está num festival, qualquer alternativa que tire o público do circuito dos mesmos teatros e das mesmas ruas faz com que o interesse cresça com relação à proposta a ser apresentada. Em Rio Preto, nunca vamos esquecer da sensação de ir pro meio de um pasto, ao cair do sol, pra assistir uma peça sem falas. No Rio de Janeiro, éramos levados pra baixo da ponte Rio-Niterói para a execução da cena que representava a construção de Brasília em BR-3. Em Porto Alegre, Les Éphémères foi deslocado no tempo e no espaço, mesmo assim fazendo parte da programação do festival. Sem contar a vantagem da divulgação espontânea, tirar a peça dos teatros tradicionais também permite incorporar ao trabalho questões de ocupação urbana e, a partir disso, um sentido contemporâneo do teatro, como um novo encontro em novos lugares. Vide o trabalho dos Satyros na Vila Verde.

Partindo de algumas dessas questões e na busca por estados corporais alterados, a Cia. Essencial de Teatro foi parar numa ala revitalizada do hospital psiquiátrico Nossa Senhora da Luz – onde hoje funciona a administração – e desenvolveu a peça as Faces da Loucura com base em vivências com internos e histórias do hospital. O encontro se inicia com uma série de brincadeiras infantis, das quais participam atores, internos e público, tirando qualquer hierarquia que se possa instituir dentro do espetáculo.

Na seqüência, três personagens são apresentados e os internos deixam de participar. Essa cisão quebra a radicalização de uma das propostas mais interessantes da peça: a dificuldade ou até impossibilidade de distinção entre quem é interno (ou ex-interno) e quem é ator, mas há que se considerar o sofrimento que seria para estas pessoas lançar um olhar sobre si mesmas ao interpretarem-se durante as crises que acabam de superar ou que ainda estão superando.

Depois de dançar e fazer versos no pátio, subimos as escadas para conhecer, andar por andar, três personagens com um diagnóstico comum: esquizofrenia. Cada um com seu universo paralelo, divagam sobre extra-terrestres, demônios e realidades que só se manifestam para eles. Em monólogos curtos, fazem questão de afirmar que não são loucos e que a internação é só mais a tática de um complô organizado contra eles.

Chegamos finalmente ao quarto dos internos, com camas de ferro sem colchão (muito relaxante, não? Bom pra evitar surtos) e novos monólogos. Nesse ponto, com exceção das falas de uma personagem que carrega consigo um lampião e propõe questões sobre os limites entre sanidade e loucura, não há ligação entre aqueles personagens. Embora a semelhança entre eles e suas trajetórias seja extremamente clara, a dramaturgia não usa isso em prol da dinâmica e não promove interação. Os personagens não se interrompem. Cada um conta sua história na sua vez, sem alterar a ordem, ainda que as histórias tenham tantos pontos comuns.

Perto do fim, há pequenas conversas entre os três, resgatando questões já narradas por eles. Mas são tão poucas e curtas que não conseguem expor a questão da sociabilidade de um esquizofrênico, nem tampouco transformam em cena a excelente e necessária reflexão sobre a fragilidade da fronteira entre sanidade e loucura. Além de mais diálogo, faz falta também saber das demais histórias encontradas pelos atores no Hospital, que valeriam, pelo menos, boas discussões – algo em falta nos festivais em geral.

10 doidinhos (entre público, platéia e esquizofrênicos) brincando de ciranda.

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. fernanda dilkin araujo says:

    acho bom poder ficar por dentro deste assunto alguma hora será bom saber e precisaremos usar tudo o que sabemos para se quizermos ser alguém na vida temos que estudar muitoooooooooooooooo

  2. Juli says:

    Oi, Fernanda.

    Obrigada pelo comentário, mas me permito discordar de ti. Minha sobrinha que acabou de nascer não estudou nada ainda… tá ocupada aprendendo a mamar… e já é alguém na vida. rs O quero dizer realmente é que estudar é muito bacana, mas o que é ser alguém na vida mesmo? E o que é preciso pra isso?

    Beijos,
    Juli =)


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