Críticas

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito

por Tomaz de Aquino

5 Comentários 22 January 2009

Pequeno Poema Infinito

Domingo à noite. Saio da minha casa. Dirijo-me ao Centro Dragão de Arte e Cultura. Teatro lotado. Peça de fora. Do Rio de Janeiro. Peça trazida com verba pública. Governo do Estado do Ceará. Chego em cima da hora. Na verdade, dez minutos atrasado. O espetáculo ainda não começara. Burburinho. Frisson. Platéia agitada. Sento-me num local até bom para quem chegou atrasado: última fileira na vertical – sentido palco-pláteia, e centralizado na horizontal – sentido esquerda-direita. Locução do teatro. Locução do espetáculo. Mais um monólogo. Vestibular em cena? Que luz bonita! Que cenário estupendo! Que música! Orgulho ou preconceito? Século XIX? Vamos fazer uma leitura após a refeição, Lady Catherine? Não, 1933. Uma conferência. “Como Canta Uma Cidade de Novembro a Novembro”. Ops! Desculpe, não me apresentei, eu sou o narrador.

Ele: É o mesmo ator que apresentou mês passado aquela peça sobre Machado de Assis.

Ela: Qual era mesmo o nome?

Ele: Não lembro.

Ela: Faz uma forcinha…

Ele: Ah! Lembrei! Era: “Contando Machado de Assis”.

Ela: Quero ver se vai ser do mesmo jeito. (Pausa)

Ele: Olha, ele está se apresentando para nós.

Ela: Outra peça com relação direta com a platéia.

Ele: Mas ele está distante. Parece uma palestra.

Ela: Uma conferência. Acho que é isso, uma conferência. E nós somos os participantes passivos desta.

Ele: Quem é ele?

Ela: Menino, ele se apresentou e eu ainda não sei quem é.

Ele: E aê?

Ela: E aê, o quê?

Ele: É na mesma linha da outra?

Ela: Ih! Pelo visto é.

Ele: E como é?

Ela: Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá…

Narrador: E assim foi.

Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, PRIMAVERA blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. GRANADA.

Ele: Ele é o Lorca ou é uma pessoa falando sobre ele nesta palestra?

Ela: Ainda não sei! O que sei é que ele é granadino.

Ele: Então acho que ele é o Lorca.

Narrador: Os dois pausam…

Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, VERÃO blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá,

Ela: É! Ele é o Lorca. Tá vendo? A oliveira tá chamando ele de Federico.

Ele: Engraçado. Uma árvore que faz em seus galhos no balançar com o vento o som: Federico!!!

Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, OUTONO blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Narrador: E Lorca canta e toca no piano.

Ela: Que musiquinha bonita!

Blá, blá.

Ele: Outra música!

Ela: Olha, o cenário muda de cor.

Ele: A luz é ótima!

Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, INVERNO, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Narrador: ——————————–

Ele: Outra música!

Ela: Ele devia ficar só tocando.

Ele: Olha, acendeu o pisca-pisca!

Ela: Foi, eu vi.

Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

Narrador: Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z-Z…

Blá, blá, blá, blá.

Narrador: Palmas calorosas. Muitas palmas. Platéia eufórica.

Ele: Acabou?

Ela: Eu acho que acabou. Deu black-out.

Ele: A peça é de onde mesmo?

Ela: Do Rio de Janeiro.
Narrador: Fim.

Ler é o melhor remédio!

O que a galera acha

5 comentários até o momento

  1. Marina Brito says:

    realmente… rsrs.

    Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

  2. Maíra says:

    grande parte das vezes, colocar o autor falando ,entrega falta de criatividade do diretor ou breguice mesmo.
    Mas não descarto a possibilidade de dar certo…
    se alguém souber , me avisa.

  3. Maíra says:

    P.S: achei o formato da crítica uoótimo!
    É como um(a) amigo/a me contaria. vlws..

  4. vanessa says:

    luz boa. Realmente a blablação toma a peça. Mas em alguns momentos algo fica, nem que seja PRIMAVERA e VERÃO.

  5. Andréa Benício says:

    Ah, é do Rio de Janeiro ?!?
    Aplausos calorosos!!!!
    ???


E você, o que acha?

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