Espetáculo Multiuso: 50 em 1
Logo no início Hugo Possolo diz que não explicará muito sobre o projeto porque está tudo no programa do espetáculo. Como a preguiça em escanear tal programa é grande, aqui vão algumas explicações. Não se pode dizer que seja uma peça. Na verdade, são 50 textos escritos por 51 dramaturgos, encenados por 10 atores e dirigidos por seis diretores. A iniciativa e organização dessa grande brincadeira chamada de Festival de Peças de um Minuto foi do grupo Os Parlapatões, que também participam com atuação, direção e, por que não, com um texto de Hugo Possolo.
Claro que em um espetáculo com 50 textos diferentes com duração de um minuto cada, a variação de qualidade entre uma esquete e outra acaba sendo grande. Assim como existem bons textos, ou trechos simplesmente engraçadinhos, algumas das mini-peças estariam muito bem encaixadas no programa Zorra Total ou num A Praça É Nossa, tradicional programa da TV brasileira – deixando claro que estar em um deles não é bom. Quer dizer, se alguém acompanha esses programas não tenho nada contra – cada um tem seu gosto – mas prefiro me manter longe dessa prática.
A diversidade entre os dramaturgos chamava a atenção: tinham seu um minuto de holofotes nomes conhecidos do grande público como Marcelo Rubens Paiva, Marcos Caruso, Gero Camilo e Paulo Goulart; nomes “do teatro” como Celso Frateschi, Fernando Bonassi e Marici Salomão; nomes com fã clube como Mário Bortolotto; além de Sérgio Sálvia Coelho representando todos os críticos de teatro desse Brasilzão de Meu Deus.
Destaque para o texto de Sérgio Roveri, O Menino, um monólogo com Possolo, dirigido por Marcos Loureiro. Nele, um pai se irrita com seu filho porque este começa a falar em ideais, em ter prazer e ser feliz, conceitos de difícil aceitação para o pai. Em um tempo em que o estímulo é trabalhar muito para ter cada vez mais dinheiro, realmente prazer e felicidade acabam ficando perdidos pelo caminho. Outro destaque é Dinâmica Imprevista de Fábio Torres, que trouxe o mundinho das dinâmicas de emprego (sabe aquelas “brincadeiras” inventadas por algum RH carente de atenção?), para os palcos. Quem nunca precisou decidir quais dos habitantes de uma cidade salvaria de um desastre nuclear? O texto mescla diferentes dinâmicas, com uma pitada de piadas populares, daquelas que envolvem um português, um judeu, um brasileiro, e um alemão dentro de um avião em queda livre.
Em algumas esquetes, a direção e a atuação salvaram o texto, como é o caso de Intervalo, de Roney Facchini, dirigida pelo mesmo. A idéia é simples – duas empregadas durante uma folguinha em seus trabalhos, discutem sobre um “corpo” que não quer descer pela privada. O hilário da cena ficou por conta da atuação dos parlapatões Claudinei Brandão e Hugo Possolo, este comendo discretamente uma geléia de mocotó. Se ao invés dos dois tivéssemos Cláudia Gimenez e Márcia Cabrita como intérpretes, viraria um quadro de Zorra Total – deixando claro, mais uma vez, que isso não é bom… para mim.
Apenas para dados estatísticos, dois textos usaram o universo de Samuel Beckett como mote, o que nos leva a crer: ou a melancolia e desesperança beckettiana é engraçada, ou o mundo de Beckett é engraçado em um minuto, ou os dois dramaturgos combinaram para o Samuel tomar conta do pedaço, ou já virou senso comum. Também foram inspirações Nelson Rodrigues e Sófocles, quase loosers perto de Samuca.
Depois de assistir 50 peças diferentes em 1h40 a impressão que se tem é de ter visto de tudo um pouco, sem absorver muita coisa, guardando poucas lembranças na memória. A dinâmica criada não deixou o espetáculo nada cansativo, e proporcionou boas risadas. Contudo, a discrepância na qualidade dos textos, alguns pouco trabalhados e até pueris – lembrando antigas piadas de colégio – nos faz pensar que se tivessem mais tempo ou a liberdade de chegar para o dramaturgo X e falar “desculpe, querido X, mas seu texto não está bom”, a diversão poderia ser maior.
51 dramaturgos, 50 peças, 10 atores e 6 diretores dentro de 1 espetáculo


Numa boa, é realmente triste a forma como as pessoas que escrevem nesse site enxergam o teatro e seus artistas. Não consigo nem mesmo experienciar ao suposto “Bom-humor” das resenhas aqui publicadas. Lamentar que frequentadores de teatro que aqui escrevem honram-se em fazer comentários vazios, abarrotados de conceitos e pré-conceitos. Escrevo isso depois de ler alguns pares de resenhas publicadas por aqui. Manifestem-se, mantenham o bom-humor, mas por favor antes disso se joguem um pouco na vida para experienciá-la mais agradavelmente.
Juro que gostaria de saber o que é se “jogar um pouco na vida”. Numa boa. Precisamos de exemplos mais práticos. “Se jogar na vida” é postar anônimo? Se for isso, acho que todos já fizemos. Não tem muita graça. Melhor é fazer humor e assinar embaixo. Sem medo de ofender com sinceridade. Um conselho: se joga um pouco na vida virtual e se explica melhor da próxima vez.
Abraço e Feliz Natal.