Flor seca no meio dos livros
Espetáculos no Ágora Teatro costumam me incitar à reflexão antes mesmo de entrar no espaço, enquanto a platéia espera no jardim-foyer antes da abertura da sala. As pessoas que ali freqüentam são bastante peculiares: não são exatamente o público que usa colar de pérolas pra ver o Marco Nanini no Cultura Artística, mas também não como a tchurminha descolada da Roosevelt. Ali rola uma coisa meio “chique é ser inteligente”: elas não usam pérolas mas sabem que um banhinho, um perfuminho e uma roupa descolada são garantia pra não fazer feio no quintalzinho cult da Rui Barbosa.
No palco, os outros espetáculos que já vi ali também eram bastante peculiares. Em geral, não radicalizavam em propostas ou linguagens, mas evidenciavam a qualidade dos textos escolhidos por meio de boas interpretações. Foi com essa expectativa que fui conferir Flores Anônimas, parte do projeto Machadianas – que também originou o espetáculo Um Homem Célebre, já criticado aqui na Bacante.
A idéia nesta peça era explorar o universo feminino no século XIX (temática também pesente nos Arrufos do XIX e na Camaradagem do Tapa) através de dois contos de Machado de Assis (afinal, estamos falando das Machadianas, certo?). Em Um Homem Célebre, as paredes e o chão do palco estavam despidos de quaisquer elementos. Em Flores Anônimas, há uma capa e lombadas de livros gigantes forrando o fundo do palco, dando a impressão de que ali seriam apresentadas as aventuras de Gulliver numa biblioteca. Antes mesmo de começar o espetáculo, o cenário já propunha um desafio: será que o teatro conseguiria sair da sombra da literatura – ainda mais com livros tão grandões?
Pois bem, a apresentação começou e a expectativa que eu tinha de ver algo similar àquilo que havia me agradado em Um Homem Célebre veio como uma praga: o formato é sim parecido – até demais. O elenco não decepcionou, mas permanecia a mesma narração dos contos em terceira pessoa e as quatro pessoas alternando personagens para ilustrar o conto narrado. E ao contrário do espetáculo anterior, em que as ações físicas davam novos movimentos e imagens ao que era dito, aqui, por mais elaboradas que fossem, as ações não passavam de legendas que refletiam literalmente aquilo que era dito, quase como uma mímica para mostrar o que a platéia já sacou. A trilha sonora também não ajudava: parecia estar mais presente para preencher espaços vazios do que para imprimir novos significados ou ritmo à cena.
Ao término da apresentação, logo após a cena final com um artificial discurso “suffragette“, praticava meu péssimo hábito de ouvir a conversa alheia para captar percepções, enquanto saía do espaço pensando em como seria uma outra maneira, mais inventiva, para o teatro investigar os contos de Machado – afinal a platéia estava lá mais para ver teatro do que um conto narrado, certo?
Mas pode ser que apenas eu tenha saído dali com essa frustração e com essa indagação, pois a platéia riu bastante durante a peça (apesar do registro cômico presente no espetáculo ser bastante sutil). E a moça de vestido curtíssimo cuja conversa eu bisbilhotava saiu comentando, sinteticamente, que o que acabara de ver foi “o máximo, né?” – segundos antes de mudar radicalmente de assunto para anunciar a seu acompanhante que havia ido à Daslu.
2 contos emoldurados pelos livrões

